De Psicose a Hereditário, o horror transformou as angústias de cada geração em histórias que revelam muito sobre nós.
A ideia de aterrorizar o outro é um passatempo que há séculos instiga a sociedade. Desde eras mais antigas, a raça humana cultiva uma vasta tradição de folclore e narrativas centradas naquilo que espreita no escuro, especialmente fenômenos desconhecidos e outros considerados sobrenaturais. Diante de um legado tão forte, não surpreende que o terror tenha encontrado rapidamente seu espaço nas telas após o surgimento do cinema.
Para se ter ideia, o primeiro filme de terror que se tem notícia é Le Manoir du Diable, um projeto mudo, lançado em 1896, na França, pelo cineasta Georges Méliès. Com aproximadamente três minutos de duração, o curta-metragem contou a história do demônio Mefistófeles, que surge a partir da transformação de um morcego e passa a atormentar dois homens dentro de um castelo. Ao longo da produção, esqueletos, fantasmas, bruxas e outras criaturas aparecem em cena, enquanto Méliès utiliza truques de edição e efeitos visuais para dar clima à obra.
A partir daí, a sétima arte entrou em um processo de aprendizado, e por meio de erros e acertos, iniciou uma instigante jornada através do sinistro. Com o passar das décadas, o gênero deixou de depender exclusivamente de criaturas sobrenaturais para explorar diferentes formas de medo, e incorporou elementos psicológicos, sociais, políticos e até mesmo tecnologia às suas histórias.
Com essa perspectiva em mente, confira a seguir como o terror cinematográfico vem se transformando desde a década de 1950, e de que maneira o contexto sociocultural de cada período exerceu uma influência decisiva sobre os enredos, as criaturas e os demais artifícios empregados para despertar temor.
Análise: O melhor filme de terror do ano está nos cinemas: Uma metalinguagem slasher sensual e cheia de sangueDécada de 1950: medo da bomba atômica, da radiação e da Guerra Fria
A Segunda Guerra Mundial terminou em meados de 1945, e os reflexos desse conflito puderam ser sentidos nos mais diversos âmbitos. O desenvolvimento e o uso da bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki inauguraram uma nova era de insegurança, enquanto a crescente tensão entre Estados Unidos e União Soviética deu início à Guerra Fria.
Nesse contexto, o terror cinematográfico encontrou terreno fértil para transformar os principais receios da sociedade em projetos que refletiam as angústias de uma geração. A ameaça nuclear, o avanço da radiação e o medo de uma nova disputa em escala global passaram a inspirar criaturas gigantescas, assim como mutações e experiências científicas capazes de fugir do controle humano.
Conforme apontado pelo artigo “The evolution of fear: cultural change in cinema horror types”, publicado em 2025 pelos professores da Universidade de Milão, Simone Sarti, Federico Boni e Massimo Airold, Godzilla foi o filme de terror mais popular do ano de 1954. Para quem não conhece, o longa-metragem foi dirigido pelo cineasta japonês Ishirō Honda, e acompanha o surgimento de uma imensa criatura reptiliana, despertada após testes nucleares, que passa a devastar Tóquio.
Outra produção que fez sucesso na década de 1950 foi A Bolha Assassina, que lançada em 1958, contou a história de uma forma de vida mutante, alienígena, que consome seres vivos até eventualmente se tornar maior do que um prédio. Enquanto o monstro japonês estava diretamente associado ao trauma nuclear, a geleia rosa extraterrestre dialogava com a fascinação e o receio provocados pela exploração espacial, que estava em alta por conta da Guerra Fria.
Paranoia e o desmoronamento das instituições tradicionais aplacaram a década de 1960
A década de 1960 deu vida ao movimento Hippie nos Estados Unidos, e com ele, valores contraculturais como a rejeição ao capitalismo, às instituições tradicionais e o questionamento ao establishment ganharam força. Em meio a profundas transformações sociais, o cinema de terror abandonou parte das convenções que haviam marcado os anos anteriores, e no lugar de monstros externos, o medo passou a se manifestar dentro dos ambientes familiares e comuns ao cotidiano.
