Assisti Três Graças para tirar o gosto amargo de Vale Tudo e ganhei um banquete: Novela criou uma das receitas mais elogiadas da história recente
Guilherme Rocha
-Subeditor
Fã incondicional de reality shows que poucos admitem assistir, novelas clássicas com vilãs que amamos odiar, além de séries que são o auge do entretenimento despreocupado.

Trama de Aguinaldo Silva, Virgílio Silva e Zé Dassilva se despede do horário nobre com saldo positivo, saciando o apetite do público.

>

Em Três Graças, Aguinaldo Silva, ao lado de Virgílio Silva e Zé Dassilva, nos serviu um delicioso banquete. À mesa, o resgate de sabores clássicos de um bom folhetim: do pão e circo à farofa temperada, passando pelo pastelão, tudo disposto com uma generosidade que me convidou ao consumo diário, quase ritualístico, no horário nobre da TV Globo.

Pode não ter sido um fenômeno de audiência, é verdade, mas, do meu ponto de vista, foi uma novela que soube saciar o apetite do público fiel ao executar a receita com maestria: um melodrama assumido, sem pudor de ser o que é. E há mérito nisso. A narrativa fluiu com leveza, sem causar indigestão, sustentada por uma linguagem popular afiada, um humor ácido na medida certa, além de um cardápio variado de personagens marcantes.

Dos pratos principais, Sophie Charlotte e sua Gerluce encheram os olhos. Injustamente esnobada no prêmio Melhores do Ano, a atriz brilhou ao dar vida a uma mulher audaz e destemida, distante das mocinhas sem sal que ainda povoam a televisão. Perdi a conta de quantas vezes me peguei exclamando “que atriz!” diante de suas cenas. Sempre com expressões marcantes, Sophie encontrou a dose certa de emoção que cada fase exigia.

No menu dos vilões, Ferette, de Murilo Benício, e Arminda, de Grazi Massafera, foram a cereja do bolo. Debochados, imorais e vaidosos, a dupla de amantes e cúmplices foi moldada sob medida para despertar no noveleiro aquela deliciosa mistura de fascínio e repulsa. E, se antes da estreia havia quem duvidasse da capacidade de Grazi para encarar uma vilã de Aguinaldo Silva, a resposta veio em cena, com talento e presença.

E o que foi a sequência de Arminda dirigindo a caminhonete “Nazaré” em plena Chacrinha, no penúltimo capítulo? Muita gente torceu o nariz para a escolha artística, mas, para mim, foi um absurdo deliciosamente bem-vindo: a valsa Danúbio Azul ao fundo, o dinheiro voando, Ferette disputando alguns trocados com os moradores, o atropelamento... puro novelão!

Ao longo dos capítulos, também foi um prazer acompanhar nomes como Gabriela Loran, Dira Paes, Alana Cabral, Fernanda Vasconcellos e a veterana Arlete Salles.

Na mesma medida, foi uma delícia assistir ao destaque de Gabriela Medvedovsky e Alanis Guillen, intérpretes de Juquinha e Lorena, respectivamente. O casal “Loquinha” protagonizou beijos intensos, furou a bolha e, acima de tudo, mostrou que, quando bem desenvolvido, um romance LGBTQIAPN+ não enfrenta rejeição e conquista o público pela verdade.

Mas, como em todo banquete, houve pratos que não agradaram. A transformação brusca de Lucélia (Daphne Bozaski) na bandidona que passa a liderar o tráfico da Chacrinha, por exemplo, soou pouco convincente. Outros personagens também não encontraram seu lugar, como o porteiro Rivaldo (Augusto Madeira) e sua família. O núcleo, inicialmente concebido como alívio cômico, acabou rejeitado pelo público e, de forma pouco orgânica, recebeu um enredo mais denso na reta final. Um grande desperdício de talentos.

Uma novela com cara de novela

O grande mérito de Três Graças, sem dúvida, foi resgatar o prazer de acompanhar uma novela das nove “de verdade”, com cara de novela e uma essência assumidamente popular. Antes da estreia, confesso que não apostava tanto na trama, embora estivesse curioso com o retorno de Aguinaldo Silva à teledramaturgia da Globo. Pesava ali o gosto ainda amargo deixado pelo remake de Vale Tudo, que acabou frustrando as expectativas.

Ao reunir bons ingredientes, o trio de autores conseguiu dialogar com o grande público e, principalmente, devolver aquela vontade genuína de assistir ao próximo capítulo. Também merece destaque o trabalho do diretor Luiz Henrique Rios, que imprimiu uma atmosfera própria à novela, com momentos marcantes e um ritmo ágil, mas sem atropelos, permitindo que a história respirasse e o público acompanhasse cada virada com clareza.

Mesmo sem se tornar refém da velocidade das redes sociais, pautadas por conteúdos curtos e estímulos constantes, a trama soube se conectar com o ambiente digital. Em vários momentos, Aguinaldo Silva brincou com referências às próprias novelas e também a obras de outros autores, o que rapidamente era comentado na internet.

Três Graças se despede como uma das produções mais elogiadas da história recente da faixa das nove, indo além dos números de audiência. Em tempos em que o sucesso também se mede pela repercussão e pelo engajamento, a novela mostrou força ao servir uma receita que equilibra tradição e frescor, sem perder o tempero tipicamente brasileiro.

No fim, o folhetim dos Silvas deixa a sensação de uma refeição bem servida, daquelas que têm sabor, têm graça e ainda despertam vontade de repetir.

A partir da próxima segunda, 18 de maio, o horário nobre da TV Globo será ocupado por Quem Ama Cuida, novela criada e escrita por Walcyr Carrasco e Cláudia Souto.

facebook Tweet
Links relacionados