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    Festival Varilux 2022: “Ir ao cinema também é uma forma de educação”, defende o diretor francês Régis Roinsard (Entrevista Exclusiva)
    30 de jun. de 2022 às 23:20
    Lucas Leone
    Lucas Leone
    -Redator
    Lucas só continua nesta dimensão porque Hogwarts ainda não aceita alunos brasileiros. Ele até tentou ir para Westeros ou o Condado, mas perdeu a hora do Expresso do Oriente. Hoje, pode ser visto escrevendo no Central Perk mais próximo.

    Edição deste ano começou no dia 21 de junho e acontece até 6 de julho, reunindo 17 filmes franceses inéditos e sete séries.

    O que o ator Gilles Lellouche e o diretor Régis Roinsard têm em comum? Além do fato de serem franceses, ambos são apaixonados por bossa nova. Gilles morou no Rio de Janeiro 15 anos atrás, durante dois meses, para escrever o roteiro de seu primeiro filme. “Foi o único país de onde saí com lágrimas nos olhos”, assim define sua breve experiência no Brasil.

    Régis, por sua vez, não esconde sua admiração por artistas como Sérgio Mendes e Dóris Monteiro, tendo até comprado seus vinis em passagem por São Paulo. “Esse tipo de música me deixa maluco, aquece meu sangue”, confessa.

    Festival Varilux 2021: Ator de Sex Education e filme sobre negacionismo marcam abertura do evento (Entrevista)

    Os dois, Gilles e Régis, marcaram presença no Festival Varilux de Cinema Francês 2022, que começou no dia 21 de junho e acontece até 6 de julho, em mais de 50 cidades pelo país. O motivo da visita? Gilles estrela O Destino de Haffman, enquanto Régis comanda Esperando Bojangles – dois dos 17 longas-metragens que compõem a 13ª edição, junto de sete séries inéditas.

    Como de costume, o AdoroCinema foi bater um papo com a delegação artística que estava hospedada em Copacabana, no Rio. Nesta primeira parte, você pode conferir o resultado das entrevistas com Gilles e Régis – e clicando aqui você descobre mais sobre a programação do evento.

    O DESTINO DE HAFFMAN: “SE PARAMOS DE CONTAR A HISTÓRIA, VAMOS ESQUECÊ-LA”, DIZ GILLES LELLOUCHE

    Adaptado da aclamada peça de teatro escrita por Jean-Philippe Daguerre e dirigido por Fred Cavayé, O Destino de Haffman acompanha François Mercier (Lellouche), um homem comum que, na Paris de 1942, sonha em começar uma família com a mulher que ama. Ele trabalha como assistente na loja de Joseph Haffman (Daniel Auteuil), um talentoso joalheiro de origem judaica. Porém, com o avanço da ocupação nazista na França, os dois homens não têm outra escolha senão honrar um acordo cujas consequências, ao longo dos meses, afetam definitivamente seus destinos.

    O que mais chamou sua atenção neste projeto?

    "Achei o roteiro lindo, muito bem construído. Eu sempre gostei muito de huis clos [algo como 'portas fechadas'] no cinema, apesar de ser um gênero que fazemos cada vez menos. Eu realmente queria interpretar um bastardo. Na França, durante a Segunda Guerra Mundial, havia muitos caras como François. E a História é algo que se perpetua. Se pararmos de contá-la, vamos esquecê-la! Então, eu queria dar vida a esse homem comum, que abriga muitos complexos e que cai no lado errado da História.

    "No entanto, a pandemia não nos ajudou. Em uma sexta-feira à noite, eu estava com a equipe tomando uma bebida, dissemos até segunda-feira, e não os vi por dois meses e meio. O filme parou, o que foi muito difícil para o diretor e para nós também. Porque tivemos que conviver com esses personagens por dois meses e meio. Esses personagens, eu gostaria de me livrar deles o mais rápido possível."

    Seu pai era judeu e vendia joias assim como Haffman no filme. Como foi, portanto, encarnar um sujeito da estirpe de François? Poderíamos dizer que hoje ele seria um negacionista?

    "Este filme é um dever de memória, um princípio de História, iluminar algo que não é novidade. Porque não reinventamos nada com este filme. Sempre me perguntei que homem eu teria sido durante a guerra. Porque é muito fácil dizer: 'Ah, eu teria sido um membro da resistência, um herói.' Tudo bem, vá lá, seja perseguido por nazistas, então conversamos sobre isso. E, na verdade, François é um homem medroso, que não tem grandes ideias; ele tem uma vida pequena, é ciumento, é complexo. É justamente nesse terreno que nascem os monstros e os fracos."

    Há alguma cena em particular que você amou gravar?

    "É difícil escolher uma cena, mas talvez quando o personagem se transforma, quando ele começa a virar mau caráter e chantageia Haffman para postar suas cartas. No começo, ele realmente não é mau. Na verdade, é pouco a pouco que ele se converte. Então há uma cena em que eu olhei para Daniel e disse: 'Agora sim, ele é muito nojento.'"