Um dos maiores clássicos do audiovisual, Psicose (1960) mostrou que o horror não morava mais em castelos mal-assombrados, mas sim em um simples motel de beira de estrada, próximo a uma rodovia bem-cuidada. O longa refletiu uma crescente ansiedade cultural em relação às doenças mentais, e sugeriu que segredos perturbadores também poderiam estar escondidos por trás de famílias aparentemente respeitáveis.
Outros monólitos da época, enquanto O Bebê de Rosemary (1968) discute gênero, identidade e autonomia feminina; A Noite dos Mortos-Vivos (1968) está profundamente associado a temas como racismo e violência policial.
Os serial killers conquistaram os holofotes das décadas de 1970 e 1980
Estudos mais profundos envolvendo assassinos em série se intensificaram no início da década de 1970 - conforme você pode conferir neste artigo publicado pelo FBI. Em 1972, a agência federal norte-americana criou um departamento dedicado às ciências comportamentais, com o objetivo de estudar a mente de criminosos violentos e compreender melhor seus padrões. Lançada em 2017, a série Mindhunter apresenta uma excelente dramatização a respeito do assunto.
Ted Bundy, Richard Ramirez, Jeffrey Dahmer e David Berkowitz foram só alguns dos serial killers que ganharam notoriedade nessas duas décadas - e obviamente, um interesse crescente por seus crimes reverberou no imaginário popular. Sempre atento, Hollywood aproveitou para capitalizar em cima do tema, e impulsionou o subgênero que conhecemos como terror slasher.
Com um cenário propício, não demorou para que produções como O Massacre da Serra Elétrica (1974), Noite do Terror (1974), Halloween (1978), Sexta-Feira 13 (1980), Acampamento Sinistro (1983) e A Hora do Pesadelo (1984) assustassem os espectadores na escuridão do cinema.
Quem é a personagem de Sarah Paulson em Monstro: A História de Lizzie Borden? Serial killer nasceu décadas depois do caso BordenA década de 1990 foi dominada pela tecnologia e pelo terror psicológico
Nos anos 1990 - particularmente a minha década favorita -, os filmes de terror passaram a se associar à instabilidade psicológica, à dificuldade de distinguir realidade de ilusão e à tecnologia. Culturalmente, o mundo lidava com o boom da internet, dos computadores pessoais, dos videogames e dos celulares, e não demorou para que esses avanços também passassem a alimentar novas angústias.
Outro ponto-chave dessa década foi a crescente atenção dedicada às discussões em torno da saúde mental. De acordo com o estudo “A Disease Like Any Other? A Decade of Change in Public Reactions to Schizophrenia, Depression, and Alcohol Dependence”, publicado em 2010 no American Journal of Psychiatry, o Congresso dos Estados Unidos designou os anos 1990 como a “Década do Cérebro”, com o objetivo de impulsionar as pesquisas em neurociência e ampliar a conscientização pública sobre doenças neurológicas e transtornos mentais.
Com isso, longas como Alucinações do Passado (1990), O Silêncio dos Inocentes (1991), A Mão que Balança o Berço (1992), À Beira da Loucura (1994), A Estrada Perdida (1997) e O Sexto Sentido (1999) exploraram personagens mentalmente atormentados, muitas das vezes colocados em situações onde o público nem sempre podia confiar naquilo que estava vendo. Além dos mencionados, vale citar A Experiência (1995), O Enigma do Horizonte (1997), Esfera (1998) e Enigma do Espaço (1999), que misturaram tudo mencionado acima a grandes doses de tecnologia.
Comparada à onda de slashers extremamente violentos da década de 1980, boa parte do terror dos 1990 apostou mais em atmosfera, investigação e suspense. Isso não significa que o gore desapareceu, mas o gênero passou a depender menos da quantidade de sangue para provocar impacto.
