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    Diário de um Confinado: Bruno Mazzeo revela desafios de fazer série do Globoplay na quarentena (Entrevista)
    Por Vitória Pratini — 25 de jun. de 2020 às 20:01
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    Produção tem participação à distância de Fernanda Torres, Matheus Nachtergaele e até Lulu Santos.

    Globo

    O Brasil está há quase quatro meses de quarentena por causa da pandemia do coronavírus. Com os cinemas fechados e apostando em conteúdos dos streamings que rapidamente se tornam fenômenos, a população que pode ficar em casa, a fim de diminuir a curva de infecção, precisa lidar com um novo cenário. Isso inclui usar máscara na rua, higienizar as compras, passar por rápidas mudanças emocionais e restringir as relações sociais para uma tela de celular ou computador.

    Esta é a premissa de Diário de um Confinado, nova série do Globoplay, que estreia na próxima sexta-feira (26). A produção acompanha Murilo (Bruno Mazzeo), um homem solteiro da classe média carioca que precisa lidar com uma realidade inédita, que parece ficção, durante a pandemia do Covid-19. Composto de 12 episódios, o programa foi protagonizado e roteirizado por Mazzeo e dirigido pela esposa dele, Joana Jabace (Segunda Chamada). No elenco ainda participam Fernanda Torres, Lázaro Ramos, Lúcio Mauro Filho, Arlete Salles, Debora Bloch, Renata SorrahMatheus Nachtergaele e até mesmo Lulu Santos.

    O AdoroCinema conversou com Mazzeo e Jabace durante uma coletiva virtual sobre os maiores desafios de gravar uma série dentro de casa, durante a quarentena, enquanto lidavam com os filhos gêmeos de apenas três anos de idade. Além, é claro, de ter que contracenar com outros artistas à distância. 

    Diário de um Confinado aposta na comédia, mas não quer ser vigilante social
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    "Diário de um Confinado não tem um arco", explicou Bruno Mazzeo sobre programa produzido em plena pandemia. "A série são crônicas, então cada episódio é sobre um assunto, sobre a faxina, fazer exercício, são temáticos. Não tínhamos nem tempo de desenvolver um arco desses e tudo, até porque quando a gente começou a fazer, não sabia o tempo de duração, onde seria veiculado e tudo o mais."

    Em episódios de dez minutos, o roteirista e ator quis abordar o que chama de "gangorra de sensações" que as pessoas estão vivendo na quarentena. "Um dia acorda tranquilo, outro dia está deprimidíssimo, desesperançoso. Temos um episódio que o personagem está mais feliz, que vai ter um date, aí no outro ele está super melancólico, quer a terapia porque não tá aguentando mais ficar ali. Os capítulos vão se equilibrando dessa maneira. Uns são mais agitados, outros mais contemplativos. Não é uma história completa com um arco obrigatório".

    Apesar de artistas terem apoiado movimento o #FiqueemCasa, diante dos crescentes casos de COVID-19 no Brasil, a série não teve pretensão de abordar a questão social ou da doença, focando mais na comédia da situação. "Falamos de um confinamento, uma pessoa sozinha em casa tendo que lidar com tudo isso", disse o protagonista. "No início, ouvimos relatos das pessoas, memes, e sempre temos essa capacidade de colocar um olhar cômico em cima de uma tragédia. Vivemos uma tragédia, então automaticamente um prato cheio para comédia".

    "Mas em momento nenhum trazemos um contexto social ou fazemos graça com a pandemia", complementou Joana Jabace. "É uma crônica de costumes, de um homem solteiro confinado, da classe média carioca. É um recorte super restrito, nem pretendemos dar conta sobre o que é estar confinado em várias classes sociais, ou na periferia ou fora dos grandes centros do Brasil. É um recorte micro."

