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    Entrevista exclusiva com Halder Gomes, diretor de Cine Holliúdy

    Sucesso nos cinemas nordestinos, Cine Holliúdy estreou nas salas da região Centro-Oeste e em breve chegará aos cinemas do Sudeste.

    por Francisco Russo

    Cine Holliúdy chegou de mansinho, estreando em apenas nove salas no Ceará, e logo conquistou o público. Em seu primeiro fim de semana foi o responsável pela venda de quase a metade dos ingressos de todo o estado. Desde então o circuito aumentou, o longa-metragem chegou a outras capitais do Nordeste, já foi visto por mais de 330 mil pessoas e, desde 20 de setembro, está em cartaz também em cidades do Centro-oeste. Além disto, Cine Holliúdy foi eleito pelos leitores do AdoroCinema como a melhor comédia brasileira lançada em 2013.

    Após tantas conquistas, conversamos com Halder Gomes (foto), diretor de Cine Holliúdy, onde ele fala sobre as dificuldades em produzir e lançar o longa-metragem e ainda a repercussão que tem obtido junto ao público. Confira!

    ADOROCINEMA: Você dirigiu um suspense (Cadáveres 2), um filme espírita (As Mães de Chico Xavier), produziu uma ficção científica (Área Q) e agora volta à direção com uma comédia. Pode-se dizer que a diversidade de gêneros é o que você procura em seu trabalho no cinema?

    HALDER GOMES: Acredito que sim. Sou muito inquieto e já vivi longas experiências em muitos universos - lutas, surf, artes plásticas, futebol, etc... Tudo isso me inspira e me dá vontade de levar para as telas. Não me rotulo em nenhum gênero e já fiz da ação ao documentário. Mas, com o sucesso do Cine Holliúdy, posso afirmar que encontrei minha "assinatura" autoral que dialoga bem com o mercado.

    AC: Como surgiu a ideia de transformar o curta-metragem Cine Holliúdy – O Artista Contra o Caba do Mal em longa-metragem?

    HALDER: Em 2005 lancei o curta O Artista Contra o Caba do Mal, que era um pequeno recorte do Cine Holliúdy, embora soubesse que tinha algo muito maior para contar. O filme fez um grande sucesso de festivais - mais de 80 em 20 países, e 42 prêmios -, crítica e público. O sucesso foi tanto que, quando disponibilizado nas locadoras do Ceará, bateu todos os blockbusters da época. A demanda por algo maior era recorrente, e, em 2005, no Festival do Rio, os jornalistas e críticos de cinema Ana Maria Bahiana e José Emílio Rondeau me disseram que o filme deveria virar um longa. Era a chancela que faltava. Desde então, foram quatro tentativas no Edital de Longas de Baixo Orçamento do Ministério da Cultura até vencer e receber o prêmio pra rodar o filme.

    AC: Cine Holliúdy rodou boa parte dos festivais do Brasil em 2012 antes de enfim chegar ao circuito comercial e, ainda assim, inicialmente foi lançado apenas no Ceará. Havia o temor de que o filme não fosse bem aceito em outros estados?

    HALDER: Eu, particularmente, tinha certeza que o filme falaria para qualquer lugar, cultura e classes sociais. Andei os festivais, de Bangkok a Lisboa, do Ceará a São Paulo. Em todos estes lugares as pessoas riam e se encantavam com o filme. No entanto, não era fácil para um distribuidor perceber isto, e este temor existia. Foi então que a Downtown Filmes me fez o desafio de lançar primeiro no Ceará, e, se fizesse sucesso em casa, daríamos os próximos passos. Sacada de mestre! The rest is history...

    AC: Surpreendeu muita gente o fato de Cine Holliúdy ter tido quase a metade dos ingressos vendidos no Ceará em seu fim de semana de estreia. Como foi elaborada a campanha de lançamento do filme para o estado?

    HALDER: Fizemos uma campanha diferenciada para um produto diferenciado. A experiência da Downtown, somada à minha e a minha especialização em marketing, fez com que estudássemos e planejássemos muito bem cada passo. Investimos a maior parte em um bom trailer, que seria exibido junto com Minha Mãe é uma Peça. O filme foi um sucesso, e nos ajudou muito! E, para saber como o filme responderia em outras praças, também exibimos o trailer. No Ceará criei peças promocionais que falavam a nossa língua, o "cearensês", fechei inúmeras parcerias e, assim, consegui tantos apoios que, de repente, tínhamos uma campanha maior do que qualquer blockbuster poderia ter. Posso dizer que foi a soma de todos os acertos e muito, muito trabalho. Claro, nada disso aconteceria se o produto não atendesse a expectativa. O filme conseguiu unir três gerações nos cinemas e trouxe às salas um público que nunca havia ido ao cinema. E a surpresa não para por aí. Já são mais de 200 mil ingressos vendidos no estado com apenas 11 salas, todos os recordes dos blockbusters quebrados e uma grande explosão de consumo nos shoppings da cidade, que tiveram por três semanas - nas praças de alimentação - o faturamento de época de Natal. O filme entrou no 6º fim de semana no topo da bilheteria do estado, mantendo todas as salas desde a estreia. Algo inédito no Ceará. Foram tantos os recordes - média por sala, volume de ingressos, sessões esgotadas, etc...

