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    Lightyear
    Críticas AdoroCinema
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    Um voo solo para além de Toy Story

    por Lucas Leone
    E se os brinquedos do seu quarto ganhassem vida quando você não está presente e embarcassem nas aventuras mais mirabolantes até você voltar? Essa foi a premissa escolhida pela Pixar em 1995 para sua primeira animação, Toy Story, que rapidamente colocou o estúdio no panteão da cultura pop. Três filmes derivados e 27 anos depois, a afiliada da Disney reabre o baú de Andy para contar a história de um de seus bonecos preferidos: o patrulheiro espacial Buzz Lightyear. Agora, porém, sem a presença de seus inseparáveis companheiros Woody, Jessie, Sr. Cabeça de Batata, Rex, Porquinho e tantos outros que o público esperava reencontrar.

    Dirigido por Angus MacLaneLightyear não tem medo de traçar sua própria rota e se afastar da consagrada franquia. Isso fica bem claro desde os minutos iniciais, quando é informado a nós, espectadores, que estamos prestes a assistir ao mesmo longa-metragem que Andy viu em 1995 e que fez com que ganhasse Buzz de presente. Trata-se, portanto, da origem do personagem que inspirou o brinquedo – o que de imediato pressupõe bastante liberdade para a nova equipe criativa.

    O que acontece em Lightyear?



    Com voz original de Chris Evans e dublada em português por Marcos Mion, a trama acompanha Buzz depois que um erro de voo leva o astronauta e seus colegas a caírem em um planeta hostil, a 4,2 milhões de anos-luz da Terra. Com a ajuda de sua comandante e melhor amiga, Alisha Hawthorne (Uzo Aduba), ele tenta achar um combustível que os permita voltar para casa. O problema é que o tempo passa de forma diferente para Buzz quando está fora e para aqueles que permanecem na base espacial.

    Ao retornar de um dos testes fracassados, ele descobre que nada mais é como antes e que sua única esperança está em um grupo de recrutas inexperientes. Para complicar a situação, eles se deparam com (rufem os tambores!) Zurg, uma presença alienígena misteriosa que comanda um exército de robôs implacáveis.

    Sim, essa é a segunda e última referência que Lightyear faz a Toy Story: o imperador também tem sua origem e sua verdadeira ligação com Buzz reveladas. No entanto, a explicação não convence e, inclusive, conflita com os eventos narrados em Toy Story 2. Se o furo não passa batido nem pelos mais desatentos, imagina por aqueles que conhecem os desenhos de cor.

    Lightyear está mais para Toy Story ou Perdido em Marte?



    Não há dúvidas de que Lightyear segue a cartilha dos filmes de ficção científica, em que um herói bem-intencionado se perde no espaço, enfrenta condições inóspitas e procura um jeito de regressar à Terra. Custe o que custar. Não é uma jornada inovadora em termos de roteiro, mas certamente é uma justa homenagem aos clássicos do gênero – desde títulos recentes como Gravidade (2013), Interstelar (2014) e Perdido em Marte (2015) até a saga Star Wars, de George Lucas.

    Lightyear nos arrasta para uma vasta galáxia onde humanos precisam lidar com ameaças da natureza e tecnológicas, onde sobreviver é mais difícil do que escapar de Sid, o destruidor de brinquedos, ou de Lotso, o urso autoritário. Ao contrário de Toy Story, a brincadeira aqui não é mais de criança, e o tom infantil fica para trás ainda que os personagens secundários (os recrutas) sirvam como alívio cômico.

    Vale notar que a temática cósmica, quase pós-apocalíptica, não costuma aparecer muito nas produções da Pixar, que só havia desbravado o terreno em Wall-E (2008). Logo, é interessante observar a solução criativa e bastante sensível que o estúdio encontrou para explicar ao público de idades variadas fenômenos científicos como a dilatação do tempo. Porque, de fato, os astronautas envelhecem uma fração mais devagar do que todos na Terra quando viajam muito longe em grande velocidade.

    Toda vez que Buzz volta de um de seus testes – com duração de quatro minutos –, os trabalhadores da base espacial dobram de idade. Para marcar a passagem do tempo, a animação optou acertadamente não por um potencial interesse amoroso que aguarda o retorno do herói, e sim por sua amizade com Alisha, uma personagem abertamente lésbica que, no decorrer dos anos, engata um romance com outra mulher, se casa, tem filhos e vira avó.

    É um lado humanizado de Buzz que Toy Story não pôde explorar por se tratar de um boneco e que o novo filme se permite fazer a partir do zero. Infelizmente, sua relação com Alisha tem pouco tempo de tela, e a trama acaba se concentrando mais em sua aventura intergaláctica e na infinita possibilidade de efeitos visuais. Não faltam naves explodindo, lutas contra robôs, experimentos que dão errado. São momentos que empolgam, mas que definitivamente não carregam o tom da franquia original e não provocam assombro.

    A Pixar teve medo de assumir o beijo lésbico em Lightyear?



    Antes de estrear, Lightyear já estava envolvido em polêmica. Em março deste ano, por meio de uma carta aberta, funcionários da Pixar acusaram o estúdio de proibir uma cena de beijo entre Alisha e sua companheira. Segundo a denúncia, a Disney teria uma tendência a censurar relações homoafetivas em seus projetos, além de ter supostamente dado apoio financeiro a membros do legislativo por trás do projeto de lei "Don't Say Gay" (ou “Não Diga Gay''). A medida, que foi aprovada pelo governador da Flórida, tira o direito de professores e escolas de abordarem a existência de pessoas LGBTQIAP+.

    É claro que a repercussão dos protestos aumentou as expectativas em torno da cena, já que se tornou a primeira na história da Pixar a retratar explicitamente uma troca de afeto entre duas pessoas do mesmo sexo. Expectativas foram criadas, expectativas foram quebradas. O beijo dura menos de um segundo e acontece em segundo plano.

    Planejada ou não, a "brevidade" da cena parece reforçar uma certa relutância do estúdio em ter um casal homoafetivo como estrela de seus longas-metragens. Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica (2020) marcou a primeira vez que um personagem da Pixar confirmou estar em um relacionamento com uma pessoa do mesmo sexo. Já o curta-metragem Out (2020) trouxe o primeiro protagonista gay da casa. Mas nunca um longa-metragem.

    No geral, Lightyear consegue aplicar a fórmula da ficção científica, misturando o dinamismo e a linguagem visual que o gênero requer com momentos de humor e emoção típicos da Pixar. O filme entretém e diverte, mas não espere nada próximo de Toy Story. É um voo solo que segue suas próprias regras e que lança, sim, um olhar mais adulto para aqueles brinquedos que tanto conhecemos e amamos.

     

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