    Diário de um Confinado representa a urgência que estamos vivendo na quarentena
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    A série protagonizada por Bruno Mazzeo foi praticamente criada às pressas, sem deixar de lado a qualidade da dramaturgia. "Desde que idealizamos Diário de um Confinado e começamos a produção até a estreia, foi um mês e meio. Ainda estamos editando e montando os episódios", explicou o ator e roteirista. "Tínhamos uma urgência, porque falamos de coisas que daqui a pouco não existirão mais, ou já serão banais. Não sabemos como vai ser quando acabar, mas quem garante que a gente não vai precisar ficar anos usando máscara quando tiverem mais de 5 pessoas no mesmo ambiente? Isso passaria a ser uma coisa comum, como já é muito mais do que há dois meses", disse Mazzeo. "É uma novidade muito abrupta para todos nós. Muitos tiveram coisas interrompidas, seja um trabalho, uma viagem... De repente nos vimos em uma nova realidade, há alguns anos atrás seria uma distopia."

    "Passar alcool gel não é algo inédito hoje", confirmou Joana Jabace. "Tivemos a preocupação de colocar a série no ar rápido. Porque as coisas caducam, todos esses assuntos que estamos vivendo agora, não sabemos exatamente daqui a pouco como estaremos. Não é uma série que a maior preocupação é acabamento artístico, que eu tive muito tempo para montar, ou que o Bruno teve muito tempo para escrever. Mais do que o elaborar dos processos, de escrita, de direção, de finalização, acho que era nossa vontade colocar no ar algo que falasse da urgência do que estamos vivendo."

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    Apartamento de Mazzeo foi adaptado para ser loft de solteiro
    Globo / Glauco Firpo
    Joana Jabace e Bruno Mazzeo no set, em casa.

    Ainda assim, apesar de ter sido gravada na casa do ator e da diretora, a série não tem cara de ser uma produção caseira, mantendo o padrão Globo de produções. Muito disso veio do olhar estético de Joana Jabace, que também é diretora de arte. "Tentamos fazer uma dramaturgia que não ficasse restrita à interface do computador. O Murilo não fica só conversando com os outros personagens pelo celular ou pelo computador. Existe todo um universo desse personagem que é ele na casa dele. Tem todo um pensamento estético, de direção, de decupagem, de paleta, que tentamos criar esse mundo do Murilo."

    Para tanto, Mazzeo e Jabace transformaram a sala da casa no loft do protagonista, a fim de ser um lar com "cara de solteiro", conforme revelaram os realizadores. "Com exceção do banheiro e da cozinha, tudo acontece na sala", disse Bruno, explicando que isso facilitou para restringir o set de gravação dentro da casa. Além disso, permitiu que a equipe de arte enviasse itens para compor cenário, que incluíam "kits de comida fast food" e "objetos de cozinha suja".

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    Para Jabace, o maior desafio de Diário de um Confinado foi justamente usar a casa como set de filmagens. "Foi uma experiência muito nova. Desde a linguagem que está no programa, até como foi feito, fomos testando e experimentando ali no dia a dia. Essa questão da nossa casa ter virado um set de filmagens é um desafio tremendo porque temos dois filhos pequenos e essa questão da froteira do que é casa e do que é a vida particular da família ficou totalmente misturada. Você não acabava de trabalhar e chegava em casa, isso não acontecia conosco no tempo em que ficamos filmando."

    Segundo Mazzeo, os filhos do casal tanto adoraram ter os pais em casa 24 horas por dia, com dedicação quase exclusiva para eles no início da quarentena, quanto odiaram perder o espaço deles durante as filmagens. 

    Sem contar que, sem equipe física, toda a organização ficava a cargo de Bruno, Joana e de um fotógrafo que estava morando com eles na época. "Uma produção de TV geralmente fica tão grandiosa, e tem tanta gente no set que cada vez mais o diretor e os atores fazem menos coisas. Mas em Diário de um Confinado, tínhamos que dar conta de tudo, de arrumar o cenário quando acabasse, de ajeitar o cenário do dia seguinte, coisa que não acontece em uma produção de TV, novela", comparou Joana.

    O mesmo aconteceu para os atores convidados, que fizeram participações na série.

