Despertar no vazio absoluto, sem qualquer memória, e carregar nas costas a responsabilidade de impedir a extinção da humanidade. Esse cenário tinha tudo para ser o começo de mais um sci-fi genérico que esquecemos na semana seguinte, não é? Mas "Devoradores de Estrelas" tenta puxar o tapete debaixo dos nossos pés ao misturar a frieza do espaço com uma improvável história de amizade. O resultado é uma viagem que derrapa nalguns buracos negros narrativos, mas que definitivamente não vai deixar ninguém indiferente. Vamos dissecar o que realmente funciona e o que se perdeu na órbita desta superprodução.
Fazer um filme onde o protagonista passa boa parte do tempo sozinho a falar para o nada é um teste de fogo para qualquer ator. E Ryan Gosling passa com distinção. Ele entrega uma mistura quase perfeita de vulnerabilidade constante, inteligência afiada e aquele humor sarcástico muito próprio dele. Acompanhar a transição deste homem, de um simples professor assustado para o relutante salvador da humanidade, prende a nossa atenção. Gosling usa o olhar perdido e os pequenos tiques de nervosismo para nos mostrar o pânico que ele tenta disfarçar com piadas. A gente importa-se com a psique de Grace porque o medo dele é palpável. Ele não é um herói de ação treinado; é um sujeito comum a tentar não enlouquecer no meio do vazio cósmico.
Esse isolamento brutal da nave ganha contornos muito mais pesados quando o filme corta para as memórias de Grace. É aqui que entra o "Contraste Frio da Terra". Enquanto o ambiente espacial é sufocante e confinado, o nosso planeta, nas lembranças, é um cenário de desespero em câmara lenta. A Terra está a congelar. E para ilustrar isso, o guião acerta em cheio ao dar espaço a Sandra Hüller no papel de Eva Stratt, a líder da força-tarefa global. Hüller está arrepiante. Ela toma decisões políticas impiedosas, quase cruéis, atropelando leis e direitos humanos para tentar salvar a espécie. Essa frieza governamental justifica perfeitamente o desespero do protagonista. Nós percebemos que não há volta a dar: ou ele consegue, ou aquele planeta gelado e militarizado vai simplesmente deixar de existir.
Se a Terra traz a tensão humana, é a amizade interespécies que injeta vida real na narrativa. Quando o personagem Rocky entra em cena, o filme ganha outra dimensão. Ele não é o típico alienígena humanóide. É uma criatura eridiana, assemelhando-se a uma aranha gigante feita de minerais que respira amónia e vive no escuro. E, por incrível que pareça, ele rouba a cena por completo. A construção desta relação é um dos pontos altos do guião. Eles quebram barreiras gigantescas de linguagem e forma física. Começam com desconfiança, passam para o método científico e chegam a uma empatia profunda. É muito raro ver o cinema comercial tratar o "primeiro contacto" com tanta paciência. Não há tiros, não há invasão. Há dois seres assustados, de galáxias diferentes, a tentarem perceber como se podem ajudar mutuamente.
E por falar em tentar perceber, um dos tópicos mais discutidos pelos fãs do livro de Andy Weir é a quantidade absurda de ciência dura ("hard sci-fi") presente na obra. O filme não foge a isso. Grande parte da comunicação e da resolução de problemas entre Grace e Rocky dá-se através da matemática e da física. Eles desenham gráficos improvisados, constroem maquetes e testam teorias na prática. Para quem gosta de um bom enigma científico, ver estes dois a fazerem contas para não morrerem queimados ou sufocados é um deleite. A ciência aqui não é apenas um adereço de cenário; é o verdadeiro idioma que liga as duas espécies.
Mas é exatamente nesta tentativa de equilibrar a ciência séria e a tragédia iminente que surge o meu lado mais cético. O filme quer abraçar tudo ao mesmo tempo. Lord e Miller trazem aquele humor que lhes é tão característico, só que, num contexto de apocalipse global, a mistura por vezes azeda. Há momentos em que o perigo é imenso, a nave está a colapsar, e de repente Grace solta uma piada que parece tirada de uma sitcom de domingo à tarde. Isso quebra a imersão na hora.
