O cinema de Paul Thomas Anderson não é um cinema de confirmação de valores, é um cinema de fricção, atrito. Então, se você lê no literal, parece absurdo. Mas, se você entra no simbólico, tudo muda. E, francamente, se for para falar no literal, Uma Batalha Após a Outra é "absolute cinema". Tem ação, comédia, drama, aventura, crítica política e social.
O personagem do Leonardo DiCaprio não está perdido, ele só já sacou que “chegar lá” é meio ilusório. Então, ele para de tentar se definir e só… vai. A identidade nos filmes de PTA está sempre sendo confrontada pelo absurdo do sistema que vivemos, como acontece em seus filmes anteriores, como em Magnolia, por exemplo.
De Boogie Nights a Magnolia, era gente desmoronando. Agora, "segue o fluxo". Porque, mesmo num mundo onde tudo virou performance, os personagens dele continuam buscando algo quase que ingênuo: amor, pertencimento, reconhecimento, redenção… qualquer coisa que diga “você é alguém”. Só que essa promessa nunca se cumpre completamente. E sobra um estado meio beckettiano... um tempo meio travado, tipo Esperando Godot, onde nada resolve, tudo apenas continua, revelando o absurdo. E PTA ri disso. Não pra aliviar, mas porque é um jeito de encarar a vida.
Essa leitura de “lacração” nem se sustenta muito. O filme é político, sim, mas porque o mundo já o é. A crítica, inclusive, aponta ele como um retrato direto da histeria política e social dos EUA hoje. E PTA faz isso com uma ironia magistral. A imagem dos “campos” de imigrantes não é mera analogia histórica, mas é um incômodo eco visual sobre como o poder trata quem considera descartável. Linguagem, não panfleto.
E a cena de sexo "estranha" que muita gente fala? É grotesca de propósito. PTA mistura poder, desejo e controle tudo bagunçado. Não é pra ser bonito, é pra incomodar mesmo, arte é para isso. O coronel é um supremacista branco com várias questões, e uma delas é fetichizar, de forma quase clichê, corpos negros e racializados. Perfidia sabe disso e se aproveita disso, e, no fundo ela é quem está subvertendo as lógicas de poder, e isso, claro, incomoda os conservadores. Seria alguma questão também? Ou seja, o coronel do Sean Penn não sai por cima, ele cai na própria armadilha, engolido por uma lógica que ele mesmo representa. É uma ironia fina, mas brutal (literalmente!).
No fim, é isso: quem dá nota baixa geralmente tá esperando um filme que explique tudo, organize tudo, entregue sentido pronto. Uma lógica "os vingadores", de blockbuster. Apesar do orçamento de blockbuster (dizem que foi de mais de US$ 130 milhões), PTA faz o oposto.
A cena final é magistral e realmente me pergunto o que se passa na cabeça das pessoas para não entenderem a ironia fina, quando o coronel cai na própria armadilha e é engolido pela mesma lógica violenta que ele sustenta, morto por supremacistas brancos, o que ecoa a ideia de “pureza” que ele mesmo "rompeu" (segundo o grupo de homens brancos velhos do filme), sendo morto de forma simbólica, numa "câmara de gás": fina ironia histórica. Mas o motivo de não perceberem é bem simples: vão assistir esperando um filme "de ação", com explicação mastigada, quando PTA trabalha com sugestão e camada. Sem repertório histórico e leitura simbólica, passa batido mesmo.
Ele deixa aberto. E é exatamente por isso que fica. O final é maravilhoso, e a cena de reencontro, ótima, ótimas atuações.