A Odisseia
Críticas AdoroCinema
4,5
Ótimo
A Odisseia

Christopher Nolan dobra aposta na ambição cinematográfica e entrega adaptação com força na qualidade e no entretenimento

por Aline Pereira

Três anos se passaram desde Oppenheimer e achei que este seria o (com ênfase no “o”) grande filme de Christopher Nolan para mim, mas A Odisseia me mostrou que nunca é uma boa ideia “definir” um cineasta tão afeito à ambição e à grandiosidade. No lançamento de 2026 estrelado por Matt Damon (Gênio Indomável), Nolan segue firme em sua jornada rumo ao uso máximo do potencial visual, dos recursos e do impacto da tela de cinema para nos entregar uma história repleta de A-lists hollywoodianos.

Na adaptação de um dos maiores e mais antigos clássicos da literatura ocidental, Matt Damon interpreta o Odisseu de Homero, herói grego que enfrenta a missão quase impossível de retornar para casa após a Guerra da Troia. Na jornada, Odisseu precisa lidar com divindades, criaturas mitológicas e, sobretudo, com as relações humanas. Enquanto navega com uma tripulação atormentada pelas perdas e tragédias, seu filho Telêmaco (Tom Holland) e a esposa Penélope (Anne Hathaway) lutam para manter Ítaca a salvo de traidores e oportunistas.

A Odisseia é um épico único em excelência técnica

Universal Pictures

O esmero de Christopher Nolan em relação à excelência técnica de suas produções construiu uma fama entre o público que rapidamente se transformou em expectativa e uma espécie de “selo de qualidade”. Bem, não à toa. Após o sucesso de Oppenheimer nas bilheterias e nas premiações, Nolan eleva a aposta no impacto visual e sonoro em A Odisseia. Filmado com a avançada tecnologia do IMAX 70 mm e, na maior parte, cenários reais e com efeitos práticos (nada de infinitas telas verdes por aqui!), o longa é impressionante, não há outra palavra, em termos de grandiosidade nas imagens.

A aventura de Odisseia acontece principalmente em paisagens naturais, como os campos e o mar aberto, e mesmo os opulentos palácios e construções gregas nos dão a sensação da pequenez humana em relação ao mundo que nos cerca e, assim, torna os feitos de Odisseu ainda mais desafiadores. Mas o mais interessante talvez seja o bom equilíbrio entre o senso de realidade dessa ambientação e a incorporação da magia e da fantasia à trama.

Em um dos momentos mais impactantes, por exemplo, a tripulação do herói luta contra um gigante ciclope e, em outro, enfrenta a ira dos feitiços de Circe (Samantha Morton em uma ótima atuação, aliás). A integração entre o real e o fantástico soa natural, como a história original faz parecer: a influência dos deuses faz parte da vida daqueles personagens e, embora, é claro, os seres mitológicos os surpreendam e aterrorizem, eles são parte daquele mundo – a memória que me vem de algo parecido agora, nesse sentido, é o universo de O Senhor do Anéis.

Christopher Nolan sabe extrair o melhor de seus atores (nem sempre dos personagens)

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O desenvolvimento dos personagens coadjuvantes é um ponto comumente notado pela crítica na filmografia do cineasta. Em Oppenheimer, por exemplo, comentamos sobre o assunto em relação à participação de Kitty (Emily Blunt) e Jean Tatlock (Florence Pugh) – falta alguma independência e profundidade na construção dessas personagens em tela que as tornam muito mais uma escada para o crescimento do protagonista. Algo parecido acontece em A Odisseia, cujo número de personagens é enorme.

Com exceção talvez de Telêmaco, que é retratado por mais tempo na busca pelo pai, os personagens que cercam Odisseu também não têm tanto espaço. Nesse quesito, o principal destaque é Penélope: a esposa que nunca perde a esperança do retorno do marido fala várias vezes sobre o sacrifícios que é se manter como rainha, mas pouco sabemos sobre quem ela é. Quem se entretém mais com o drama entre os personagens talvez sinta falta de alguma conexão com eles.

Por outro lado, há de se ressaltar a habilidade de Nolan e de sua equipe para extrair trabalhos memoráveis de seus elencos. Não quero comparar diretamente o trabalho de Cillian Murphy em Opppenheimer com o de Matt Damon aqui, mas há alguma semelhança na aflição e nas angústias que cercam a jornada dos dois protagonistas e o trabalho dos dois atores.

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Ainda que Odisseu enfrente a força da natureza e de ações sobrenaturais, é no fator humano que mora seu grande conflito. Graças a uma mãozinha divina, os anos longe de casa tornaram o herói perdido, confuso em seus propósitos, sem saber como voltar para casa não só física, mas também mentalmente. A persistência dele é testada à exaustão e a um preço alto. Matt Damon se sai bem na administração das nuances.

O mesmo me chamou a atenção no trabalho de Anne Hathaway, John Leguizamo e Himesh Patel, respectivamente, como Penélope, Eumeu e Euríloco. Quanto a Tom Holland, confesso, foi um pouco difícil deixar de lado a personalidade Homem-Aranha, mas tenho uma sensação de que estamos acompanhando o bom desenvolvimento de um jovem artista que não tem medo de desafios.

“Você não vai ser o maior, nem o mais forte. Então, seja o mais esperto”

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A fala de Eumeu simboliza o que, para mim, está no coração dessa história. Como citei antes, as sombras e qualidades humanas são o que dão força à magia. A saga do retorno de Odisseu para casa – que, não à toa, é o modelo da jornada do herói, conceito usado até hoje na ficção –, coloca em evidência o pior e o melhor do que significa ser uma pessoa.

Lealdade e traição, princípios e suscetibilidade, fé e negação são colocados em conflito em diversos tipos de situações, em diversos tempos e revelam que a resposta humana aos desafios que são apresentados também são diversas, mas parecem guardar semelhanças atemporais. Encontrar o caminho de volta para casa, às vezes, simboliza uma variedade de desafios.

Antes de terminar este texto, vou admitir que posso estar sendo um pouco intensa nas palavras, mas A Odisseia de Christopher Nolan me parece o tipo de adaptação que, com suas liberdades, vai perdurar. A sensação é de que daqui a uma década ou duas ou três, esta ainda será uma obra impactante e, quem sabe, um clássico.

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