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    Como a representatividade lésbica nos cinemas evoluiu nas últimas décadas?
    19 de ago. de 2021 às 21:30
    Nathalia Jesus
    Nathalia Jesus
    -Redatora
    Especialista quando se trata de filmes que abordam o amor plural, principalmente entre duas mulheres. Com uma lista gigante de recomendações (para todo o tipo de recorte) e produções LGBTQ+ já assistidas, ela considera precioso cada minuto que passou em frente às telas prestigiando tais romances.

    Mulheres lésbicas foram apagadas, retratadas erroneamente e hipersexualizadas na sétima arte — mas isso está mudando.

    Hoje é o Dia do Orgulho Lésbico, data de extrema importância que ficou consagrada como o “Stonewall brasileiro” e você já vai entender o motivo! Na data de 19 de agosto de 1983, em São Paulo, ativistas do Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF) se reuniram no Ferro’s Bar para protestar contra a discriminação e censura que sofreram por parte dos proprietários do local.

    O bar era conhecido como um dos principais espaços de entretenimento noturno, onde ativistas da causa LGBTQIAP+ se encontravam e faziam performances. Neste mesmo período, GALF começou a distribuir os boletins intitulados “ChanacomChana”, primeira publicação de ativismo lésbico no Brasil, mas foram expulsas do local, assim como seus trabalhos intelectuais. Foi então que iniciaram uma manifestação que só foi cessada quando o grupo obteve a promessa de que não seriam impedidas de veicular a revista.

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    A história das lésbicas ao redor do mundo vem acompanhada de muita resistência, luta contra discriminações com fundamentação patriarcal, violências físicas, morais e psicológicas, e o apagamento desse grupo de pessoas. E quando se fala em representatividade, pode parecer uma ação pequena e pouco efetiva, quando, na verdade, é uma atitude responsável por fazer com que tais mulheres se reconheçam como sociedade e percebam que suas existências não são um erro. O cinema é um meio de alto alcance que pode tornar essa experiência possível, mas como a sétima arte tem feito isso nas últimas décadas?

    A "lésbica dos sonhos" sob a ótica de homens

    Um problema recorrente na representação lésbica nos cinemas é quando essas histórias são lideradas por homens (brancos, em sua maioria). E sim, isso pode ter sido uma exigência dos grandes estúdios por muito tempo ou, até mesmo, a única forma de um filme com mulheres homossexuais sair do papel. Mas não significa que tais obras são, necessariamente, algo para se orgulhar. Pelo contrário, podem ser um desserviço.

    A realidade é que homens cisgêneros — e digo isso de maneira explicitamente generalista — enxergam as lésbicas a partir da ótica pornográfica que as tornam, essencialmente, brancas, magras, femininas, jovens e sensuais em demasia. Tal percepção resulta na representação errônea que hipersexualiza e padroniza lésbicas, gerando um efeito a la Azul É A Cor Mais Quente — longas cenas de sexo desconfortáveis tanto para as atrizes, quanto para as mulheres homossexuais que assistem. Ou práticas sexuais teatrais e pouco naturais, como a sequência do cuspe na boca em Desobediência, com Rachel Weisz e Rachel McAdams.

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    Mulheres que apresentam características tais como desfeminilização, etnias e raças diversas ou corpos fora do padrão, foram apagadas no cinema lésbico por muitos anos, por não serem ideais na perspectiva masculina e não satisfazerem o público heterossexual — muito mais interessado no sexo do que no desenvolvimento das personagens e de suas relações interpessoais.

    Menos sexo, mais responsabilidade na representação lésbica

    Ao longo dos anos, a indústria cinematográfica vem avançando e, gradualmente, percebendo que não há espaço para representação irresponsável de mulheres lésbicas — e de mais nenhum outro grupo minoritário. Isso pode ser observado pelos filmes mais recentes como Happiest SeasonFora de Série e Rafiki, que têm como característica comum a direção de mulheres (Clea DuVallOlivia Wilde e Wanuri Kahiu, respectivamente).

    Na pequena seleção feita acima, apenas Clea DuVall é assumidamente lésbica, e foi certeira ao conceder espaço para que Kristen Stewart, também homossexual, fosse protagonista de uma história de amor entre duas mulheres — que se parece mais com ela do que quaisquer personagens heterossexuais que a atriz já tenha interpretado.

