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    Os filmes de Christopher Nolan, do pior ao melhor
    Por Renato Furtado e Rodrigo Torres — 30 de jul. de 2017 às 11:23
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    De Following a Dunkirk, décimo longa-metragem do cultuado — e muito questionado — diretor da Trilogia do Cavaleiro das Trevas.

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    Following é o primeiro trabalho de Nolan e já demonstra sua coragem e ousadia como cineasta.
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    Christopher Nolan chega ao seu décimo longa-metragem numa posição curiosa em Hollywood. Revelado como uma promessa, aclamado como novo pai do blockbuster, o diretor inglês se lançou numa cruzada para ser um divisor de águas e acabou transformando a si mesmo num divisor de opiniões.

    Ambicioso, busca dar sofisticação ao cinemão americano, e conquista o público. Pretensioso, banaliza o legado de verdadeiros gênios da sétima arte, e é massacrado pela crítica. Essa relação de "ame-o ou deixe-o" virou regra em se tratanto de Nolan, e não é diferente em seu já controverso novo filme, Dunkirk.

    Assim sendo, listamos e ranqueamos os 10 filmes da versátil carreira de Christopher Nolan. Com comentários, e a conclusão a que se chega é de que o cineasta não é mesmo o maior do cinema, mas está longe de ser um dos piores.

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    10. Insônia

    Refilmagem genérica de um longa-metragem estrangeiro, Insônia é um típico filme de encomenda, realizado com tamanho desleixo e impessoalidade que desperdiça o talento de atores como Al Pacino e Robin Williams, contratados para interpretar mera reprodução de arquétipos, personagens muito rasos. Não chega a ser um filme ofensivo de ruim, porém tão sem personalidade — inclusive desprovido de marcas distintivas do cinema de Christopher Nolan — que se mostra, disparado, o longa-metragem mais esquecível da carreira do diretor. Um suspense ordinário, previsível, que, se serve para alguma coisa, é para preencher a grade do Supercine em um sábado qualquer.

    - Rodrigo Torres

    9. Following

    Filmado durante 52 finais de semana — ou seja, um ano inteiro — e por apenas US$ 6 mil, Following pode ser o primeiro trabalho de Nolan, mas já demonstra a confiança e a ousadia de um cineasta que viria a se estabelecer como um dos diretores mais técnicos e cerebrais do cinema contemporâneo. Homenagem à estética e ao aspecto psicológico dos filmes noir das décadas de 40 e 50, o filme apresenta o elemento que se tornaria uma das marcas registradas de Nolan: a narrativa não-linear. Following pode não ser tão espetacular ou grandioso quanto seus trabalhos mais recentes, mas é, certamente, uma obra corajosa e inteligente. Como longa-metragem de estreia, é simplesmente incrível. No fim das contas, a jornada ao interior da fraturada mente do protagonista de Following é puro encanto cinematográfico.

    - Renato Furtado

    Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

    8. Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

    Isolado, o capítulo final da trilogia do Cavaleiro das Trevas não é ruim. Christian Bale e Christopher Nolan mantêm a qualidade de suas performances e Tom Hardy é uma adição valiosa, criando um inimigo ameaçador — ainda que ininteligível. Entretanto, quando O Cavaleiro das Trevas Ressurge é colocado no contexto da saga, torna-se uma das maiores decepções dos últimos anos — e talvez de todos os tempos. Assim que o Batman é gravemente ferido, o longa degringola e vai ladeira abaixo a toda velocidade. As soluções encontradas pelo cineasta são pouco verossímeis (pertencem mais aos quadrinhos do que à lógica estabelecida por ele próprio), minando a qualidade realista da série. Até certo ponto, o filme se sustenta. Mas o longo ato final, confuso e apressado — a trama percorre cinco meses como se fossem segundos —, a ressurreição impossível de Bruce, as motivações cartunescas dos vilões e o melodrama exagerado impedem que a trilogia termine da forma correta.

    - RF

    7. Interestelar

    Seria no mínimo reducionista dizer apenas que Interestelar é um filme ruim. Seria até impreciso, injusto com uma aventura que tão bem se apropria da larga escala para engajar o público na urgência de sua trama e evocar a grandiosidade da missão de Cooper (Matthew McConaughey), da imensidão do espaço e de todo um legado do subgênero — o que atende às expectativas já presentes no inconsciente do espectador. O problema surge quando Interestelar resolve a necessidade de um desfecho improvável, algo quase que inerente à condição de blockbuster que o filme ocupa, com uma articulação filosófica. O resultado é pífio, confuso, implausível, desastroso. Um deus ex machina cretino com verniz existencialista vagabundo. Christopher Nolan tanto anseia um lugar próximo a Stanley KubrickAndreï Tarkovski, e atinge o "requinte" de um Paulo Coelho. Pode, no máximo, reivindicar o título de Romero Britto do cinema filosófico. 