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    Diário de um Confinado conta com grandes nomes no elenco, como Fernanda Torres, Lázaro Ramos e Lúcio Mauro Filho. "Teve uma coisa de um resgate de uma postura dos atores mais parecido com o teatro, onde o ator tem que dar conta dos próprios objetos de cena, do próprio figurino, da maquiagem", explicou Jabace. "A Renata Sorrah, que faz a mãe do Murilo, por exemplo, e os outros atores recebiam kits na casa deles, porque tinha toda uma estrutura de tecnologia para que eles também se filmassem. Eles mandavam uma foto do fundo que iam usar, debatíamos o figurino porque não mandamos figurino pra casa dos atores, eles usavam as roupas deles só que com um crivo meu."

    Sobre a escolha do elenco, Mazzeo explicou que foi pela proximidade. "Como tem essa questão da distância e a Joana gosta dessa coisa do trato com o ator, precisávamos de pessoas com quem tivéssemos o mínimo de intimidade ou de proximidade, porque não íamos ter como desenvolver essa intimidade. Então já fomos de cara em pessoas muito próximas de nós. E todas elas toparam porque sentem também esse desejo de fazer alguma coisa nesse momento, de estar junto. A maioria dos colegas que participaram nem leram o texto, talvez tenham se arrependido depois e nem tinham como voltar atrás", brincou o ator.

    "Tinha uma coisa muito curiosa, que é o contracenar à distância", continuou ele. "Fomos descobrindo isso fazendo. Inclusive certas coisas que já mudavam na dramaturgia mesmo, no texto, se você está fazendo uma cena presencialmente, fala um por cima do outro e pode ter interrupções curtas. Se você está numa chamada de vídeo e um fala por cima do outro, bloqueia o outro som, entra um delay, então fomos tentando achar maneiras de na hora de contracenar ficar uma coisa orgânica. Porque não sabíamos se isso ia ficar lento, chato de ver. Por sorte, nós temos amigos muito talentosos."

    Enquanto a maioria dos atores participaram à distância, via chamada de vídeo, um por episódio, alguns contracenaram presencialmente com Murilo, atores de peso que são vizinhos de Mazzeo e Jabace. "A Debora Bloch, que mora no nosso prédio, faz cenas no hall do nosso prédio como uma vizinha do personagem. E, no último episódio, o Murilo sai de casa, pois está precisando dar uma volta no quarteirão, sai todo protegido, com máscara, gorro, luva, e encontra o Matheus Nachtergaele, que é mesmo o nosso vizinho, mora no prédio do lado do nosso e está passeando com o cachorro", explicou Joana.

    A arte vai continuar depois da pandemia
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    A diretora Joana Jabace ainda explicou a importância e a mensagem que Diário de um Confinado quer passar. Enquanto diversos filmes, séries e até mesmo novelas paralisaram suas produções, é uma conquista que eles estejam lançando um conteúdo inédito na TV aberta e no streaming do Globoplay nesse momento tão conturbado. "É uma força que fala sobre a ressignificação da arte, já que é uma coisa fundamental que está ajudando todo mundo a passar por esse período da quarentena e do confinamento", ponderou Jabace.

    "Quando a pandemia aconteceu, ninguém sabia exatamente o que estávamos vivendo. As fichas foram caindo aos poucos. Quando fui ler os protocolos de filmagem de outros lugares do mundo, que já estavam um passo a frente da gente na pandemia, eu fui entendendo que até a vacina não íamos conseguir gravar e produzir do jeito que a gente fazia", disse a diretora. "Não dá para pensar num texto, numa série pré-Covid para fazer num momento pós-Covid. Temos que nos reinventar como artista, pensar em ideias que possamos realizar agora. Essa é a mensagem sublinar da série, de que o show não vai parar, os artistas não vão morrer, os artistas sempre se reinventam, a cortina não vai fechar."

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    Onde assistir a Diário de um Confinado?

    Diário de um Confinado estreia no Globoplay na próxima sexta-feira (26). A partir do dia 4 de julho, a série vai ser exibida todos os sábados na TV Globo, e do dia 6 em diante passará no Multishow, e terá pílulas ao longo do mês no GNT.

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