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    Paternidade
    Críticas AdoroCinema
    3,0
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    Paternidade

    A “dramédia” que faz rir e chorar

    por Vitória Pratini
    Kevin Hart sai do seu tradicional personagem cômico — eternizado em papéis como Jumanji: Bem-Vindo à SelvaUm Espião e Meio, só para citar alguns — a fim de assumir o paizão em Paternidade. O novo filme da Netflix, lançado nesta sexta-feira (18), mistura drama e comédia em doses certas, na famosa “dramédia”. Mas não se engane! Tal como em Operação Babá, a produção ainda tem piadas milimetricamente encaixadas no enredo sobre o lado realista de ser pai, e isso inclui temas como fezes, náuseas, carrinhos dobráveis e ainda o fato de que não há pessoas com quem falar sobre.

    Como o nome já diz, Paternidade acompanha um homem descobrindo como ser pai. Matt (Hart) fica viúvo inesperadamente quando sua esposa morre no dia seguinte ao parto de sua filha. Ele decide, então, criar a menina como pai solo, mesmo que ninguém acredite que ele tenha vocação para isso (ninguém mesmo, como o filme deixa claro inúmeras vezes, com um timing propositalmente desconfortável, apesar de não explorar este desconforto). Inspirado em uma história real, não há nada de muito novo no longa-metragem em relação a seu gênero. Ainda assim, é um bom entretenimento que pode fazer chorar de rir ou rir de chorar.

    Melody Hurd é uma jovem revelação de Paternidade

    Dividido em dois momentos diferentes, Paternidade primeiro acompanha os desafios de Matt com sua filha recém-nascida e depois com a menina aos 5 anos indo para o jardim de infância, enquanto ele se permite ter uma namorada, vivida pela cativante DeWanda Wise, que em breve poderá ser vista no inédito Jurassic World: Domínio. Os acontecimentos de Fatherhood (no original) são rápidos, apostando em um ritmo corrido, mas nada que prejudique o desenrolar da trama.

    Tal divisão beneficia o enredo, trazendo um frescor na trama aos 45 minutos (do primeiro tempo!), além de apresentar a talentosa atriz mirim Melody Hurd (Them), que possui uma dinâmica adorável ao lado de Kevin Hart. Sua relação de pai e filha gera uma identificação bem-vinda. Destaque para a hilária sequência no parque de diversões e uma sutil referência à vez em que Hart foi à montanha-russa obrigado por Jimmy Fallon em seu programa no The Tonight Show.

    Netflix


    Filme vai tirar o status de “cancelado” de Kevin Hart?

    O longa-metragem da Netflix é bastante linear e até “purista”. Paternidade não mostra de perto cenas românticas, por exemplo, apesar de não deixar palavrões de lado. E certamente não coloca o dedo na ferida em momento algum. Nem mesmo quando as pessoas em volta de Matt perguntam onde está a mãe da criança e ele inventa divertidas desculpas. Ou quando o chefe (Paul Reiser, contido no papel) oferece semanas de folga, permite que ele leve a criança para uma reunião de trabalho, ameaça demiti-lo e depois oferece uma promoção. Não soa como um reflexo real dos desafios de um pai solteiro negro nos Estados Unidos. É utópico, mas em Paternidade funciona. A única crítica construtiva que a produção ousa fazer é sobre a questão de gênero e o vestuário ainda imposto para meninos e meninas na escola e na sociedade, por exemplo.

    Talvez esta escolha narrativa tenha sido uma adaptação proposital, para que fosse um verdadeiro “feel good movie” (daqueles que nos fazem nos sentir bem). Dirigido por Paul Weitz — conhecido pelo emocionante Um Grande Garoto e com quem Hart trabalhou anteriormente em Entrando numa Fria Maior Ainda com a Família — o longa é inspirado no livro de memórias de Matthew Longelin. Enquanto o protagonista da vida real é branco, no filme, este Matt e praticamente toda sua família e comunidade de amigos são negros.

    As escolhas do elenco — que teve Hart substituindo Channing Tatum no papel principal — parecem uma forma proposital de reafirmar a universalidade dos temas da produção, como amor ou a dor do luto, que transcendem raça e etnia. Além disso, o filme tenta a todo momento redimir a imagem de Kevin Hart diante do público. O astro foi alvo da cultura do cancelamento referente a declarações homofóbicas e controvérsas feitas por ele inúmeras vezes que o levaram inclusive a recusar apresentar a cerimônia do Oscar 2019.

    Hart repete modus operandi do remake de Intocáveis

    Netflix


    Esta não é a primeira vez que Hart faz um protagonista mais dramático, usando e abusando da atuação repleta de expressões faciais. Ele praticamente reprisa o trabalho que fez em Amigos para Sempre, remake norte-americano do elogiado Intocáveis, no papel que foi de Omar Sy (Lupin). O ator transita bem entre o homem mau-humorado e sofredor para um pai que prioriza as necessidades de sua filha. O choro parece sincero, e vem nos momentos certos.

    Um exemplo disso é a troca interessante entre Matt e sua sogra, Marian, interpretada pela excelente Alfre Woodard. A atriz caminha por territórios conhecidos e repete traços de alguns de seus personagens anteriores, como Mariah Dillard de Luke Cage, passando a noção de uma mulher amargurada, mas preocupada com os seus. Ainda assim, ela consegue tirar Hart da sua zona de conforto.

    Já os coadjuvantes Anthony Carrigan (Barry) e Lil Rel Howery (Corra!) embarcam muito bem no lado mais cômico da trama como os amigos de Matt. O primeiro, hilário; o segundo, um pouco forçado mas sensato.

    Netflix


    Paternidade é padrão, um “filme de sessão da tarde” — como daqueles produzidos pelo canal Hallmark nos Estados Unidos — só que com “filtro Netflix”. O longa de Kevin Hart se aproveita de uma fotografia e direção bem televisivas, mas traz grandes nomes no elenco, além de um status e um glamour. Inserindo sutilmente diversidade e questões de gênero (com a moda “genderless”), a produção emociona e/ou diverte — depende do seu humor.

     

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