    - RT

    Interestelar

    6. Dunkirk

    Há uma benção e uma maldição em Dunkirk e ambas atendem pelo mesmo nome: Christopher Nolan. Quando acerta, o cineasta entrega ao público sequências repletas de tensão e drama, utilizando seu extenso domínio da linguagem cinematográfica a seu favor. Nesses momentos, em que o diretor consegue conjugar perfeitamente a narrativa fraturada em três espaços-tempo distintos, a fotografia de Hoyte Van Hoythema, a trilha sonora de Hans Zimmer e a incrível engenharia de som, Dunkirk é fantástico. O cineasta mergulha o público no estado de espírito dos soldados que esperam pelo resgate e faz com que a plateia sinta toda a angústia e o desespero provocados pela situação. Por outro lado, quando Nolan erra, o filme sofre demais. A pesada direção, que exagera no uso das composições de Zimmer e não tira proveito algum do silêncio, realça os fracos diálogos fracos e o desperdício do talento de atores como Kenneth Branagh e Cillian Murphy. Há uma ausência de refinamento em certos pontos de Dunkirk — e quando até mesmo as eletrizantes cenas de guerra se tornam repetitivas, Nolan não consegue corrigir os equívocos que cometeu.

    - RF

    5. O Grande Truque

    Se o cinema realmente é a arte da ilusão — como defendia o lendário Orson Welles —, O Grande Truque ajuda a comprovar o argumento. Baseado na competição obsessiva entre dois ilusionistas (Christian Bale e Hugh Jackman em performances inesquecíveis), o quinto filme de Nolan é baseado no cruzamento e articulação das temáticas e estratégias narrativas que definem o seu estilo de direção. O mistério central se desenrola como um passe de mágica e, como em todo bom show de ilusionismo, o que está em questão em O Grande Truque não é a resolução. Aqui, o cineasta se concentra na intrincada estrutura de sua proposta narrativa e na sua habilidade da execução. Carismático e irresistível como seus protagonistas, O Grande Truque é um ousado e extragavante experimento cinematográfico repleto de reviravoltas e surpresas. Mais Nolan, impossível.

    - RF

    O Grande Truque

    4. Batman Begins

    O Homem-Morcego parecia fadado a um limbo de esquecimento depois que o diretor Joel Schumacher transformou o personagem num objeto de fetiche (com direito a mamilos!) em Batman & Robin. Não à toa, oito ano depois Batman Begins era lançado com publicidade modesta, sob um intenso espectro de desconfiança, e um nível de suspeita que crescia à medida em que era revelado o seu tom supostamente realista em excesso. Pois a contrapartida sombria ao tom carnavalesco dos filmes anteriores do Vigilante de Gotham viria a se mostrar um verdadeiro mergulho na essência severa do herói — o que não refuta a natureza fantástica do Batman, e, sim, resgata os arcos dos quadrinhos que melhor dimensionam a psique conturbada de um jovem bilionário que se esconde nas trevas para encontrar a si mesmo. Assim, Nolan realiza uma história de origem de fato, morosa porque dedicada, que uma vez estabelecida, realça grandiosos set pieces de ação regidos por uma trilha sonora empolgante e conduzidos por um protagonista (Christian Bale) inspirado. Não surpreende, portanto, que a aula de construção ensaiada em Batman Begins seja prelúdio de uma obra-prima dos filmes de super-heróis.

    - RT

    3. Amnésia

    Esqueça o pior título já traduzido para o mercado brasileiro. Amnésia (condição que o protagonista diz claramente não ter) é um modelo exemplar das possibilidades do cinema, tanto servindo como um interessantíssimo exercício de linguagem, como articulando com eficiência e engajamento sua intrincada narrativa de trás pra frente. A cada reboot da memória de Leonard (Guy Pearce, num icônico visual platinado), uma nova sequência cujo final já se sabe, o que confunde deliciosamente a cabeça do espectador para além da sessão, e o convida para revisitas futuras. Mas, além disso, Christopher Nolan experimenta já aí, nos idos de 2000, seu interesse em refletir sobre temas mais profundos enquanto realiza uma obra essencialmente de entretenimento, explorando as potencialidades da (falta de) memória de seu personagem principal para pincelar sobre questões como identidade e vingança.