    Para você, qual é a principal mensagem de O Destino de Haffman?

    "Um homem sem coragem é um homem sem honra."

    O Destino de Haffman
    O Destino de Haffman
    Data de lançamento 11 de agosto de 2022 | 1h 56min
    Criador(es): Fred Cavayé
    Com Daniel Auteuil, Gilles Lellouche, Sara Giraudeau, Nikolai Kinski, Mathilde Bisson
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    ESPERANDO BOJANGLES: “SENTI COMO SE ESTIVESSE PINTANDO NO SET”, DESCREVE RÉGIS ROINSARD

    Baseado no best-seller homônimo de Olivier Bourdeaut, Esperando Bojangles segue a excêntrica relação de Camille (Virginie Efira) e Georges (Romain Duris), que se completa com a chegada do filho, Gary (Solàn Machado-Graner). Todas as noites, eles dançam sua música favorita, "Mr. Bojangles", de Jerry Jeff Walker. Em sua casa, só há espaço para diversão, fantasia e amigos. Até que, certo dia, a hipnotizante e imprevisível Camille desce mais fundo em sua própria mente, cabendo a Georges e Gary mantê-la segura.

    Que obras e artistas serviram como inspiração neste projeto?

    “No romance já há referências literárias e também cinematográficas. Há referências a Bonequinha de Luxo, livro de Truman Capote que originou o filme de Blake Edwards. Há uma referência a Scott Fitzgerald e ao seu livro Tender Is the Night, que conta a história de um jovem psicanalista cuja esposa tem problemas psicológicos. Há uma referência a Un singe en hiver, livro de Antoine Blondin que se tornou um filme cult na França, com Jean Paul Belmondo e Jean Gabin. Então já havia tudo isso.

    “Depois, como sou um grande cinéfilo e este é meu terceiro filme, as referências vêm por si só. Existe um filme do diretor italiano Luigi Comencini que me toca muito, chamado 'Quando o Amor é Cruel'. Os filmes de Hitchcock também. Por exemplo, o vestido usado por Virginie no início, preto e branco, é o mesmo de Grace Kelly em 'Ladrão de Casaca'. Bastou mencionar Grace Kelly para que minha equipe de figurino pensasse em 'Ladrão de Casaca'. Mas eles não me disseram nada, então quando vi o vestido, disse: 'É incrível, é isso.'"

    "Eu tenho muito de Hitchcock em mim porque ele é um diretor da minha infância. Eu vi seus filmes com meu pai e minha mãe, mesmo tendo aula no dia seguinte. Cheguei a encontrar minha professora, que me disse: 'Mas são 23h'. O que eu posso fazer? Ir ao cinema também é uma forma de educação."

    Quais foram os desafios de transformar um livro em filme?

    "O mais difícil foi sair da literatura e, ao mesmo tempo, manter todo o aspecto dos diálogos que são escritos de forma quase teatral, porque os personagens, na verdade, fazem seu próprio cinema. Eles decidiram falar de outra maneira, recriar seu mundo. Na verdade, fizemos questão de que não seja muito teatral, justamente para que a intimidade, a emoção possam acontecer. Então esse foi um dos maiores desafios.

    “O outro é que, na França, o livro fez muito sucesso e todos choraram no final. Eu disse a mim mesmo: 'Como vou conseguir criar a mesma emoção?' Eu sabia que se pegasse exatamente a mesma coisa do livro, não conseguiria. Então nós desconstruímos. O livro tinha flashbacks e fizemos questão de contá-lo de forma linear. Eu sabia que fazendo isso poderíamos aos poucos conhecer essa família e participar de suas vidas. Porque, no início, não há nada muito dramático. É uma crônica sobre a família. Então finalmente vemos a tragédia."

    Há alguma cena em particular que você amou gravar?

    “Foi o filme que eu mais gostei de rodar. Eu senti como se estivesse pintando no set. Eu disse ao meu produtor: 'É a primeira vez que eu realmente tenho esse sentimento, e é muito bom.' Tantas cenas marcantes. Por exemplo, as de dança ou com figurantes são sempre muito excitantes. Mas acho que foram as cenas íntimas que eu mais gostei de fazer. A cena de amor entre Romain e Virginie, na cama do hospital, e o que eles dizem um ao outro… Eu amei fazer porque, de repente, eu acreditei totalmente nela. Ou seja, nem precisei mais dirigir. Vejo que os atores conhecem os personagens melhor do que eu. Isso é o que realmente mais importa para mim.”

    Para você, qual é a principal mensagem de Esperando Bojangles?

    “Eu diria que o amor é talvez a coisa mais importante do mundo – e é um pouco clichê. Então eu acrescentaria ‘não ter medo de ser louco’. É quando você não tem medo da indiferença, de ser diferente e louco, é aí que você pode ter sucesso em qualquer coisa.”

    Esperando Bojangles
    Esperando Bojangles
    2h 05min
    Criador(es): Regis Roinsard
    Com Virginie Efira, Romain Duris, Grégory Gadebois, Solan Machado-Graner, Lucas Bléger
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