Dividido entre 2 mundos, Mestres do Universo luta para entregar filme do He-Man para diferentes gerações - e, por sorte, os músculos e o carisma de Nicholas Galitzine são perfeitos para o serviço
por Diego Souza CarlosSe alguém em uma roda de amigos disser, aleatoriamente, a frase "Pelos poderes de Greyskull", qualquer adulto que tenha crescido entre os anos 1980 e 1990 vai completar sem pensar duas vezes: "Eu tenho a força!". Esse tipo de reação é uma demonstração da potência de He-Man e os Defensores do Universo, título dado ao desenho animado no Brasil. A animação fez parte da infância daqueles que hoje são nossos pais, tios e avós, algo que sobrevive ao teste do tempo de maneira carinhosa nos adultos de hoje em dia.
Foram cerca de 20 anos tentando dar uma nova história para Mestres do Universo nas telonas desde o longa de 1987, que aproveitou o frisson daquele período mágico para tantas crianças. Agora, quase 40 anos desde o último live-action e com diferentes encarnações do destemido e musculoso herói, uma nova aventura de Adam para salvar Eternia está entre nós.
Sob a direção de Travis Knight, um veterano da indústria animada com passagens em projetos como Coraline, ParaNorman e o vindouro O Bosque Selvagem, o aguardado filme de He-Man luta, com garra, músculos e tropeços, para entender o seu papel na contemporaneidade.
Sony Pictures
Traduzir um desenho animado em que um homem ganha poderes místicos ao realizar um brado com uma espada não é uma missão fácil. Ainda mais quando ele se transforma em uma versão musculosa e com poucas roupas logo na sequência. Naturalmente, assim como a perspectiva de He-Man foi tomando formas concretas nessa mitologia bagunçada, o humor entrou involuntariamente à franquia.
Não é o caso de não termos comédia no desenho animado, mas apenas os conceitos dessa saga já correspondem a algo que os jovens hoje chamam de cringe. Por isso, Knight sabia muito bem que poderia surfar por dois caminhos distintos: a galhofa e o épico. O que o roteiro de Chris Butler (Link Perdido), Aaron Nee (Cidade Perdida) e Adam Nee (Band of Robbers) concebeu ao final, porém, não é um dos lados, mas a tentativa de abraçar ambos.
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Desde a primeira frase, narrada por Nicholas Galitzine no papel de Adam, entendemos que o humor acompanhará estes personagens do início ao fim. Ao começar a contar a própria história, ao citar a jornada absurda que o levou ao planeta Terra, ele avisa: "Eu juro que não estou chapado", uma frase que, inclusive, nos lembra de que a classificação indicativa do projeto é de 14 anos.
Afinal, a Sony Pictures sabia muito bem que este filme não seria tão procurado pelo público infantil, já que o alvo estava na nostalgia. Ponto para eles. Essa questão também dá liberdade ao longa em ter alguns leves palavrões e consegue privilegiar um dos aspectos mais importantes (talvez) de uma adaptação do He-Man: os músculos do protagonista.
Falando especificamente de Nicholas e Camila Mendes como Adam e Teela, ambos funcionam muito bem em cena. Com um treinamento rigoroso nos bastidores, algo compartilhado com o AdoroCinema, os artistas desempenham bem suas estreias como super-heróis de blockbuster. Destaque especial ao astro de Vermelho, Branco e Sangue Azul e Bottoms, que mais uma vez apresenta a sua versatilidade em frente às câmeras. O ator tem um timing cômico com toques de doçura, algo que colabora para a sua versão do personagem - aqui, assim como na recente versão da Netflix, o herói opta mais pelo diálogo do que pelo muque, apesar de nem sempre a opção humanista estar disponível.
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Com ideias completamente louváveis em revitalizar alguns discursos, o He-Man do século XXI está mais preocupado em resolver os problemas na conversa. Um ótimo aceno ao crescimento de jovens que abraçam discursos conservadores e retrógrados, o personagem passa por sua crise de masculinidade de maneira tão orgânica que muitos devem se questionar: trata-se realmente de uma questão sobre ser homem hoje ou trata-se de uma jornada de autoconhecimento e desafio às próprias falhas? Talvez ambas as questões sejam o foco. Isso, no entanto, também representa uma grande fraqueza de Mestres do Universo.
O novo filme do He-Man poderia muito bem ser libriano (digo por conhecimento de causa). Afinal, ele demora a decidir por quais caminhos seguir. Se não fosse o aspecto aventuresco e o carisma dos atores - e aqui vão palmas para o ótimo trabalho de dublagem de Kristen Wiig como Roboto e Tom Wilton como Pacato -, o filme teria sérios problemas em satisfazer o público geral. O que acontece é o seguinte: ao se dividir entre estes dois principais guias, do humor e do drama épico, Mestres do Universo passa por problemas de ritmo, de roteiro e do aproveitamento dessa história que fica entre a cruz e a espada.
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Uma adaptação como essa funcionaria das duas formas, mas o que recebemos são retalhos dessa ambição: há momentos em que não se leva tão a sério e outros em que opta por injetar uma emoção nos personagens com uma carga dramática desnecessária.
Um exemplo de como o projeto tem dificuldades em se definir é o uso da trilha sonora - ótima por sinal. Em um trecho ainda na Terra, quando Adam e Teela lutam contra um monstro, a música vai do rock psicodélico a uma genérica faixa de tensão em poucos segundos. Isso acontece em um trecho curto, com adição de outras composições ao longo da cena de perseguição. Assim, a montagem fica claramente confusa e, ao lado de efeitos especiais nem sempre convincentes, um pouco da magia se esvai. Ainda que esses pontos possam diluir a imersão dos fãs, o clima de aventura compensa esses tropeços.
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Todo o espaço de caracterização dos personagens grita que aquilo é uma homenagem sincera e honesta aos fãs. Em uma era moldada pelos uniformes padronizados da Marvel, é um refresco ver um estúdio com a ousadia de tentar reproduzir trajes - mesmo que eles fiquem levemente estranhos à primeira vista - do desenho animado para o live-action. Isso colabora para a narrativa no sentido de criar um universo fantasioso na tela, pois estamos falando sobre um outro planeta em que tigres verdes falam, uma feiticeira protege uma espada e uma caveira tem uma cega ambição por poder.
Falando em pequenos desperdícios, precisamos citar como Maligna de Alison Brie merecia mais tempo de tela. Constantemente ao lado de um afetado Esqueleto, a atriz de Community consegue equilibrar perfeitamente o aspecto brega de toda a situação com pitadas de vilania e um humor ácido. Ela, assim como Nicholas, conseguem transmitir exatamente o espírito da animação oitentista. Quanto ao antagonista, até agora estou confuso se este é um dos seus melhores trabalhos recentes de Jared Leto, por ser completamente canastrão conforme o personagem pede, ou se poderia ser qualquer outro ali. Provavelmente a segunda opção.
Com outras homenagens à época em que He-Man nasceu, como uma transformação digna de meninas mágicas de Sailor Moon ou até mesmo Digimon, Mestres do Universo tem o coração no lugar ao tentar apresentar Eternia para novas gerações sem abdicar de toda a cafonice - muito bem-vinda, sempre - deste lugar mágico. Mesmo que nem sempre engrene, o filme trará boas risadas ao público e deve lembrar aos saudosistas de que todos nós temos a força, basta acreditar.