    - RT

    Amnésia

    2. A Origem

    A estrutura dos sonhos humanos é um mistério que ainda não foi (e provavelmente não será) totalmente solucionado. O que está por trás das imagens que vemos em nossas mentes quando dormimos? Como todo bom enigma sem resposta, o ambiente onírico é tema principal de alguns dos maiores clássicos da sétima arte. Monstros sagrados do cinema — como Federico FelliniLuís Buñuel — podem ter explorado a questão dos sonhos em suas principais obras, mas foi Christopher Nolan quem ajudou a popularizar o debate no cinema com A Origem. O oitavo filme do realizador britânico arrecadou quase US$ 1 bilhão nas bilheterias ao redor do mundo trazendo uma mistura singular: um filme de arte com explosões, em sua essência, puro entretenimento com conceitos profundos sobre a psique humana. Espetacular, visualmente belo e absurdamente ousado, o longa equilibra diversas influências riquíssimas como a obra surrealista de Satoshi Kon (Paprika) e o apuro estético de Stanley Kubrick. As performances de Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard e companhia são incríveis e elevam o drama ao nível da tragédia. Um filme de roubo ambientado dentro da arquitetura da mente, dizia o slogan do longa. Bem, A Origem é exatamente isso. E muito mais.

    - RF

    1. Batman - O Cavaleiro das Trevas

    O maior problema dos filmes de super-heróis da atualidade é a sua plena fugacidade. Não sabemos quem são esses personagens para além de suas ações, que, assim, acontecem como que no piloto automático de uma pequena lista de valores banhados em maniqueísmo. O Homem-Morcego esbanja complexidade graças à sua introdução minuciosa em Batman Begins. Então, no filme seguinte, o Cavaleiro das Trevas é presenteado com um antagonista que é a sua contraparte do mal, ou possuidor de um conjunto de idiossincrasias mais particular, deturpadas. Assim nasce, também, algo raro na atualidade: um grande vilão, dotado de consciência, de autoconsciência, embora movido justamente pela loucura. Tal como o Homem-Morcego abraça a justiça para não enlouquecer, o Coringa enlouquece por descrença na justiça, e se torna ele mesmo o fiel dessa balança, sendo ele mesmo o agente do caos que o rodeia. Heath Ledger constrói esse fenômeno de maneira assombrosa, até trágica, com singularidade tal que supera a performance burlesca de Jack Nicholson. E a dualidade que move a trama, engenhosa, é conduzida num crescente permanente de tensão, reveses, tragédias, tudo representado com o que Hollywood tem de melhor a agregar ao subgênero (e definitivamente não é o CGI — tão responsável pela superficialidade dos desfechos na Marvel, aplicado em excesso no sofrível Universo Estendido da DC e aqui empregado com eficiente economia), de uma trilha sonora épica às tomadas grandiosas em IMAX.

    - RT

    Dunkirk Trailer Legendado
    Dunkirk Trailer Legendado

     

