É uma das melhores cenas de ação do cinema: Filmada por Tarantino há 22 anos, continua tão emocionante quanto antes
Marco Rigobelli
Marco Rigobelli
Marco é tradutor e redator. Tem uma história pessoal com O Bebê de Rosemary, acha que 10 Coisas que Eu Odeio em Você é um dos maiores filmes já feitos e pode passar horas contando fatos aleatórios sobre O Senhor dos Anéis.

Raramente uma sequência de luta foi tão intensa quanto a proposta por Quentin Tarantino em um de seus melhores filmes! Um retorno a um confronto dantesco, ainda tão poderoso 22 anos depois.

Embalado pelo hit de Nancy Sinatra, Bang Bang (My Baby Shot Me Down), os créditos de abertura de Kill Bill têm uma doçura quase tranquilizante. Em 2004, quando o então novo filme de Quentin Tarantino começa, ele surpreende por essa estranha lentidão.

Após uma pequena cena em que vemos Uma Thurman no chão, coberta de sangue em seu vestido de noiva, os créditos são lançados. A voz de Nancy Sinatra, suave, quase abafada, embala os espectadores. Os nomes de prestígio desfilam da maneira mais sóbria, em branco sobre fundo preto.

Kill Bill - Volume 1
Kill Bill - Volume 1
Data de lançamento 23 de abril de 2004 | 1h 52min
Criador(es): Quentin Tarantino
Com Uma Thurman, Sonny Chiba, Lucy Liu
Usuários
4,3
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Um combate virtuoso em Kill Bill

Mas se Tarantino escolheu nos conduzir calmamente pela mão logo no início de Kill Bill, foi para nos soltar sem rédeas em sua primeira sequência absolutamente espetacular. Os créditos terminam com um fade, dando lugar a um plano de uma pequena casa típica do subúrbio americano.

A legenda indica a cidade onde se desenrolará essa primeira cena: Pasadena, Califórnia. Uma picape com cores berrantes estaciona na frente, guiada pela Noiva, que exibe um rosto fechado e determinado. Ela atravessa o pequeno jardim, coberto de brinquedos de criança, e toca a campainha.

Imediatamente, entendemos que não se trata de uma visita de cortesia. A pessoa que abre a porta para a Noiva é Vernita Green (Vivica A. Fox), uma das assassinas que participou de sua tentativa de homicídio. Tarantino nos explica isso por meio de uma montagem ultrarrápida, uma música lancinante e closes nos olhos das duas combatentes.

Miramax

Sem se dar ao trabalho de pronunciar uma única palavra, a Noiva desfere um violento soco em Vernita, que recua. A cena de ação é deflagrada e vai nos arrastar num turbilhão por mais de 2 minutos! O combate é de uma violência extrema.

Vernita arremessa a Noiva contra a parede; esta retruca com um chute no rosto que a faz cair pesadamente sobre a mesa de centro da sala, de vidro! Evidentemente, ela se parte com um estrondo ensurdecedor. Chutes e socos se sucedem em alta velocidade, as duas mulheres demonstrando um domínio marcial impressionante.

A violência encarnada

A sequência prossegue na cozinha. Vernita pegou uma faca e tenta apunhalar sua adversária, que usa uma frigideira como escudo. Enquanto se encaram, ambas armadas com uma arma branca, um ônibus escolar para na frente da casa. Uma menina desce e se dirige à casa de Vernita. É sua filha voltando da escola.

As duas combatentes cessam então o confronto, escondem suas facas e começam a conversar. Antes disso, seus braços armados cortavam o ar como serpentes. Sabendo que elas fizeram parte do esquadrão das víboras assassinas, isso parece lógico.

De qualquer forma, elas passam instantaneamente a uma aparência de normalidade, e esse momento é particularmente perturbador porque a violência não desapareceu — está apenas suspensa. Compreendemos então que essas personagens vivem com essa brutalidade de forma permanente, mesmo em seu cotidiano. Seja como for, essa trégua será de curta duração, pois a Noiva acabará por matar Vernita... diante dos olhos de sua filha.

Miramax

De uma eficiência formidável, essa sequência de combate é de uma virtuosidade notável. Antes de tudo, Tarantino domina a encenação com maestria, oferecendo-nos planos claros e legíveis, que permitem acompanhar a ação com facilidade.

Ele é muito auxiliado pela montagem assinada por Sally Menke, que não larga as duas personagens por um segundo, cortando cada plano exatamente no momento certo. Cabe também destacar o trabalho do lendário coreógrafo de lutas Yuen Woo-Ping, sem quem as cenas de ação não seriam tão dantescas.

Além disso, Tarantino faz aqui uma escolha drástica que reforça o caráter impactante do combate: nenhuma música desnecessariamente redundante para sublinhar a violência do confronto — apenas os efeitos sonoros dos móveis que se partem e dos corpos que se chocam. Simples e eficaz.

Uma vingança justificada?

Quentin Tarantino também joga com o contraste brutal entre o cenário e a violência. O duelo se passa numa casa de subúrbio americano perfeitamente banal, com uma sala perfeitamente limpa e organizada. No entanto, em poucos segundos, tudo explode numa briga selvagem. Esse descompasso cria um choque visual e emocional imediato; o diretor transforma um espaço doméstico tranquilizante em campo de batalha.

Por fim, pode-se também evocar a dimensão moral desse confronto épico. Ao contrário de uma cena de ação clássica, esse combate levanta uma questão implícita: a vingança da Noiva é justificada até o fim?

Miramax

Quando Vernita propõe resolver a questão mais tarde, longe da presença de sua filha, vemos surgir uma forma de código de honra... imediatamente violado em seguida. Essa ambiguidade torna a cena mais complexa do que um simples confronto entre "mocinho e vilão".

Essa cena também anuncia todo o estilo de Quentin Tarantino. O cineasta adora essa mistura de referências (cinema de artes marciais, western, exploitation), violência estilizada, diálogos tensos e rupturas de tom. Em poucos minutos, o filme estabelece suas regras do jogo — e para o espectador, é um puro momento de cinema que ele não vai esquecer tão cedo!

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