Se você cresceu durante os anos 1980 ou 1990 acompanhado de alguns dos melhores desenhos animados da época, é quase certo dizer que He-Man e os Defensores do Universo fez parte da sua infância. Ainda que o herói musculoso não tenha feito parte efetiva das gerações posteriores, a sua figura nunca desapareceu por completo. Retornou em memes - daqueles em que o personagem pede atenção para dar um conselho ao "HEYYEYAAEYAAAEYAEYAA" eterniazado pelo remix de "What's Up?" -, nunca deixou de ganhar novas linhas de brinquedos e teve diversas encarnações em séries animadas, incluindo a ótima Mestres do Universo: Salvando Eternia, da Netflix.
Agora, após quase 40 anos desde o live-action estrelado por Dolph Lundgren, uma nova versão chega aos cinemas com Adam de Nicholas Galitzine, Teela de Camila Mendes e um elenco de coadjuvantes com nomes como Idris Elba e Alison Brie - que estão muito bem no filme, por sinal. Essa reencarnação em carne e osso (ou só osso se falarmos do Esqueleto de Jared Leto) chega com a difícil missão de agradar diferentes gerações e, conforme o diretor Travis Knight citou em entrevista ao AdoroCinema, encontrar o seu lugar diante de uma mitologia um tanto confusa.
Depois de quase 40 anos, Mestres do Universo é o filme do He-Man que todos os fãs merecem?
Sony Pictures
Como um jovem millennial aos 30 anos, preciso dizer que minhas principais referências de He-Man, embora tenha visto o desenho original, surgem da minha relação com meus pais, tias e amigos mais velhos da família. Mesmo antes de saber que cobriria o lançamento do live-action, fui questionado por alguns sobre minhas expectativas sobre o filme. As impressões aqui, então, vem de uma perspectiva do que esses fãs de longa data devem encontrar em Mestres do Universo.
Sem muitas delongas, é preciso dizer que, embora o projeto tenha seus atos falhos em oferecer uma montagem decente ou aproveitar mais efeitos práticos do que especiais, a atmosfera desse universo fantástico vibra empolgação. Seja pelo carisma de Nicholas como um ótimo He-Man, pelas piadas que dão certo (nem todas funcionam, pois são muitas!) ou pela vibe oitentista reforçado pela trilha sonora, há um clima de aventura que consegue captar a atenção do público. Para um fã da saga da Netflix, por exemplo - inclusive, se não viu, vá atrás -, há muitas atualizações similares à série do streaming nesta nova abordagem.
Sony Pictures
Em uma época cheia de discursos conservadores e retrógrados cooptando a juventude, sobretudo meninos e adolescentes que acabam aderindo ideias que propagam ódio contra mulheres e minorias, Mestres do Universo faz um papel bacana em estabelecer que masculinidade não tem relação com força física - ainda que ela exale na tela -, mas está mais fundamentada em enfrentarmos as nossas fraquezas internas, em sermos protetores, em respeito próprio, em altruísmo e em olharmos para o todo com criatividade. Mesmo que não tão bem trabalhado, o poder do diálogo também está impresso na trama, o que já faz um trabalho interessante diante de tantos blockbusters vazios.
Para os fãs de longa data, o show de referências está posto à mesa. O filme do He-Man tem desde acenos aos memes que citei no início do texto a trejeitos, cenas e expressões que se tornaram populares na animação dos anos 1980. Inclusive, o momento da primeira transformação de Adam no herói ganha uma formatação perfeita para todo mundo que assistiu Cavaleiros do Zodíaco, Sailor Moon ou Digimon décadas atrás. Veja e entenderá. Neste aspecto, trata-se de uma refeição farta para quem cresceu assistindo as aventuras de Eternia.
Diante de tantas informações, o filme pode parecer confuso e inchado em certos momentos. Conforme comentei na crítica, a montagem é um dos pontos fracos da narrativa e, ainda que tenhamos ótimos momentos, alguns "bonecões de CGI" e cores chapadas de efeitos especiais podem afetar a imersão. Mas, parafraseando o que disse também neste outro texto, reafirmo:
"Mestres do Universo tem o coração no lugar ao tentar apresentar Eternia para novas gerações sem abdicar de toda a cafonice - muito bem-vinda, sempre - deste lugar mágico. Mesmo que nem sempre engrene, o filme trará boas risadas ao público e deve lembrar aos saudosistas de que todos nós temos a força, basta acreditar".
"Levei as qualidades da minha família": Camila Mendes deu raízes brasileiras para Teela de Mestres do Universo (Entrevista)Em termos diretos, Mestres do Universo é quase o filme do He-Man que todos os fãs merecem. Ao mostrar uma contínua vontade de tentar e um respeito aos fãs do desenho animado, ele oferece uma experiência bacana. Com a possibilidade de uma sequência, há chances de corrigir erros e expandir este universo mágico que fez e faz crianças e adultos bradarem, até hoje, "Pelos poderes de Greyskull, eu tenho a força!".