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    Oscar 2022: Novas regras mudaram mesmo a premiação? Diversidade avança em alguns pontos, mas para em outros
    8 de fev. de 2022 às 16:18
    Aline Pereira
    Aline Pereira
    -Redatora | crítica
    Jornalista que ama boas histórias e combina a paixão por cinema e TV com comunicação para mergulhar ainda mais nos universos e personagens que já fazem brilhar os olhos. Pipoca, suspense, dramédia e uma pitada de reality são a receita perfeita para todos os dias.

    Oscar 2022 vem com novas regras para incentivar a diversidade no cinema e lista de indicados reflete (algumas) mudanças.

    Em 2020, a Academia responsável pela entrega do Oscar anunciou um novo conjunto de mudanças nas regras da premiação com o objetivo de incentivar a diversidade entre os filmes, artistas e equipes que concorrem às principais categorias. Não é preciso investigar muito para entender por que é uma medida tão necessária: em quase 100 anos de história, apenas uma mulher negra, Halle Berry, venceu o prêmio de Melhor Atriz, por exemplo - número que nada tem a ver com falta de grandes artistas negros no cinema.

    Os novos parâmetros de diversidade da Academia começaram a valer neste ano e a lista de indicados ao Oscar 2022 chama atenção: houve passos importantes no reconhecimento a minorias étnicas e culturais - incluindo algumas que nunca haviam sido representadas na premiação -, mas ainda vale observar onde os padrões sociais ainda prevalecem. No Emmy 2021, o aumento considerável na diversidade não se refletiu na distribuição de prêmios e, agora, a expectativa é de que a maior premiação cultural do mundo avance.

    Oscar 2022: Atrizes negras ainda são coadjuvantes

    Agora em 2022, Ariana DeBose (Amor, Sublime Amor) se torna a primeira mulher afro-latina a disputar um troféu no Oscar e, na mesma categoria, temos Aunjanue Ellis (King Richard) - desde 2018 o Oscar não tinha artistas negras aqui. Mas na categoria de Melhor Atriz deste ano não há nenhuma mulher negra e Penélope Cruz (Mães Paralelas) é a única candidata não-branca. Isso está longe de significar que as atrizes indicadas não tenham calibre para tal, mas a pouca diversidade sinaliza problemas estruturais.

    Em 2016, o movimento “Oscar so White” chamou atenção para este fato de forma mais clara: basta circular em cinemas ou streamings e comparar a diferença entre a quantidade de histórias protagonizadas e produzidas por pessoas brancas versus produções negras. A organização estrutural da sociedade explica: da falta de oportunidades educacionais e profissionais a pessoas negras à formação do júri que elege os vencedores. Mais recentemente, a polêmica do Globo de Ouro revelou que não havia uma pessoa negra sequer entre os membros do comitê - o que contribui para a falta de reconhecimento aos profissionais e histórias afrocentradas. 

    Neste ano, surpreende que Tessa Thompson (Identidade) e Jennifer Hudson (Respect) não tenham aparecido entre as indicadas, embora estivessem entre as apostas. Identidade, disponível na Netflix, tem temática racial (um dos critérios estabelecidos pela Academia) e fala sobre a diferença que os tons da pele negra têm no “nível” de racismo social - tema muito relevante, pouquíssimo abordado no cinema e que rendeu grandes elogios da crítica e do público à atriz.

    Enquanto isso, Jennifer Hudson encarnou Aretha Franklin em Respect, uma das maiores artistas musicais de todos os tempos, em uma trama dramática, que mostra como ela chegou ao posto de rainha do soul. A atuação de Hudson também foi muito elogiada, incluindo a voz potente e a inspiração na figura real de Aretha. 

    Na categoria masculina, o cenário é de maior avanço e dois dos cinco indicados são negros: Will Smith e Denzel Washington, que agora se torna o ator negro com mais indicações na história do Oscar - foram 7 no total. Para dar uma ideia melhor da disparidade: faz 15 anos que o Oscar premia apenas atores brancos na categoria de Melhor Ator. 

    Diversidade no Oscar 2022

    Vale ressaltar também que a edição de 2022 do Oscar trouxe avanços importantes para outros grupos étnicos e sociais que não costumam aparecer nas principais premiações do cinema.

    Um dos filmes mais emocionantes de 2021No Ritmo do Coração aparece em três categorias: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante. Esta última marca um feito, o ator Troy Kotsur é o segundo artista surdo a ser indicado na história do prêmio e o primeiro homem. A pioneira na categoria feminina foi Marlee Matlin, que também está no longa e ganhou o troféu de Melhor Atriz por Filhos do Silêncio, em 1986.

    Enquanto isso, as produções asiáticas também vêm abrindo caminho: a Coreia do Sul tem ganhado destaque na TV e, no Oscar, trouxe o fenomenal Parasita, mas Drive My Car representa ainda mais uma novidade: presente em 4 categorias, o longa se tornou a primeira produção japonesa a concorrer como Melhor Filme

    Ataque dos Cães: Jane Campion faz história no Oscar

    Uma das produções mais cotadas ao prêmio de Melhor Filme, Ataque dos Cães aparece em 12 categorias, incluindo a de Melhor Direção para Jane Campion. A indicação marca um passo importantíssimo para a presença de mulheres não só em frente às câmeras, mas também nos bastidores. A cineasta se tornou a primeira mulher com duas indicações ao prêmio de Melhor Direção (a primeira foi em 1994, com O Piano) - uma realização que se torna ainda mais importante quando olhamos para o cenário geral. 

    Em quase 100 anos de história, apenas sete mulheres foram indicadas à categoria de Melhor Direção e só duas venceram: Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror) e Chloe Zhao (Nomadland). 

    A cerimônia de premiação do Oscar 2022 vai ao ar em 27 de março e a lista de vencedores vai nos ajudar a ter uma visão ainda mais clara do caminho que ainda precisa ser percorrido na busca por maior diversidade. A pressão da indústria e do público fez com a Academia incluísse mais obras e artistas não-brancos em sua lista, mas quais deles conseguirão encontrar um caminho até o topo?

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