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    Comentários
    • Fernando Aragão
      Cada qual com sua opinião. A origem do Coringa é muito bem clara, para quem já leu A Piada Mortal, de Alan Moore - e, a nível de fidelidade às HQs, Jack Nicholson continua sendo o melhor Coringa, muito mais próximo daquele que cresci lendo.Não acho uma substituição de ácido por gasolina mil vezes superior a nada que esteja fiel aos quadrinhos - aliás, foi um bálsamo para minha alma poder ter reassistido Batman (1989) e Batman Eternamente (1995), após a terrível decepção que O Cavaleiro das Trevas (2008)foi para mim.E, destarte o típico excesso de realismo da trilogia de Nolan, gostei mais de O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012), por mostrar Bane e Mulher-Gato mais fiéis aos quadrinhos que as versões de Batman e Robin (1997) e Batman, O Retorno (1992).
    • Rafael Monteiro Brandão
      Como vc descaracteriza a origem de um personagem q não possui origem definitiva? (Pra quem ta Dizendo sobre descaracterizar o Coringa, vc não parece entender muito da caracterização do personagem). E a origem apresentada pelo Nolan do Duas caras é mil vezes superior à ter um mafioso jogando ácido na cara do Harvey e ele simplesmente ficando louco. E Aliás, Batman Begins é bem melhor q cavaleiro das trevas ressurge
    • Edson Carli
      Então, ambos usamos a falácia do espantalho. Meu principal ponto é, o final é improvável, e isso não faz dele um final ruim. O final ser ou não aderente a física não foi ponto da discussão. Mas eu também deslisei ao dizer que o problema da crítica era apenas esse ponto da argumentação, o correto era também rebater o restante da argumentação do crítico defendendo que de jeito nenhum é pífio, o filme tem grande valor. Também não é deus ex machina, pois ele deixa pegadas ao longo do filme, então não é algo tirado da cartola, pode não ser de agrado de alguns, mas não é um exemplo de deus ex machina.Então acho que a crítica derrapou pois exagerou, ele diz logo no começo que o filme não é ruim mas ele critíca tanto o final do filme que pra crítica ser verdadeira, teria que ruim pois teria um final horrível, mas não seria ruim pra concordar com o começo da crítica. Gerando aliás, um bom paradoxo.
    • Pedro Henrique
      errado, para vc talvez mas para nossa atual realidade ou o que se sabe sobre fisica, não. ele simplesmente fumou um baseado com o final daquele filme.
    • Fernando Aragão
      Como eu só assisti à trilogia de Batman, minha classificação seria:1) O Cavaleiro das Trevas Ressurge2) Batman Begins......................................................................10) O Cavaleiro das Trevas.Sei que muitos podem me crucificar, mas uma coisa para mim é realismo; outra coisa é obsessão demasiada por realismo, a ponto de descaracterizar as origens do Coringa e do Duas-Caras - isso, para mim, não tem perdão!
    • Fernando Aragão
      Com certeza! Principalmente o que ele falou acerca de O Cavaleiro das Trevas Ressurge.
    • Fernando Aragão
      Eu só teria trocado os lugares 1 e 8.
    • Viagens e Turismo
      Não há nenhum filme que explore as leis do universo, o espaço e humanidade com a profundidade que Interestellar explora. Quem não entendeu isso ainda, honestamente deveria investir 3 horas de qualidade para ter uma amostra honesta sobre a compreensão do mundo e da natureza humana.
    • Viagens e Turismo
      Filmaço, confesso que só depois de ter visto 2 vezes, que descobri que era do Nolan.
    • Viagens e Turismo
      Gosto dos dois. Mas na minha lista considero Memento apenas o 5º. Atrás de Interestellar, A Origem, TDK e o Grande Truque.Eu dou muito valor a história do filme, que no caso de Memento, só fica realmente interessante sendo observada pela ótica do protagonista, pois se fosse na ordem cronológica seria simples e enfadonha.Valorizo o fato dele ter sido criado assim e pela genialidade do Nolan em conseguir entregar algo nesse formato em um filme, mas a história dos outros filmes, para mim, superam a história de Memento.
    • Viagens e Turismo
      Cara não sei de onde você tirou isso. A única referência que pode ser colocada em paralelo entre os dois filmes (Matrix e Inception) é o modo como ele lida com a realidade verdadeira e virtual e a exploração da atenção do público por utilizar esse elemento.O fato de explorar esse viés não os tornam semelhantes, indica apenas que utilizam do mesmo elemento comum que é o poder da mente na co-criação da realidade.Para mim a semelhança entre eles acaba ai.Perceba que é a mesma lógica do Jogador n.º 1 do Spieberg e o fato deles compartilharem esse elemento em comum não tira a originalidade de nenhum dos filmes mencionados.Se eu pudesse reduzir em poucas palavras cada filme eu diria que Matrix fala sobre teoria da conspiração e Incpetion fala de manipulação de verdade.
    • Viagens e Turismo
      Para uma geração que não consegue ver um vídeo de 5 minutos no youtube, um filme com quase 3 horas deve ser ruim mesmo de assistir e compreender.Inception e Interestellar não são filmes para qualquer um entender, principalmente se viu apenas uma vez.Ainda mais se for assistir apenas por tecnicismo e passa tempo, provavelmente não vão extrair o que tem de melhor neles.Já vi ambos incontáveis vezes e quase sempre consigo perceber algo diferente.O Inception é tão foda que inovou até no fechamento de um arco. A cena que te dá a compreensão completa do filme você consegue entender tudo que aconteceu em uma cena com 6 atores e ninguém diz uma só palavra durante algum tempo.Esse silêncio é proposital para dar tempo que sua mente interprete toda informação que recebeu até ali.E quando você se dá conta disso, percebe que o filme inseriu uma ideia em sua cabeça igualzinho como eles mostram no filme.É muito sutil, acho que proposital, quem já assistiu mais de uma vez provavelmente deve ter conseguido perceber isso mais claramente.Tirando isso, a lista do Chronus sem dúvida é a que eu também acredito ser a certa.
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