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    Você já ouviu falar em Hallyu? Entenda tudo sobre a onda coreana que vai desde K-dramas e filmes premiados até K-pop
    Por Lucas Leone / Nathalia Jesus — 27 de mar. de 2022 às 18:00

    A também chamada "Korean wave" já dura mais de duas décadas e se manifesta em diversos segmentos como audiovisual, música, beleza, moda e turismo.

    Você já ouviu falar em Hallyu? O termo é um neologismo formado pelas raízes "Han" ("Coreia" ou "coreano") e "Ryu" ("fluxo", "corrente", "tendência"). Conhecido no Ocidente como "Korean wave" ou "onda coreana", refere-se à popularização e à influência da cultura sul-coreana dentro e fora da Ásia, bem como ao grande interesse que o mundo vem demonstrando pelo país nas últimas décadas.

    Se você quer entender melhor esse fenômeno, você está no lugar certo. E se você não tem a menor ideia do que se trata e deseja descobrir, você também está no lugar certo. Então vem logo conferir TUDO sobre a Hallyu!

    COMO SURGIU A HALLYU?
    Seul, 1997: Trabalhadores do setor financeiro protestam contra os cortes de emprego e contra as medidas de austeridade do FMI (ou IMF, em inglês).

    A palavra "Hallyu" foi criada por jornalistas chineses em 1997, quando a Coreia do Sul enfrentava uma enorme crise financeira provocada por flutuações nas taxas de câmbio. A nação já havia recorrido ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para obter empréstimos e, dessa vez, precisou de uma quantia de cerca de US$ 55 bilhões — a maior já concedida pela organização. Empresas e comércios fecharam suas portas; produtos básicos como arroz se tornaram escassos.

    Com a economia quebrada, surgiu uma ideia que poderia ser a salvação: transformar objetos e produções culturais sul-coreanas em um movimento de exportação. Quer dizer, levar para o exterior uma determinada visão do que é a Coreia do Sul e fazer dela não só um polo de cultura pop, mas uma influenciadora cultural.

    Assim, a partir de investimentos governamentais e privados sobretudo na indústria do entretenimento, nasceu a Hallyu. Inicialmente penetrou em territórios do leste asiático – como China, Japão e Hong Kong –, depois conquistou o mercado internacional, aproveitando-se da expansão da internet.

    Hoje infiltrada até mesmo nos EUA, a Hallyu engloba os mais diferentes setores: música (K-pop), audiovisual (K-dramas e filmes), gastronomia, beleza (K-beauty), moda, tecnologia e eletrônicos (por meio de companhias como Samsung e Hyundai), sem esquecer do turismo.

    HALLYU NA TELINHA: K-DRAMA E O ROMANCE DOS SONHOS
    D.P. Dog Day, Round 6 e Pachinko estão na lista de K-dramas que caíram nas graças do público.

    A história dos K-dramas (ou doramas) teve um início parecido com a das novelas brasileiras, mas seguiu diferentes rumos que transformaram tais produtos em modelos de consumo, sociedade, relacionamentos e estética. Na década de 60, quase 10 anos após a Guerra da Coreia, o governo militar sul-coreano utilizava os dramas como arma política para educar o público e difundir ideias anticomunistas. Porém, independentemente do conteúdo veiculado, o aparelho de televisão ainda era considerado um luxo para a população da época, ofuscando tais atrações.

    Os K-dramas começaram a ganhar popularidade no país, de fato, na década de 80. Influenciadas pelos dramas japoneses, as emissoras sul-coreanas abandonaram o cunho político da produção e começaram a oferecer enredos com foco na vida e romances da geração jovem. Quando finalmente definiram um público-alvo, os roteiros se tornaram mais atrativos e diversos, abordando desde amor à primeira vista até momentos históricos — sem a intenção de convencer, mas entreter.

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    A indústria televisiva da Coreia do Sul foi fundamental para a consolidação da Hallyu nos anos 90. A partir do incentivo financeiro do governo, a infraestrutura de transmissão nacional recebeu manutenção com a criação de novos canais, visando a que as programações competissem entre si. Desde então, a “onda coreana” ganhou mais força e, consequentemente, mais investimento e intervenções para promover a globalização.

    Entre os doramas mais famosos da Coreia do Sul, destaca-se, obviamente, Round 6, grande sucesso do streaming. Porém, os maiores êxitos da produção televisiva, de fato, são de responsabilidade das emissoras, que seguem relevantes e valorizadas no cenário nacional do país. Por meio delas, o público consagrou obras como Goblin (do canal tvN), Boys Over Flowers (KBS2), Secret Garden (SBS) e The Heirs (SBS). 

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    Chegando a países dentro e fora da Ásia, os doramas ajudaram a movimentar outros setores da economia interna, como moda, turismo e estilo de vida. Além de trazerem uma idealização positiva do cotidiano na Coreia do Sul e de serem gravados em locações turísticas e famosas em Seul, K-dramas vendem experiências e sonhos — que vão desde a pele perfeita dos protagonistas (conquistada com muito skincare) até a experiência romântica do casal principal.

    A Hallyu sobrevive há mais de duas décadas por diversos fatores, e um deles é a alimentação de uma indústria por outra. Sendo assim, é válido dizer que os doramas se apoiam na força do K-pop — e o contrário também ocorre. Idols, como são conhecidos os artistas de K-pop, são frequentemente convidados a participar de K-dramas, como atores ou cantores da trilha sonora original (OST). Dessa forma, as músicas feitas para as séries coreanas são uma fusão entre ambos os setores do entretenimento.

    HALLYU NA MÚSICA: K-POP E A MÁQUINA DE CRIAR ESTRELAS
    Grupos como BTS, Blackpink e EXO ajudaram a difundir o K-pop no Ocidente.

