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    Velozes & Furiosos 9
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Velozes & Furiosos 9

    A arte de fazer graça consigo mesmo

    por Vitória Pratini
    Velozes & Furiosos 9 começa com a logo clássica de sua produtora, Universal Pictures, dos anos 80, já ditando o tom do filme. Desta vez, a história de Dom Toretto (Vin Diesel) será acompanhada de duas épocas diferentes: 1989 e os tempos atuais. Para diferenciá-las, o longa de Justin Lin faz uso de uma estética bastante autoral nos períodos de flashbacks, o que contrasta bem com as sequências agitadas, improváveis e repletas de ação da atualidade. O novo Velozes & Furiosos reúne todos os elementos que popularizaram a franquia: cenas insanas, mistério, tensão, momentos família e o retorno de (praticamente todos os) personagens queridos da saga.

    Um dos filmes mais aguardados de 2021, F9 tem Dom e Letty (Michelle Rodriguez) seguindo com uma vida pacata ao lado de seu filho Brian (ou “Brianzinho”, ou “Pequeno B”, como é referido, para evitar confusões com o personagem de Paul Walker). Até que uma mensagem do Sr. Nobody (Kurt Russell, em uma participação especial) coloca todos em uma missão de perigo mundial contra Jakob (John Cena), Cipher (Charlize Theron) e Otto (Thue Ersted Rasmussen).

    Cenas de flashback explicam briga entre Dom e Jakob

    Segunda parte de uma trilogia que começou no oitavo filme, o novo longa segue uma estrutura padrão similar a Velozes & Furiosos 6 e Velozes & Furiosos 8, especialmente no conceito “família”. Dom Toretto sempre considerou seu grupo a sua família, pessoas por quem ele daria a vida. No entanto, F9 apresenta Jakob, personagem de John Cena, que é ninguém menos do que o irmão do protagonista. E a principal dúvida é: por que eles são “inimigos”? O que fez com que eles se separassem? A resposta, apresentada nas cenas de flashback pinceladas de forma muito sutil no meio de toda a ação e frenesi, foge do comum.

    Enquanto as sequências dos dias atuais oferecem um verdadeiro filme de ação no estilo Missão Impossível, com cenas frenéticas e improváveis; o arco de 1989 traz uma nostalgia em relação às corridas de carro do primeiro Velozes & Furiosos e sugerem um lado mais emocional para os personagens. Nota-se, inclusive, que Finn Cole (Peaky Blinders) e Vinnie Bennett (A Vigilante do Amanhã: Ghost in the Shell) são muito mais expressivos que suas versões mais velhas, John Cena e Vin Diesel.

    Universal Pictures


    John Cena convence mais no lado “emotivo” do que no “durão”

    Entre as novas adições do elenco, John Cena (Esquadrão Suicida) se esforça como Jakob Toretto, curiosamente sendo menos convincente no lado “durão” do que no “emotivo” (sabia que o Cena é autor de livros infantis?!). Sua dinâmica com Dom funciona bem, lembra o embate entre Toretto e Luke Hobbs (Dwayne Johnson), e faz um contraste interessante com a relação de Dom e Han. A novidade bem-vinda é a troca entre Jakob e Mia, com John Cena e Jordana Brewster entregando suas atuações no olhar.

    Considerando que tanto Cena quanto The Rock são lutadores e atores, têm o mesmo porte físico e estilo de atuação similar, não é difícil supor que o intérprete de Jakob seja o “substituto” de Johnson como o páreo para Vin Diesel. Afinal, Hobbs foi de vilão a mocinho e ganhou seu próprio spin-off, ao lado de Shaw (Jason Statham), em meio às polêmicas envolvendo brigas entre The Rock e Diesel. Detalhe: apesar de enfrentar os “machões” durante os 20 anos da franquia, é a vilã de Theron que faz Toretto e os outros tremerem na base.

    Por mais que os trailers tenham exposto bastante do filme, alguns detalhes ficaram de fora, como as próprias cenas de flashback; o personagem do dinamarquês Thue Ersted Rasmussen (bastante caricato, como uma crítica à “ricos mimados” que “comandam o mundo”). Além, é claro, do excelente Michael Rooker (Guardiões da Galáxia, The Walking Dead), também é uma boa adição à franquia, apesar de não trazer muita profundidade em cena.

    Personagens femininas ganham mais espaço em Velozes & Furiosos 9

    Outro destaque positivo é Cipher, vilã de Velozes & Furiosos 8, a ciberterrorista que anteriormente chantageou Dom para obter ogivas nucleares, agora está presa, mas esse fato não a faz “descer do salto”. Charlize Theron rouba a cena e mais uma vez entrega uma personagem poderosa, cuja oratória de persuasão usa e abusa de referências cinematográficas e históricas. Ponto positivo para a análise metalinguística com Star Wars.