Remakes asiáticos e mais tecnologia foram símbolos do terror dos anos 2000
A década de 2000 deu origem a um movimento curioso em Hollywood: a crescente produção de remakes asiáticos. Países como Japão, Tailândia e Indonésia serviram de grande inspiração para o terror norte-americano, que buscou no Oriente premissas mais simples, de baixo orçamento e vilões diferentes dos quais estávamos acostumados.
O Chamado (2002), O Grito (2004), O Olho do Mal (2008), Uma Chamada Perdida (2008) e Imagens do Além (2008) foram apenas alguns dos títulos que passaram por esse processo de adaptação. Se repararmos bem, quase todos eles possuem uma premissa em comum: a tecnologia está diretamente ligada à manifestação do sobrenatural.
Televisores, celulares, câmeras fotográficas, gravações e outros elementos que evoluíam tecnologicamente à época deixaram de ser meros objetos cotidianos e se transformaram em portas para maldições. As entidades do horror asiático não eram apenas criaturas que perturbavam suas vítimas, mas estavam associados à traumas, mortes violentas e ressentimentos.
Em termos gerais, a Ásia encontrou um ponto de equilíbrio entre as tradições antigas e as ansiedades de uma sociedade cada vez mais tecnológica. Não se tratava de reinventar a roda, esses filmes apenas estavam abrindo novos caminhos para um terror que não tinha nada a ver com facas ou violência física. Os cineastas asiáticos tinham em mente que quanto mais cru o susto, melhor.
De 2010 até os dias de hoje: o terror como instrumento político e conceitual
Por mais que o terror constantemente tenha sido utilizado como uma ferramenta política, a partir da década de 2010, essa característica foi potencializada. Questões como classe, religião, gênero e papéis sociais passaram a ocupar um espaço mais significativo nas narrativas, que apostaram em alegorias para expor mazelas.
Muito dessa influência esteve intrinsecamente relacionada à popularização das redes sociais, que ao ampliar o acesso à informação e a diferentes perspectivas, despertou um interesse sociopolítico mais expressivo em parcelas da sociedade. Dessa nova faceta, emergiu um subgênero que ficou conhecido como terror elevado, caracterizado por títulos que utilizam o medo e o desconforto como recursos que vão além do simples entretenimento.
Cisne Negro (2010), Sob a Pele (2013), O Babadook (2014), Grave (2016), Corra! (2017), Nós (2021), Titane (2021), Pecadores (2025) e outros filmes simbolizam perfeitamente o terror elevado. Fundada em 2012, a A24 é uma produtora/distribuidora que também brilha nesse subgênero, famosa por obras como A Bruxa (2015), Green Room (2015), O Lagosta (2016), Hereditário (2018), Midsommar (2019), Saint Maud (2021), Herege (2024) e Eu Vi o Brilho da TV (2024).
Assisti em 2021 a um dos melhores filmes de terror da minha vida e até hoje tenho calafrios ao lembrar deleUm futuro promissor desponta no horizonte
Ao observar a trajetória do terror ao longo das décadas, fica evidente que o gênero jamais permaneceu verdadeiramente estático. Não há como negar que o passado foi marcado por pilares de suma importância, mas ouso afirmar que o atual momento não deve em nada ao que já passou.
Recentemente, uma profusão de obras brilhantes conquistou público e crítica nas salas escuras ao redor do mundo: Fale Comigo (2022), Noites Brutais (2022), Presença (2024), Faça Ela Voltar (2025), Backrooms (2026), Obsessão (2026), Leviticus (2026) e mais. No fim das contas, talvez resida justamente aí uma das maiores virtudes do terror: sua extraordinária capacidade de se reinventar. Enquanto temores continuarem a evoluir, o gênero encontrará maneiras igualmente inventivas de lhes conferir forma.