Há uma frase popular muito interessante que diz "você só vê o que quer ver". Se quisermos ser um pouco mais técnicos, podemos chamar isso de viés de confirmação. Quando esse viés é quebrado, uma reação violenta é desencadeada, chamada de dissonância cognitiva. Esse sentimento é muito poderoso e desconfortável. E nos empurra em direção a justificativas que, se não falsas, são incoerentes. Um mecanismo de defesa primitivo.
É de impressionar qualquer um o fato de que o uso de drogas recreativas (vamos chamá-las de psicoativas para facilitar) está incomodando o público brasileiro. Precisamos perguntar: é só isso que veem? Não conseguem analisar o filme sem esse desconforto emocional relativo a maconha? Não conseguem largar o viés conservador por duas horas para ver o filme? Uma batalha após a outra é um filme riquíssimo. Não é um filme político. Não é um filme anti-capitalista (na verdade, está mais próximo do contrário). Não é um filme de apologia às drogas (não conseguem enxergar o drama do personagem e como isso enriquece a história? Em que mundo estamos?). Não é um filme cômico para atacar a direita. Então, vamos dar o papo reto. Uma batalha após a outra conta a história de uma garota com um passado comprometido. Sua mãe a largou e sua paternidade é incerta. Sim, o filme é sobre isso. Aborda um conflito de pertencimento familiar e uma jornada pelo verdadeiro pai dela. DiCaprio é um pai tranquilo e preocupado. Faria tudo por ela. O outro é um verdadeiro monstro, um neo-nazista. Pode parecer difícil de ver, mas o filme tenta nos convencer do quanto NÃO precisamos de movimentos revolucionários precipitados, sugerindo que a paternidade de uma garota é mais importante. Ela é o centro. A violência revolucionária está sendo, sem dúvida, detonada, esmagada e desacreditada. A mensagem: se é disso que precisamos, estamos perdidos. Acho que devemos frisar de novo: esse não é um filme político, portanto não considerar assim é prudente e responsável. Se doer por causa de uma questão de drogas mal compreendida não é lúcido. Uma análise concisa requer cuidado e paciência para que a pessoa não siga uma estupidez. É por isso que a autoilusão é tão convincente. Não se pode mais questionar, nem mesmo em um filme. Filmes são obras sociais e, portanto, possuem críticas. Mas são críticas inteligentes que precisam de um tempo para serem processadas. E um viés de confirmação é tudo de que um cineasta brilhante como Paul Thomas Anderson não precisa. Entender e reconhecer esse fato é mais inteligente do que vociferar ideias fruto da dissonância, que, segundo psicólogos, é um defeito de raciocínio comum. E, quando se perde o fio da meada, só o orgulho fala. Uma batalha após a outra, por sinal, foi aclamado pelo público do ocidente capitalista. Mas, de novo, nenhuma análise se sustenta se você não estiver disposto a ver o que foi intrincadamente elaborado. Ou se abster da pretensão de análise quando a coisa explode. Não há mal nisso. É saudável. Mas, cabe dizer, Freud já sabia.