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    Theron não é a única atriz que brilha em Velozes & Furiosos 9. Michelle Rodriguez bateu o pé e conseguiu: as personagens femininas ganham mais protagonismo, ótimas cenas de ação para chamar de suas e uma sequência emotiva entre Letty e Mia — um respiro bem-vindo no meio da elaborada trama principal. Até mesmo a Dame Helen Mirren se diverte atrás do volante nas ruas de Londres, em uma cena muito esperada.

    Elle (Anna Sawai) e Leysa (Cardi B) ganham seus momentos “girl power” e “salvadoras da pátria” no filme. Uma tem papel importante no arco de Han; a outra é uma figura do passado de Dom, apesar de sua aparição não ter sido bem explicada, com a promessa de que isso seja revelado em Velozes & Furiosos 10 — dividido em duas partes.

    Velozes & Furiosos 9 ri das próprias piadas

    Velozes & Furiosos 9 não se leva a sério e isso é ótimo, faz parte da experiência. Isso é evidenciado no personagem de Tyrese Gibson, Roman, cujas tiradas espirituosas deixam claro o absurdo de tudo isso. Roman, Tej (Ludacris) e Ramsey (Nathalie Emmanuel) mais uma vez funcionam como o alívio cômico da saga, em cenas tanto hilárias quanto estapafúrdias, ainda que Roman e Ramsey ganhem mais espaço para brilhar solo. Diante de corridas por cima de campos minados, imãs em carros, a cena mais ridícula (porém ousada) é aquela em que os personagens vão para o espaço — literalmente — com foguetes presos no carro e roupas de mergulho dos anos 40 cheias de fita adesiva.

    Mas lembre-se: há o absurdo/tosco proposital e há aquele que foi feito de forma incidental. Velozes & Furiosos 9 sofre bastante disso. Ao mesmo tempo em que apresenta complexas cenas de ação — feitas com efeitos práticos que causaram a destruição de centenas de carros — o filme também economiza em outros quesitos.

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    Cenas que poderiam explicar determinada resolução não existem, provavelmente com o intuito daquilo ficar implícito para o público. Mas essa escolha resulta em furos de roteiro. Tais sequências, se existissem, serviriam para amarrar pontas soltas, fugir do caminho conveniente e tomar fôlego em relação às cenas movimentadas — tantas que chega a ser cansativo.

    Outra questão são os efeitos especiais. Além dos efeitos práticos, que agregam qualidade e excelência às cenas de ação, Velozes & Furiosos 9 também utiliza bastante do recurso chroma key (o famoso tela verde) e a inserção do rosto dos atores nos corpos dos dublês. Até aí, tudo bem. O problema é que o uso desses efeitos fica muito evidente, o que é inconcebível para um filme do porte e orçamento de F9.

    Filme de Vin Diesel oferece explicação satisfatória para retorno de Han

    Agora, a pergunta que não quer calar: e o retorno de Han? O querido personagem de Sung Kang está de volta. Ele (supostamente) foi morto no final de Velozes & Furiosos - Desafio em Tóquio em um acidente de carro causado por Deckard Shaw, e esse mistério tem deixado os fãs com uma pulga atrás da orelha desde o trailer. Sim, a explosão do carro de Han é mostrada mais uma vez na franquia. Mas não temam, a explicação é satisfatória.

    Não somente Han faz um retorno triunfal, mas também outros personagens da franquia, como Sean Boswell (Lucas Black), Twinkie (Bow Wow) e Earl (Jason Tobin), que marcaram presença anteriormente em Velozes & Furiosos - Desafio em Tóquio. Os atores parecem descolados de seus papéis, artificiais, e Lucas Black, infelizmente, perdeu seu quesito galã desajeitado. Além deles, esperem algumas surpresas — que incluem Jordana Brewster falando português, e uma aguardada cena pós-créditos.

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    Nostalgia de um mundo irreal

    Um dos capítulos finais da franquia, Velozes & Furiosos 9 tem ares de despedida, com muitas cenas contemplando o passado e referências a Brian O’Connerpersonagem de Paul Walker que segue vivo na franquia, só está aposentado da vida de crime.

    Justin Lin, que já comandou cinco filmes da franquia Velozes & Furiosos, trabalha bem a estética da saga e resgata na franquia o equilíbrio entre adrenalina e sentimentalismo. Ainda do lado nostálgico, o longa traz alguns dos carros clássicos da franquia.

    Tenha uma coisa em mente quando for assistir a Velozes & Furiosos 9: da mesma forma que a Marvel e a DC fazem soar verossímil mundos em que super-heróis existem; a franquia de Dom Toretto é ambientada em um mundo fantasioso. Um em que as leis da física não importam tanto assim e que os personagens saem de uma briga, um carro capotado e um campo minado sem um arranhão ou sequer uma poeira na roupa. E um em que perseguições nas ruas — que destroem carros, estabelecimentos e, possivelmente, fazem feridos — não tem consequências reais. É improvável? Sim. Tem resoluções rápidas e convenientes? Certamente. Mas é divertido e emocionante? Sem dúvidas.

     

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