E depois temos o extremo oposto. O filme carrega num otimismo e num melodrama tão fortes que esbarram na artificialidade. Algumas cenas finais são montadas de forma tão óbvia para nos fazer chorar, com a música lá no alto e olhares demorados, que o efeito acaba por ser inverso. Para os espectadores menos propensos a manipulações emocionais, esta doçura toda soa a sacarina. Tira a gravidade e o peso de uma missão que, na sua essência, deveria ser suja, traumatizante e suicida.
Se o tom derrapa, a componente estética agarra o volante com firmeza. Não há como apontar defeitos na direção visual. A cinematografia faz um trabalho brilhante ao contrapor a escuridão absoluta do universo com a paleta amarelada e funcional do interior da Hail Mary. Há uma sensação constante de claustrofobia térmica. Nós sentimos o calor dos motores e o frio do vidro.
E, felizmente, a equipa de design optou por um equilíbrio fantástico entre efeitos práticos e digitais. As texturas da engenharia de Rocky, a forma como a nave eridiana parece um relógio mineral gigante... tudo isto foge daquele CGI plástico, genérico e sem peso que costumamos ver nos blockbusters de verão. As coisas parecem ter massa, parecem pesadas.
E já que tocamos na fisicalidade da nave, é impossível ignorar o desenho de som. Como os eridianos comunicam através de tons musicais, a banda sonora não podia ser só aquele instrumental grandioso de fundo. A música é, literalmente, parte do diálogo. O filme utiliza sequências de acordes e vibrações que dialogam constantemente com os ruídos metálicos da nave. É um trabalho sonoro inteligente e imersivo. Muitas vezes, nós percebemos o que Rocky está a sentir — raiva, alegria, medo — apenas pela textura e pela frequência dos acordes que ele emite, sem precisarmos que o Gosling mastigue e traduza o sentimento a cada cinco minutos.
Voltando à comparação com o material original, a adaptação quis ser tão fiel ao detalhe científico de Weir que acabou por se esquecer do relógio. Este é o calcanhar de Aquiles do filme: o ritmo. Com mais de duas horas e meia, o segundo ato torna-se visivelmente arrastado. O guião passa tanto tempo em pequenos testes de laboratório a bordo da nave que a narrativa perde fôlego. Faltam sobressaltos e nuances reais no arco emocional a meio da jornada; aquele frio na barriga clássico de que algo irreparável pode acontecer acaba por anestesiar.
Pior ainda, a estrutura geral apoia-se num esqueleto bastante derivativo. Pondo de lado o brilhantismo da relação central, a espinha dorsal do enredo é um amontoado de tropos que já consumimos dezenas de vezes noutros filmes espaciais. Os sacrifícios de última hora, as falhas de motor, a corrida contra o tempo. O filme inova pouco nesses aspetos, preferindo apoiar-se em fórmulas testadas e aprovadas pelo género.
No fim de contas, "Devoradores de Estrelas" é uma experiência cinematográfica de altos e baixos muito evidentes. Acerta em cheio no apuro visual, no som brilhante e ao construir, com muita paciência, uma dupla carismática que nos faz torcer genuinamente por eles. O problema é quando tropeça feio num ritmo excessivamente longo e num melodrama que esvazia a crueza do fim do mundo. É uma obra que tem o coração no lugar certo — talvez até otimista demais para o seu próprio bem. Vale o seu tempo? Sem dúvida. Escolha o maior ecrã e o melhor sistema de som que conseguir, encare a viagem e tire as suas próprias conclusões. Vá apenas ciente de que não vai encontrar uma revolução narrativa do sci-fi, mas sim uma aventura reconfortante, humana e alienígena, que procura encontrar calor na parte mais fria do universo.