O Mandaloriano e Grogu abraça Star Wars com aventura despretenciosa - e isso representa tanto a sua glória quanto a sua derrocada
por Diego Souza CarlosPrestes a completar 50 anos de história, Star Wars vive um de seus momentos mais paradoxais desde que os primeiros sabres de luz vibraram nas telonas de todo o mundo. Com seus três blocos de trilogias responsáveis por mostrar todo o arco que levou os Skywalker da queda à ascensão em uma montanha-russa pouco linear, a Lucasfilm entendeu que se apegar apenas ao sucesso do passado não sustentaria a saga intergaláctica para sempre (e ainda bem!). Com o frustrante encerramento da última trinca de filmes, sob o comando majoritário de J.J. Abrams, o gosto amargo da decepção e do fracasso se tornou tão evidente que a franquia passou 7 anos sem nenhum novo projeto nas telonas.
Lucasfilm
Embora um novo fôlego esteja se formando nos bastidores, com projetos futuros finalmente entrando nos trilhos, a desconfiança se tornou constante na vida do público. Esse sentimento, no entanto, não surgiu por falta de tentativas ou pela ausência de longas-metragens. Enquanto procurava entender o viria a seguir - e agora sabemos que a Rey de Daisy Ridley deve retornar para treinar os Jedi do futuro e Ryan Gosling entrará em uma das aventuras para acompanhar um garoto sensível à força -, a Disney trabalhou para manter sua maior propriedade de ficção científica e fantasia em andamento através das séries.
As principais entradas live-action estão diretamente conectadas a filmes de peso. E aqui preciso dizer que as animações deram um show nesse meio tempo com as ótimas Visions, The Bad Batch e Maul – Lorde das Sombras, por exemplo. Enquanto Andor é um prelúdio de excelência para Rogue One, The Mandalorian ocupa um espaço no desenvolvimento da Nova República entre O Retorno de Jedi e O Despertar da Força. Com alto potencial de apresentar ainda mais esse espaço entre trilogias, a produção estrelada por Pedro Pascal teve três temporadas elogiadas, embora não tão consistentes. Apesar da chance de fazer um encerramento ou um recomeço marcante, agora nos cinemas, a "sequência" O Mandaloriano e Grogu é uma oportunidade desperdiçada que soa tão carismática quanto perdida na própria existência.
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Uma coisa que pode despertar certa curiosidade a muitos dos interessados em O Mandaloriano e Grogu é a necessidade em ver as três temporadas da série antes de conferir o filme. Ainda que tenha ótimos momentos e seja um bom ponto de partida, o seriado não é obrigatório se você souber o básico: Din Djarin é um mandaloriano que conheceu Grogu, mais conhecido como baby Yoda, em uma missão como caçador de recompensas que tinha a criança como alvo. Depois de muitas aventuras juntos, Mando acabou adotando a criança.
Agora juntos como pai e filho, após se estabelecerem em Nevarro, eles trabalham para a Aliança Rebelde enquanto a Nova República atua para acabar com os pontos remanescentes do Império. Enquanto existem diversos "fãs" que fecham os olhos para a trama política intrínseca de Star Wars, uma questão que está no DNA da saga desde o primeiro segundo de tela, o novo filme faz questão de nos lembrar que a batalha entre a resistência e os tiranos segue como fio condutor importante da franquia. Em um ato de abertura que consegue nos levar de volta ao universo de George Lucas com assertividade - blasters, naves, reviravoltas, trilha sonora épica, transições características e o uso da força -, o diretor Jon Favreau deixa bem claro que O Mandaloriano e Grogu é, acima de qualquer questão, uma grandiosa aventura cinematográfica.
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Tudo o que é visto na série ganha um escopo maior. Há sofisticação no aspecto estético, com um bem-vindo trabalho de contrastes e coloração que consegue ser bem elástico. O filme até sofre em não manter essa qualidade constante, mas o ritmo acelerado consegue mascarar os momentos visualmente mais simples diante de sequências poderosas. Há tanto cenas em Shakari, uma cidade com uma atmosfera industrial cyberpunk, em que o neon e a poluição urbana se destacam com brilhantismo, quanto passagens em pântanos que conseguem evocar um ar misto entre realismo e fantasia. Mesmo sem trabalhar todas as cenas noturnas tão bem, há uma em especial, passada em Nevarro, que deixou o público da sessão com os olhos brilhando tamanho o cuidado com as texturas e a iluminação.