    O curioso é que, nos filmes citados, as figuras por trás das câmeras (mulheres, independente da orientação sexual) tiveram a sensibilidade de entender que lésbicas são mais que corpos e assim merecem ser retratadas. Sem dar ênfase ao sexo explícito nas telas e à objetificação, as cineastas trouxeram humanidade e naturalidade aos romances de suas personagens principais. E isso já é um indicativo de atenção e respeito à causa, embora seja mais recomendado que artistas lésbicas liderem suas próprias narrativas.



    Além disso, na última década, até mesmo diretores homens têm surpreendido pelas abordagens positivas em suas representações de mulheres lésbicas, como Filippo Meneghetti, cineasta responsável por Nós Duas, filme indicado ao Globo de Ouro 2021, e J Blakeson, que comandou as câmeras no recente longa-metragem da Netflix, Eu Me Importo.

    Estrelado por Rosamund Pike e Eiza GonzálezEu Me Importo acompanha a saga de um casal de namoradas que aplicam golpes em pessoas idosas e se tornam seus responsáveis legais, com acesso a todos os seus bens. O filme não é um cinco estrelas, mas definitivamente impressiona por não representar, em nenhum momento, o amor entre duas mulheres como algo anormal ou sujo. A abordagem de J Blakeson é interessante por não colocar obstáculos lesbofóbicos na trajetória delas, fazendo com que o romance seja algo extremamente natural. Do jeito que deve ser!

    Enquanto isso, Nós Duas mostra o romance de um casal formado por mulheres mais velhas, cujas faixas etárias beiram entre os 50 e 70 anos — o que já causa impactos positivos para o público lésbico que, pasmem, também envelhece e precisa ser retratado em suas vidas na terceira idade. Na trama, Filippo Meneghetti faz jus ao romance das personagens, embora peque pela ênfase da tragédia — assunto que rende um próximo tópico!
    Chega de tragédia, me tragam clichês fofos!

    Sim, lésbicas sofrem lesbofobia, mas nem tudo é sobre isso — e os cineastas estão começando a entender, aos poucos. Nos últimos anos, os filmes lésbicos estão evoluindo pela nova tendência em adicionar finais felizes e precisam investir ainda mais em melhorias para um desenvolvimento mais tranquilo e sóbrio para as personagens, porque mulheres homossexuais não aguentam mais ver suas vidas sendo resumidas a tragédias nas grandes telas.

    A realidade é cruel e difícil para mulheres lésbicas e, embora a representação de momentos fatídicos tornem o filme mais fidedigno às experiências reais, suas vivências não se reduzem ao trágico. Elas podem viver clichês românticos, ter pais e/ou sogros que as aceitem como são e respeitem seus relacionamentos, ser bem-sucedidas profissionalmente… As possibilidades são infinitas!

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    E quando o cinema lésbico enfatiza excessivamente a tragédia, pode passar a mensagem de que mulheres homossexuais estão fadadas ao fracasso e sofrimento eterno — o que não é verdade. A discriminação contra a orientação sexual não pode ser tudo sobre a vida de lésbicas e o audiovisual precisa apostar cada vez mais na perspectiva positiva do amor entre mulheres.

    Os atuais romances lésbicos de época, como Retrato De Uma Jovem Em Chamas, AmmoniteElisa y MarcelaThe World To Come cumprem seus papéis em lutar contra o apagamento e mostrar que mulheres homossexuais sempre existiram em todas as épocas. Mas a carga dramática e os acontecimentos trágicos ditam o tom, encerrando a história de modo em que o destino de uma delas seja solidão, morte ou retorno para os braços de um homem por pura imposição — como se lesbianidade fosse uma fase passageira a ser esquecida.

    Besteirol adolescente em Quase Adultas, clichês românticos como Imagine Eu & Você, histórias sobrenaturais com vampiros em With A Kiss I Die e musical com enredo familiar como Hearts Beat Loud são de extrema importância para o público lésbico, que procura leveza e entretenimento saudável. É reconfortante poder ver mulheres homossexuais apaixonadas, tendo orgulho de quem são, sem as armadilhas do medo e da proibição, e quanto mais o cinema se adaptar e normalizar tais narrativas, as lésbicas se sentirão devidamente representadas.

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