Já disponível na Netflix, uma das melhores minisséries dos últimos anos: Um suspense psicológico baseado em uma história real fascinante
Luiza Zauza
Jornalista em formação dividida entre a paixão pelo cinema e pela música. Como coração é grande, cabe desde comédias românticas até documentários musicais. Sempre em busca de encaixar sua devoção por Jorge Ben Jor e John Carpenter em alguma conversa.

Esta minissérie faz parte do universo de adaptações de Margaret Atwood e explora as diferentes violências sofridas pelas mulheres na era vitoriana.

Agora que a Netflix acaba de incluir em seu catálogo a série completa de The Handmaid's Tale, é um bom momento para redescobrir outra das grandes adaptações para a televisão de uma obra de Margaret Atwood. Trata-se de Alias Grace.

Inspirada em um caso real de assassinato ocorrido no Canadá, país natal de Atwood, no século XIX, a série acompanha Grace Marks, acusada da morte de Thomas Kinnear (Paul Gross) e de sua governanta, Nancy Montgomery (Anna Paquin). Enquanto um psiquiatra chamado Simon Jordan (Edward Holcroft) conversa com ela para tentar descobrir como, por que ou mesmo se ela cometeu esse duplo homicídio, a história de Grace é contada desde o início, chegando até o presente e tudo o que se sucedeu.

Na sombra de O Conto de Aia

Sabrina Lantos/Netflix

Quem conhece e acompanhou do início ao fim The Handmaid's Tale certamente vai gostar de Alias Grace, uma série escrita por Sarah Polley — vencedora do Oscar pelo roteiro adaptado de Entre Mulheres — e dirigida por Mary Harron, diretora de Psicopata Americano.

Tudo começa com um caso histórico real ocorrido no Canadá em 1843, quando Grace Marks e James McDermott foram condenados pelo assassinato de duas pessoas. Mas a série nunca se limita a ser apenas um documentário sobre crimes reais. O que é realmente fascinante é como ela usa esse crime para refletir sobre quem tem o direito de contar a história de uma mulher e como a sociedade transforma Grace exatamente naquilo que precisa ver nela.

Alias Grace possui protagonista complexa e difícil de ser decifrada

Jan Thijs/Netflix

Grande parte da força da série depende de Sarah Gadon, que constrói uma personagem impossível de ser totalmente decifrada. Ela parece tranquila, educada e contida, mas por baixo dessa aparente serenidade há uma inteligência feroz e um ressentimento acumulado ao longo de anos de violência e exploração. E a série brinca constantemente com a ideia de que talvez Grace esteja manipulando a todos… ou talvez tenha simplesmente aprendido a sobreviver em um mundo que nunca lhe permitiu ser vulnerável.

Um dos aspectos mais devastadores de Alias Grace é como ela mostra a violência cotidiana contra as mulheres na sociedade vitoriana. A série retrata um mundo onde as mulheres pobres praticamente não têm opções reais. Elas trabalham até se destruírem fisicamente, sofrem abusos constantes e são punidas socialmente por qualquer desvio das normas impostas pelos homens. Até mesmo aqueles que tentam salvar Grace acabam usando-a para reforçar suas próprias ideias sobre pureza, desejo ou moralidade.

Embora muitas vezes seja ofuscada por O Conto da Aia, Alias Grace demonstra por que Margaret Atwood continua sendo uma das escritoras mais perspicazes quando se trata de explorar o poder, o gênero e a violência estrutural. A minissérie mantém toda a complexidade moral e política do romance original e a transforma em um thriller elegante e envolvente que não precisa de grandes reviravoltas nem cenas espetaculares, pois basta observar como uma mulher aprende a sobreviver em um mundo decidido a transformá-la em monstro ou mártir, mas que nunca a deixa ser uma pessoa.

Alias Grace
Alias Grace
Data de lançamento 2017-11-03
Séries : Alias Grace
Com Sarah Gadon, Edward Holcroft, Rebecca Liddiard
Usuários
4,2
Assistir em streaming

Alias Grace está disponível na Netflix.

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