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    OscarSoWhite: O que aprendemos após quase um século de segregação?
    Por Ygor Palopoli — 26 de jan. de 2020 às 09:39

    Com apenas uma mulher negra vencendo o prêmio de Melhor Atriz em 92 anos de história? A resposta é fácil.

    Em 2014, Steve McQueen fez história como o primeiro negro a levantar a estatueta de Melhor Filme por seu trabalho em 12 Anos de Escravidão. Em 2018, Jordan Peele foi o primeiro negro a vencer o Oscar de Melhor Roteiro Original, por Corra!. Em 2002, Halle Berry se tornou a primeira negra a levar para casa o Oscar de Melhor Atriz, por A Última Ceia. Praticamente todas estas marcas são, acima de tudo, inigualáveis até o momento. Por mais que tenham alcançado suas marcas apenas após a virada do novo milênio Jordan e Halle, por exemplo, permanecem até hoje como os primeiros e únicos de suas categorias — e isso precisa significar alguma coisa.

    Dentre os defensores de que as grandes premiações norte-americanas (como o Globo de Ouro e o Oscar) não possuem nenhum traço de racismo velado disfarçado por um falso preciosismo ou ignoram quase que completamente a diversidade em Hollywood, as vitórias citadas no parágrafo anterior são sempre usadas como artíficios de uma argumentativa feita na defensiva. A grande questão é que a raridade destes acontecimentos, quando comparados a vitórias de brancos, por exemplo, só reforça a problemática.

    Nos 30 primeiros anos do Oscar, apenas 4 profissionais negros haviam sido indicados. E isso inclui não apenas atores, mas também diretores, roteiristas, produtores, fotógrafos, figurinistas, maquiadores... a lista é imensa. Precisaram se passar mais de 80 anos para que, finalmente, em 2016, o movimento #OscarSoWhite (Oscar Tão Branco) emergisse e levasse a pauta a ser abertamente discutida nos mais variados veículos de comunicação. 

    E não foi por menos. Um ano antes, em 2015, Selma: Uma Luta Pela Igualdade foi completamente ignorado na premiação, a despeito de sua nota máxima segundo centenas de críticos. Ava DuVernay — que mais tarde viria a dirigir Olhos Que Condenam, sendo novamente esnobada pelo Globo de Ouro  — passou longe de uma indicação a Melhor Direção e David Oyelowo, mesmo com sua atuação mega elogiada, também não recebeu nenhuma indicação. 

    No ano do surgimento da hashtag, a situação foi ainda pior. Em 2016, a famosa foto oficial dos indicados ao Oscar viralizou pela falta da presença de qualquer negro. E o mais importante: ao contrário do que pregam alguns argumentos que desmerecem a falta de diversidade, oportunidades não faltaram. Só na área de atuação, por exemplo, Idris Elba foi ignorado por seu personagem em Beasts of no NationSamuel L. Jackson ficou de fora por Os 8 Odiados

    Na época, George Clooney — um dos vários adeptos ao boicote da premiação em 2016 — levantou a questão que talvez seja a mais importante até agora: o problema está enraizado na indústria. Enquanto poucos papeis de destaque são oferecidos para pessoas negras, muitos deles ainda estão presos aos mesmos estereótipos. Vale lembrar, afinal, que das 34 mulheres negras indicadas ao prêmio de Melhor Atriz, 20 foram por papeis de escravas ou empregadas. Quase dois terços. 

    No entanto, ainda existe um traço de esperança para um futuro mais bonito. Mahershala Ali recebendo seu devido reconhecimento, Spike Lee finalmente voltando a ser reconhecido após décadas de um trabalho que merecia muito mais, transgressões dentro de fórmulas estabelecidas, como Pantera Negra... são motivos para acreditar no início da mudança. Mas a realidade bate na porta quando o complexo de White Savior ainda rende o prêmio de Melhor Filme para Green Book.

    A visibilidade de latinos e mulheres também continua enfrentando um baque atrás da outra. Provas disso não faltam, como a esnobada na excelente atuação de Jennifer Lopez em As Golpistas e a predominância totalmente masculina na categoria de Melhor Direção em 2020. Mesmo com os elogiados trabalhos de Greta Gerwig por Adoráveis Mulheres Lulu Wang, por The FarewellKasi Lemmons, por HarrietAlma Har'el, por Honey BoyCéline Sciamma e seu Retrato de uma Jovem em Chamas; e até Olivia Wilde, pelo elogiado Fora de Série. Por mais que vejamos o justo reinado mexicano entrando em ação com Guillermo del ToroAlejandro Iñarritu e Alfonso Cuarón, ainda há muito pelo que se lutar.

    A conclusão aqui é que não deveria haver conclusão além do óbvio. A Academia precisa se reinventar devido a muitas circunstâncias comerciais, mas agora ela também tem a obrigação de correr atrás de um prejuízo que já dura quase um século. Por um lado, não desconsiderar profissionais negras nas premiações já ajuda. Por outro lado (o dos estúdios), dar mais oportunidades que não sejam as de empregada e escrava também já ajuda. Parece até besta o fato de que alguém precisa estar sendo didático neste nível, nesta altura do campeonato.

    De todas as maneiras possíveis das quais eu poderia terminar esta matéria, deixo as palavras de Spike Lee, proferidas em seu discurso ao vencer o Oscar por Infiltrado na Klan.

    "Hoje é 24 de fevereiro, o mês mais curto do ano. Também é o mês do ano da história negra. 1619... Há 400 anos nós fomos roubados da África e trazidos para a Virginia, escravizados. A minha avó, que viveu até 100 anos de idade, apesar de sua mãe ter sido escrava, conseguiu se formar. Ela viveu anos com seu seguro social, e conseguiu me levar para a universidade NYU. Diante do mundo, eu gostaria de reverenciar os ancestrais que construíram esse país, e também os que sofreram genocídios. Os ancestrais que vão ajudar a voltarmos a ganhar nossa humanidade. As eleições de 2020 estão chegando, vamos pensar nisso. Vamos nos mobilizar, estar do lado certo da história. É uma escolha moral. Do amor sobre ódio. Vamos fazer a coisa certa".

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