    AC: O filme é falado em “cearensês”, mas é também legendado em português. Quem vê o trailer entende o porquê, já que realmente é difícil compreender as gírias locais. Acredita que a produção de filmes locais, focando características típicas de uma região do país, seja a saída para uma maior popularização do cinema brasileiro?

    HALDER: Acredito que sim e o Cine Holliúdy provou isso. Sempre soube que o Nordeste sozinho teria poder de consumo para justificar uma produção voltada para este mercado. Vivemos num país de dimensões continentais, populoso e com uma diversidade cultural imensa. Esta produção passa por um ponto de equilíbrio entre investimento de produção e lançamento pra chegar num formato que seja rentável. O mercado taí, ansioso pra se ver e disposto a pagar por isso. Acredito que o Cine Holliúdy foi um dos marcos revolucionários em estratégias de mercado no Brasil.

    AC: Já recebemos mensagens de leitores comparando Cine Holliúdy a filmes feitos por Mazzaropi e por Chaplin, além de Cinema Paradiso. Como vê este tipo de comparação?

    HALDER: Vejo com muita alegria, embora o Cine Holliúdy seja algo muito particular e autoral. Mas, no momento, é preciso buscar referências pra encontrar uma explicação para a novidade. No entanto, receber comparações deste patamar me deixa muito feliz. Claro, há quem desdenhe, mas vamos ser sinceros: Chaplin e Mazzaroppi teriam capacidade técnica e física pra executar a performance do Edmilson Filho (protagonista)? Os leitores estão corretos, Cine Holliúdy está mesmo à altura destas comparações, apesar de seu baixíssimo orçamento.

    AC: O cinema nacional passa por um momento em que as comédias têm tido muito sucesso de público, apesar de nem sempre serem bem recebidas pela crítica especializada. Como você vê esta questão?

    HALDER: Ainda bem que as comédias fazem sucesso, pois caso contrário nosso share seria quase nulo diante da produção internacional, o que poderia colocar em xeque os investimentos do país em renúncias fiscais. Se estas não existissem sofreríamos uma tremenda pressão, pois a média do cinema nacional seria imperceptível e, ao primeiro sinal de uma crise econômica, os investimentos seriam cortados. Temos que pensar por este lado. As comédias ajudam a financiar os filmes de arte, assim como o lucro dos milhões de disco de Odair José ajudavam a bancar os de Caetano Veloso (quando eram das mesma gravadora).

    O sucesso das comédias se deve porque o gênero conseguiu fidelizar uma plateia. Por ser mais barato de produzir, os hiatos entre os filmes não existe. Como no Brasil os orçamentos têm suas limitações, gêneros como "ação", por exemplo, são quase impossíveis de serem feitos de forma sistemática. Tropa de Elite e Cidade de Deus são exceções.

    AC: Recentemente o AdoroCinema fez uma enquete sobre qual seria a melhor comédia brasileira de 2013 e você se engajou nas redes sociais, convocando os fãs a votarem no seu filme. No fim das contas, Cine Holliúdy recebeu mais da metade dos votos e derrotou Minha Mãe é uma Peça, que ficou em segundo lugar. Qual é a importância desta vitória e do próprio apoio popular recebido pelo filme?

    HALDER: Levando em consideração que Minha Mãe é uma Peça fez 4,5 milhões de ingressos, é uma conquista importante e mostra que muitos espectadores do Cine Holliúdy entram nos cinemas como espectadores e saem como militantes. Considero importante, como diretor/autor, pois é uma plateia que se forma, que apoia e que espera por mais filmes.

    AC: Qual é a sua expectativa para o lançamento de Cine Holliúdy nas regiões sul, sudeste e centro-oeste do país?

    HALDER: Tenho boas expectativas - em muitas cidades do Nordeste o filme tem sido 1º do ranking -, embora saiba que o fenômeno no Ceará é algo que não se repetirá em outros lugares. O filme chega nas outras praças lastreado pelos recordes do Ceará e pelos números expressivos nas bilheterias. Tudo isso favorece a divulgação espontânea.

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