"Tem erro e tem verdade”: Amora Mautner revela o pedido que fez aos atores para transformar Quem Ama Cuida em um novelão (Entrevista)
Guilherme Rocha
Guilherme Rocha
-Subeditor
Fã incondicional de reality shows que poucos admitem assistir, novelas clássicas com vilãs que amamos odiar, além de séries que são o auge do entretenimento despreocupado.

Com um elenco liderado por Leticia Colin e Tony Ramos, a diretora artística detalha os bastidores da próxima novela das 9 da Globo e explica como a busca por atuações viscerais promete prender o público na frente da TV.

Sabe aquele tipo de novela que faz a gente esquecer do celular e prestar atenção só na TV? É exatamente essa a aposta de Amora Mautner para Quem Ama Cuida, a substituta de Três Graças na faixa das 21h da Globo. Com uma carreira marcada por sucessos como Avenida Brasil, A Dona do Pedaço e Joia Raravencedora do Emmy Internacional –, a diretora celebra mais uma parceria com Walcyr Carrasco, agora com o reforço do olhar feminino de Claudia Souto na coautoria. O trio aposta em uma trama que resgata o prazer do folhetim clássico com uma abordagem contemporânea e surpreendente.

A história reúne todos os ingredientes que o brasileiro ama: uma herança em disputa, conflitos familiares intensos e um assassinato misterioso que dará início ao clássico "quem matou?" No centro de tudo está Adriana (Leticia Colin), uma mocinha injustiçada que, após perder tudo em uma enchente devastadora em São Paulo, consegue se reerguer, mas é condenada por um crime que não cometeu. Sua jornada é de superação e busca por justiça.

Mas não espere o óbvio na novela. Amora traz para a produção uma estética refinada, inspirada no cinema clássico, utilizando técnicas artesanais para criar um universo visual único, sem depender da computação gráfica. Para dar vida a esse projeto ambicioso, ela orquestra um elenco de peso com nomes como Antonio Fagundes, Tony Ramos, Isabel Teixeira, Isabela Garcia, Flávia Alessandra e Chay Suede.

Em entrevista exclusiva ao AdoroCinema, Mautner nos contou sobre sua sintonia "quase telepática" com Walcyr, os desafios de filmar uma catástrofe urbana no primeiro capítulo e por que ela acredita que atuações viscerais e realistas são a verdadeira alma da televisão.

Quem Ama Cuida: "um novelão assumido" com personagens e temas atuais

Letícia Colin e Antonio Fagundes Divulgação/TV Globo
Letícia Colin e Antonio Fagundes

Meses depois de Êta Mundo Melhor! e sete anos após o fenômeno de A Dona do Pedaço, o que você buscou “desaprender” ou renovar nessa parceria com Walcyr Carrasco para que o público sinta um frescor inédito em Quem Ama Cuida?

Amora Mautner - A minha parceria com o Walcyr é quase telepática (risos)! De cara, eu entendi muito claramente o tom dele, que é bem melodramático – um gênero que eu amo, já que gosto do gênero novela. Para mim, o Walcyr Carrasco é o Douglas Sirk [cineasta alemão] brasileiro. Falando só do lado profissional – porque ele se tornou também um grande amigo –, minha admiração por ele vem de muito longe: quando entrei na Globo, minha primeira novela como diretora foi O Cravo e a Rosa, com o Walter Avancini [diretor geral].

Pensando nesse desejo de frescor e ineditismo, acho que tanto eu quanto Walcyr somos muito autorais. A gente já misturou esses universos outras vezes, e está misturando de novo.

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A novidade é a parceria com Claudia Souto. Como o “DNA” do Walcyr está se fundindo à experiência da Claudia no seu olhar como diretora?

AM - Ela também já trabalhou muito com o Walcyr, aprendeu muito com ele, assim como eu. Então existe um terreno comum de dramaturgia e de entendimento do universo dele, que, para nós duas, é o de um mestre. Uma das coisas mais preciosas que a Claudia traz nessa coautoria é um ponto de vista muito feminino. Para além da sensibilidade do Walcyr, agora temos uma mulher falando sobre diferentes experiências e camadas do universo feminino.

Somos duas mulheres unidas ao Walcyr, que, junto com um time grande de colaboradores, fazem essa novela ficar com texto tão bom de ler e de dirigir

A Claudia também promove uma oxigenação fundamental: ela tem um olhar muito afiado para os conflitos, para as injustiças cotidianas e para as relações de poder mais sutis. O Walcyr traz a força do melodrama clássico, do romance, da emoção sem pudor. Na minha direção, esses dois universos se somam: de um lado, o novelão assumido, com grandes embates e paixões; do outro, uma contemporaneidade muito clara nos temas e nos personagens.

A trama de Quem Ama Cuida nasce do caos de uma São Paulo devastada por uma grande enchente no primeiro capítulo. Como foi o processo de direção para traduzir visualmente essa tragédia e a perda total da protagonista Adriana?

AM - Muita gente vive essa experiência de perder tudo em enchentes. O desafio era mostrar essa dor e tentar equilibrar com os outros fatos da trama. A enchente é fundamental, porque é nesse contexto que nasce a jornada da nossa protagonista, Adriana, interpretada pela brilhante Leticia Colin, de forma dionísica. Ela começa a história perdendo tudo, junto com sua família, representada de forma muito emblemática pelos grandes Isabela Garcia e Tony Ramos.

