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    Medida Provisória
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    Medida Provisória

    A voz negra não pode ser calada

    por Katiúscia Vianna
    Lázaro Ramos é um dos nomes mais talentosos de sua geração. No cinema, impressionou com grandes cenas de Ó Pai, Ó e Madame Satã, enquanto também mostrou sua versatilidade nas telinhas — seja como o divertido Foguinho de Cobras e Lagartos ou o visionário Zé Maria de Lado a Lado. Sem falar, obviamente, do hilário Mister Brau. Assim como acontece com muitos outros astros, o moço decidiu investir no mundo atrás das câmeras, fazendo sua estreia na direção de longas com o desafiador Medida Provisória.

    Qual é a história de Medida Provisória?



    O longa retrata o Brasil num futuro distópico, mas não tão distante assim, onde as tensões raciais estão a ponto de explodir. Negros são chamados de pessoas com melanina acentuada e lutam por seus direitos básicos. Antonio (Alfred Enoch) é um advogado que acredita no poder da palavra e trava batalhas diárias por mudanças nas leis, buscando reparação histórica pelos 400 anos de escravidão. Ele é casado com a médica Capitu (Taís Araújo) e também mora com o primo, o desbocado jornalista André (Seu Jorge).

    Mas tudo muda quando o governo brasileiro aprova uma medida provisória e completamente chocante: todos que tem melanina acentuada serão capturados e enviados para a África, a fim de serem "devolvidos" para os locais de seus ancestrais. Na região de Antonio, quem comanda essa operação é a rígida inspetora Isabel (Adriana Esteves), que não vai medir esforços para cumprir sua missão.

    Enquanto Antonio e André se encontram presos dentro de casa, Capitu acaba se relacionando com um afrobunker, abrigo da comunidade negra, que está pronta para reagir contra isso. Para quem não sabe, Medida Provisória é uma adaptação da peça Namíbia, Não!, uma tragicomédia escrita por Aldri Anunciação e que Lázaro Ramos já dirigiu no teatro. 

    Lázaro Ramos faz estreia ousada na direção com Medida Provisória



    Serei completamente sincera, sei que esse não é o meu lugar de fala. Como uma jornalista branca, jamais poderei entender o sentimento que negros passam todos os dias num Brasil preconceituoso e irresponsável. Principalmente em tempos tão polarizados como acompanhamos na política atual. É curioso (e meio devastador) perceber como evoluímos para abranger a conversa sobre o racismo, ao mesmo tempo que a sociedade dá tantos passos para trás, numa rotina cada vez mais intolerante e pouco compreensiva

    Tendo dito isso, Lázaro Ramos faz um bom trabalho em deixar palpável como a situação de Medida Provisória é desesperadora. A sensação é parecida com a reação de qualquer mulher ao acompanhar a série The Handmaid's Tale, por exemplo. Observamos uma sociedade que queremos acreditar estar longe da nossa realidade, mas não temos 100% de certeza ao acreditar que o mundo nunca pode chegar à esse extremo. Afinal, os jornais retratam, diariamente, como direitos humanos básicos sendo desprezados aos poucos. E os paralelos com a vida real dão um toque mais sombrio para a obra. 

    Ao misturar drama e comédia, nada é trabalhado com sutileza no filme. O que prejudica um pouco a narrativa, porém é uma escolha compreensível, considerando que o racismo em si não é sutil em seus ataques. Alguns espectadores podem achar os vilões caricatos, mas é preciso lembrar que tal tipo de mentes simplistas realmente funcionam assim. O roteiro não tem papas na língua para espalhar sua mensagem, nem que para isso precise martelar em nossas cabeças. De fato, é necessário desenhar pra algumas pessoas e ver se elas entendem a trágica situação atual, mas não tenho certeza se esse público vai querer ir ao cinema.

    O grande mérito de Medida Provisória surge em sua representatividade, pois é o filme brasileiro com maior número de pessoas negras na frente e atrás das telas. Tem gente falando que o longa de Lázaro tem o potencial para ser o Pantera Negra nacional, só que com toques de Corra!, e isso não deixa de ser verdade. Cada um de seus personagens representa uma parcela diferente dessa comunidade, tentando expressar (pelo menos um pouco) suas ricas e complexas experiências num filme de duas horas. 

    Taís Araújo e Seu Jorge brilham em Medida Provisória



    Se o roteiro peca por vezes em seus exageros, as performances de seu elenco trazem a veracidade que o filme necessita para conquistar o público. Conhecido pela franquia Harry Potter e pela série How To Get Away With Murder (onde contracenou com a oscarizada Viola Davis), Alfred Enoch surpreende ao convencer como brasileiro. É muito difícil representar o mocinho ético, que nunca erra, e o ator faz um de seus melhores trabalhos ao representar a dúvida de Antonio entre a moral e a injustiça.

    Por sua vez, Taís Araújo brilha como Capitu, que tenta compartilhar da visão do marido, mas sofre com a realidade de ser uma mulher negra. Corajosa, porém vulnerável, sua personagem traz um aspecto muito emocionante para o filme. Um dos momentos mais importantes de Medida Provisória surge em sua "explosão", onde desabafa sobre suas dores, porém ainda sonha que tudo possa ser resolvido de alguma forma. Mais uma vez, sua parceria com Lázaro Ramos rende bons frutos e reacende o que há melhor na atriz.

    Completando o trio principal, temos Seu Jorge, que surge como uma espécie de alívio cômico, mas também representa uma ideologia lutadora, que usa as redes sociais (e nenhum filtro em suas falas) para se posicionar nesse Brasil inquieto. Talvez ele seja o mais humano entre os protagonistas, e muito disso se deve a simpatia do seu intérprete, que também já provou ser um dos grandes nomes do nosso cinema nacional. Fica aqui também o destaque para Adriana Esteves e Renata Sorrah, que nunca erram quando o assunto é fazer vilãs, desde os tempos de Carminha e Nazaré, não é mesmo?

    É importante ressaltar que o elenco ainda conta com várias participações especiais como Emicida, Flávio Bauraqui, Mariana XavierJessica Ellen e diversos atores negros do teatro brasileiro. No final das contas, Medida Provisória é um filme paradoxal como o Brasil. É uma história de terror, porém irá te fazer rir. Emociona, mas também desperta um debate racional intenso. É imperfeito, porém imperdível. 

    * O AdoroCinema conferiu esse filme no Festival do Rio 2021.
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