Outro elemento fundamental de Star Wars que Favreau não deixa de lado é a trilha sonora. Sob curadoria, supervisão e criação de um dos maiores nomes da indústria quando o assunto é música no cinema, Ludwig Göransson faz um excelente trabalho. O artista vencedor do Oscar por Pecadores e Oppenheimer retorna à saga depois de contribuir com as 3 temporadas da série - e conquistar dois Emmys de Melhor Composição Musical por estes trabalhos. Aqui, o tema de The Mandalorian ganha novas camadas e dinamismo em sua melodia, além das novas composições que surgem de acordo com cada novo cenário. Se os momentos mais dramáticos pedem a faixa "This Is The Way", com seu tom épico e traços tribais, diversos momentos mais urbanos, em especial em Shakari, são orquestrados por um retrowave que nem sempre pode ser ouvido na franquia.
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Enquanto a montagem de O Mandaloriano e Grogu consegue estabelecer um ritmo dinâmico à aventura, o mesmo não pode ser dito sobre o roteiro. Uma das maiores preocupações da audiência, "por que fazer um filme de The Mandalorian ao invés de uma 4ª temporada?", é constante. O projeto segue uma direção inicial muito simples: mostrar ao público como os protagonistas seguem lutando contra o Império, mesmo com Din afirmando que são apenas negócios, a partir de uma nova missão. Depois de se encantar pela enésima vez com Grogu e suas fofurices, tentar compreender a necessidade de um longa-metragem para apresentar essa história específica começa a se tornar um incômodo.
Enquanto opera em modo gamificado como um RPG, com direito a estratégias de batalha com um chefão, a cobra dragão branca, fica a sensação de que tudo não passa de um grande episódio especial da atração. Inclusive, falando em jogos, há criaturas bizarras e variadas que aparecem em títulos como Star Wars Jedi: Survivor e Fallen Order.
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Não há tantos impactos significativos que justifiquem a decisão de criar um filme que não tenha um peso necessário na vida dos protagonistas. Tudo fica mais difícil quando questões interessantes até são abordadas, mas não são desenvolvidas. A relação entre pai e filho, um ponto de interesse dos fãs, é apresentada de maneira sutil diante das adversidades que enfrentam. De fato, Grogu precisa provar o começo da sua independência durante a trama, além de constatar a ciência de que vai viver muito mais do que Din. No entanto, nada é tão significativo a ponto de justificar um longa-metragem.
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Com ótimas adições de Martin Scorse, Jeremy Allen White e Sigourney Weaver no elenco, o filme opta por mergulhar em uma imensidão de acontecimentos, banhada por muita ação, a evoluir o relacionamento dos heróis. É quase uma oportunidade perdida se não fossem os momentos em que vemos a educação de baby Yoda pelo personagem de Pedro Pascal. Ainda que soe mais como um aceno à paternidade de Mando do que um ponto importante da trama, especialmente por serem trabalhados tarde demais no longa, há trechos interessantes. "Vamos fugir ou vamos lutar?" e "Os mais velhos ajudam os mais novos e os mais novos ajudam os mais velhos" são algumas lições relevantes do papai Din Djarin ao jovem Grogu, mas nada que vá além disso.
Divertido e pouco emblemático, O Mandaloriano e Grogu é um esforço em mostrar algo importante dentro dessa franquia bilionária que, pessoalmente, sempre almejei: estes muitos personagens, planetas e tudo o que cerca a saga intergaláctica tem um potencial absurdo. Há muitas outras possibilidades, inclusive em brincar com diferentes gêneros cinematográficos, que nos fazem lembrar que todas as conexões criadas por Luke, Leia e os outros do passado foram fundamentais, mas que, enfim, chegou a hora de seguir em frente. Neste aspecto, o novo filme de Star Wars consegue justamente ser um respiro despretensioso, e este é tanto seu bem quanto o seu mal. Para quem esperava um retorno à altura dos episódios originais, não foi dessa vez. Com perdão ao trocadilho, não há força o suficiente.