Então era fundamental garantir espaço para essa dor, com toda a força que ela precisava ter, mas também afirmar a trama da novela como protagonista, para que o público entendesse que estamos diante da história de uma mocinha, que luta primeiro por justiça e depois por vingança. Temos um storyline com todos os arquétipos necessários para uma grande jornada da heroína – e a Adriana, vivida pela Leticia, é exatamente isso.

Letícia Colin ouvindo as instruções de Amora Mautner nos bastidores da cena da enchente Divulgação/TV Globo
Letícia Colin ouvindo as instruções de Amora Mautner nos bastidores da cena da enchente

E, para existir uma grande heroína, é indispensável uma grande vilã. A Pilar (Isabel Teixeira) cumpre esse papel com uma força impressionante. Confesso que estou completamente apaixonada por essa vilã, e espero que o público a ame (ou a odeie) com a mesma intensidade.

A novela traz o clássico recurso do “quem matou?” após o assassinato do personagem de Antonio Fagundes. Qual é o segredo da sua direção para manter o público engajado nesse mistério? O Brasil está pronto para um final surpreendente?

AM - Adoro esse recurso do clássico “quem matou?”, porque ele não nasce exatamente da novela, mas da literatura e da tragédia grega – o Sófocles viveu muito disso (risos). No nosso caso, ela ganha ainda mais força porque estamos falando de uma família em que todos os irmãos estão de olho na herança do Arthur, o único que realmente fez fortuna.

O mistério serve para revelar como cada um daqueles personagens deseja algo que não lhe pertence, que é o dinheiro. O “quem matou?” entra, então, como uma lente para expor as disputas, as ambições e as camadas morais dessa família.

A minha inovação, se é que posso chamar assim, é justamente não inovar: é seguir esse caminho já tão bem trilhado pelo Noir, que sabe como provocar a dopamina do espectador

Você pode adiantar como será a estética de Quem Ama Cuida? Como estão sendo pensadas a luz e a fotografia da novela? Há referências no cinema ou em outras produções que influenciaram esse trabalho?

AM - Adorei essa pergunta! Como eu já disse, uma das minhas grandes referências de tom é o Douglas Sirk, e isso se conecta diretamente com o formalismo, que é algo de que eu gosto muito. Eu sou uma diretora formalista, não sou uma pessoa do naturalismo. O meu universo estético parte da forma. Mas essa forma precisa ser crível, porque, para mim, ela é uma ferramenta de dramaturgia – assim como o tom, a mise-en-scène, tudo isso.

Um dos meus maiores desafios está justamente no estúdio, porque representa cerca de 70% do que vai ao ar e é, de fato, a alma da novela. O meu desafio é construir, já no plano inicial da cena, um plano que contenha geral, médio, close e cruzado dentro de uma mesma ação. A partir daí, vou desdobrando para o cruzado, porque a dinâmica clássica da cena de novela começa de forma introdutória e depois entra no conflito, momento em que eu trabalho muito as marcas e, principalmente, as contramarcas – algo que estou retomando.

Essas contramarcas funcionam como ferramenta dramática para manter o público envolvido com a cena e, principalmente, com os personagens, enquanto a situação ainda está se construindo, antes de chegar ao seu momento principal, ao clímax, que geralmente vem no final da cena. É aí que o close realmente ganha valor.

Pilar (Isabel Teixeira), a grande vilã da trama Divulgação/TV Globo
Pilar (Isabel Teixeira), a grande vilã da trama

Você definiu a obra como um “clássico melodrama com ideias muito originais”. Em um momento de consumo tão acelerado pelo streaming, qual é a aposta de Quem Ama Cuida para resgatar aquele prazer de “parar o Brasil” diante da TV?

AM - Como conceito geral, gosto de pensar a novela como uma caixa linda e formalista, dentro da qual tudo é muito construído. Fora dela está São Paulo, que também é linda, formalista, mas absolutamente real. E é importante deixar claro que essa novela não usa efeitos de computação. Tudo o que o público vê é feito com matte painting – como o nome diz, pintura.

Dentro dessa caixa formal, eu sinto que preciso provocar a “não forma”. Se a forma é ferramenta dramatúrgica, eu preciso preenchê-la com atores viscerais. Mais do que fazer cenas, eles precisam fazer personagens. É algo que tenho repetido muito para o elenco: “vamos fazer os personagens, não as cenas”. As cenas, na verdade, não existem sozinhas: o que existe são personagens, pontos de vista e perspectivas distintas vivendo uma mesma situação.

Quero resgatar essa ousadia: personagens que não são naturalistas no sentido da construção geral, mas que têm interpretações absolutamente verdadeiras

Se a gente consegue unir essa caixa formal bonita e verdadeira com um elenco visceral e personagens únicos, então a gente tem vida, tem erro e tem verdade. E, com essa verdade pulsando dentro de uma estética muito elaborada, sustentada por um texto do Walcyr e da Claudia, à la Douglas Sirk – talvez o maior nome do melodrama –, eu sinto que estamos muito bem encaminhados. Espero que o público goste tanto quanto eu estou gostando.

Quem Ama Cuida
Quem Ama Cuida
Data de lançamento 2026-05-18
Séries : Quem Ama Cuida

Criada e escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, Quem Ama Cuida substituirá Três Graças no horário nobre a partir do dia 18 de maio. A novela tem direção artística de Amora Mautner e direção geral de Caetano Caruso. A direção de dramaturgia é de José Luiz Villamarim.

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