    Tudo começou em 1992, com Seo Taiji and Boys. O grupo apresentou sua canção "I Know" em um show de talentos televisionado, chocando os jurados e levando a pior nota entre os candidatos. O motivo? Esse foi o primeiro rap já feito na história da música sul-coreana, com uma letra que refletia o espírito da juventude, bem como as mudanças culturais e geracionais após o fim da ditadura de Park Chung Hee. Mas o que ninguém imaginava é que "I Know" faria um sucesso estrondoso nas paradas e nas vendas, estabelecendo as bases de um novo ritmo híbrido que se chamaria K-pop.

    Embora muitos se espantem ao ouvirem esse nome, o K-pop é basicamente uma mistura da melodia coreana com a batida ocidental, perpassando gêneros como rap, hip-hop, rock, R&B, balada, música eletrônica e, claro, pop. No centro do movimento estão os chamados idols – cantores solos ou membros de uma boy band ou girl group.

    Eles são caracterizados por sua aparência impecável (ainda que dentro de padrões estéticos como o de magreza), por lançarem tendências de moda nada óbvias, por produzirem música no melhor estilo chiclete-dançante e por entregarem performances coreografadas com perfeição e sintonia.

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    Existem três grandes empresas que construíram o que hoje é conhecido como K-pop: SM, JYP e YG — juntas, formam as Big 3. Seja por meio de programas de calouro na TV, seja por meio de audições em cidades coreanas, as três companhias se dedicam a recrutar jovens talentos para treiná-los e apresentá-los como o próximo fenômeno do K-pop.

    O programa de trainee pode durar de seis meses a quatro ou cinco anos. Os selecionados ficam das 13h às 22h todo dia, sendo quatro horas de aula e cinco de prática. Se forem à escola, o horário muda para 18h até 22h. No geral, a agenda inclui lições de canto, dança, saúde, rap, atuação e língua. O nível de preparo e de exigência não deixa dúvidas de que, na Coreia, uma estrela não nasce — ela é criada.

    O primeiro idol group foi lançado pela SM em 1996, com o nome de H.O.T. (High-five of Teenagers). Tinha cinco membros e vendeu mais de 1,5 milhão de cópias de seu álbum We Hate All Kinds of Violence. Desde então, o K-pop já passou por três gerações e agora se encontra em sua quarta – sendo a primeira mais marcada pelo hip-hop; a segunda pela pegada dançante; a terceira pela vibe romântica mesclada com R&B; e a atual pela batida eletrônica.

    Entre os grupos mais famosos estão BTS, Blackpink, EXO, Girls' Generation, Big Bang, SHINee, Super Junior, Twice, Red Velvet, TVXQ, NCT e tantos outros.

    HALLYU NA TELONA: CINEMA COREANO E A AGUARDADA VAGA NO OSCAR
    Burning, Parasita e Oldboy são alguns exemplos de filmes sul-coreanos premiados internacionalmente.

    Todos os olhos se viraram para o cinema sul-coreano em 2020, com a vitória de Parasita no Oscar, mas a importância da indústria cinematográfica do país data de décadas atrás — com o retorno da democracia e o consequente crescimento da Hallyu. Do cinema mudo aos atuais sucessos de bilheteria, a produção de filmes na Coreia do Sul sofreu perdas causadas por impasses políticos e enfrentou constantes mudanças.

    Entre os anos 50 e 60, após a Guerra da Coreia, os cinemas ganharam popularidade no lado Sul e, como resultado, jovens atores e atrizes se tornaram rostos famosos e requisitados em obras de ação, suspense, guerra e melodramas. Nos anos 70, a aquisição da TV pela população menos privilegiada causou um declínio na indústria cinematográfica, somada ao regime ditatorial no país no início da década seguinte, que censurava produções que não refletiam “bons valores”.

    Com a eleição presidencial democrática nos anos 80, o país se dedicou a fomentar a indústria cinematográfica e impulsionou a globalização do cinema nacional ao submeter suas produções a festivais internacionais. Vale mencionar que os filmes sul-coreanos eram praticamente desconhecidos no Ocidente até 1986 — quando Gilsoddeum, dirigido por Kwon Taek Im, entrou em competição no Festival de Berlim.

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    Embora estivesse interessada na exportação de seu cinema, a Coreia do Sul se empenhou para que tais produções fossem valorizadas pela população nativa. Como intervenção, em 1988, estabeleceu um sistema de cota de tela que determinava que cinemas do país exibissem apenas filmes coreanos durante 146 dias por ano. Ou seja: nada de atrações hollywoodianas dominando totalmente as telonas nacionais.

    Depois dos anos 90, o cinema coreano recebeu maiores investimentos e novos sucessos de bilheteria nasceram, trazendo visibilidade para filmes como Chingu (Friend), Chunhyang, Yeopgijeogin Geunyeo (My Sassy Girl), O Hospedeiro, Simildo e o cultuado Oldboy. É importante lembrar que este último, dirigido por Park Chan Wook, se tornou referência em sequências de ação, ganhando 17 prêmios e aclamação internacional em festivais como o de Cannes.

    Quanto ao Oscar, a Academia recebe submissões de filmes sul-coreanos desde 1962, mas apenas Burning, lançado em 2018, passou para a pré-lista de aprovação — e, em todos esses anos, somente Parasita foi aceito na premiação, levando quatro estatuetas, incluindo a de Melhor Filme.

    O sucesso de Parasita é apenas uma das conquistas da Coreia do Sul após décadas de investimentos financeiros e valorização da própria indústria. A “onda coreana” colocou o país em posição de destaque econômico e cultural no cenário internacional, enfatizando a importância de olhar para dentro e cultivar o que há de melhor nacionalmente, antes de se tornar uma vitrine para o mundo.

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