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    Arcanjo Renegado: Marcello Melo Jr. comenta sobre importância política da série do Globoplay (Entrevista)
    Por Vitória Pratini — 12 de fev. de 2020 às 15:15
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    Para ator, produção veio para “colocar o dedo na ferida” na guerra contra o tráfico.

    Arcanjo Renegado, série estrelada por Marcello Melo Jr. e Erika Januza, chegou ao Globoplay na sexta-feira (07) e fez sua estreia na Tela Quente, na Rede Globo, na noite da última segunda-feira (11). A produção acompanha a Equipe Arcanjo, a mais bem treinada, eficaz e letal do Batalhão de Operações Especiais (Bope), no Rio de Janeiro. Sob o comando do primeiro-sargento Mikhael (Melo Jr.), o grupo é respeitado dentro da corporação e temido pelos bandidos.

    Ao mesmo tempo, a série também mostra o lado político, com governadores e debutados tentando “puxar as cordinhas” na guerra contra o tráfico de drogas e de armas. Para Marcello Melo Jr., Arcanjo Renegado expõe que “a deficiência maior é política, são interesses pessoais de hierarquias, que tem o falso poder de mandar. Eles enviam seres humanos para fazer o trabalho sujo de uma coisa que eles nem chegam perto. É mais uma questão de cidadania, de humanidade”, disse o ator a um grupo de jornalistas que contou com a presença do AdoroCinema.

    Em seu primeiro protagonismo nas telas, Melo Jr., que foi criado no Vidigal, comentou como foi entrar na pele de Mikhael. “Eu, por ser negro e de comunidade, ao fazer um policial, percebo que são seres humanos que estão tentando se entender dentro dessa sociedade tão confusa e de um país tão abandonado pelos nossos superiores”, afirmou. “Vi que a realidade da polícia é um fardo muito pesado. Mas a polícia usa farda, ela tem uma proteção. O negro não. O negro ‘usa’ uma cor que o desprotege. Ao mesmo tempo, acho que estamos num momento bem bacana, de podermos nos mostrar, nos colocarmos, porque também têm policiais negros. Existe uma questão muito mais profunda do que realmente ser pela ‘cor’, acho que não é pela cor, é pela ignorância das pessoas. [Os negros] poderiam ser tratados com um pouco mais de amor, respeito e educação. Mas isso vem de cada um, com a arte conseguimos transformar isso. A série está me trazendo para um lugar de colocação diferente do que eu tinha antes, e ao mesmo tempo parece uma nova etapa desse diálogo, dessa conversa”.

    Globoplay

    Quem faz o contraponto com Mikhael é o jornalista investigativo Ronaldo (Álamo Facó). “Ativista engajado em todas as causas humanas, ele vai entrar nas ações policiais e fazer matérias de dentro do morro, e se destacar no jornalismo independente pela coragem, pela ousadia”, revelou Facó com exclusividade ao AdoroCinema. Para viver esse personagem, o ator teve como referências a “Mídia Ninja e a coragem do Glenn Greenwald durante toda sua denúncia”, afirmou.

    Apesar de se passar em um ambiente predominantemente masculino, a série também traz personagens femininas fortes, como a presidente da Alerj Manuela Berengher (Rita Guedes); a irmã de Mikhael, mãe e esposa dedicada, Sara (Erika Januza), e a capitã da PM, Luciana (Danni Suzuki). “Muito forte, independente e responsável, ela é linha dura mas muito amorosa ao mesmo tempo e dobra o coração do Mikhael”, revelou Suzuki sobre sua personagem, com exclusividade para o AdoroCinema. Para a atriz, viver uma mulher em posição de liderança em um universo tão masculino é bastante importante. “É uma oportunidade para vermos como ela adquiriu o respeito e vive o dia a dia ali dentro para ser respeitada”, afirmou. “A minha concepção do feminismo é bem equilibrada, eu entendo a importância do papel masculino, do papel feminino, e eu não acho que a mulher tem que substituir o serviço masculino e vice-versa. Acho que eles se completam e cada um tem o seu lugar; uma mulher dentro de uma profissão muito masculina também tem seu papel feminino dentro daquilo ali, que é muito importante, por isso que ela chega em uma liderança.”

    Guto Costa

    Já Rita Guedes comenta que teve como inspiração para viver Manuela diversas mulheres dentro da política, como Marielle Franco (segundo ela, “uma mulher guerreira que morreu lutando”), Cidinha Campos e Tabata Amaral. “[A Manuela] é a única mulher com todos aqueles homens, um querendo engolir o outro como águias, um querendo mais poder e articulando com o outro pelas costas. E ela é temida por todos, porque tem muitos aliados, e é extremamente inteligente”.

    Criada por José Junior, fundador do Grupo Cultural AfroReggae, que ajudou a tirar pessoas do tráfico e inclusive atuou como mediador de facções. A série traz participações de ex-integrantes reais do Bope, que interpretam policiais da Equipe Arcanjo, e egressos do sistema penal, que se envolveram com a criminalidade no passado e encenam situações semelhantes ao que viveram anteriormente.

    “Essa série mostra muito a realidade do Rio de Janeiro, a vida como ela é, as cenas são muito reais”, comentou Danni Suzuki. “Os atores estão misturados com ex-policiais e ex-bandidos de verdade. É baseado na história de um deles, mas estamos representando a vida de muitos. Para mim foi um grande aprendizado, conhecer a realidade da polícia, porque julgamos muito sem saber e hoje eu tenho muito orgulho da polícia do Rio de Janeiro porque eu conheci muitos policiais que realmente fazem aquilo por amor e proteção à nós, então é importante que isso seja valorizado”, comentou. “Acho que as pessoas vão se identificar e é uma oportunidade de elas verem os vários lados que existem dentro de todo esse sistema, e tirar suas conclusões.”

    Carlos Fofinho

    Para Marcello Melo Jr., ter essas pessoas participando foi mais como “uma curiosidades deles sobre o meu universo [de ator] do que sobre o universo deles. O diálogo era muito mais sobre ‘como é beijar mulher na novela?’, do que sobre o que eles faziam antes. Eu já tinha tido esse contato, porque eu sou do grupo Nós do Morro, que é uma ONG como o AfroReggae”, afirmou, revelando que essa integração “é sobre acreditar, de dar acesso a quem não tem acesso ou oportunidade. Ou também a quem não tenha forma de sair daquele ninho e mostrarmos uma nova possibilidade. Tem uma frase que eu gosto muito, que é ‘quando você vai conhecer o mundo, você volta para apresentar a quem está dentro do seu’. Então acho que eu tenho um pouco dessa oportunidade e dessa missão”, almejou e, disse, sonhador: “Quando chegar no Vidigal, [espero] a referência mudar do bandido, e ser eu a referência, tirar essa imagem negativa da comunidade”.

    “Estamos vivendo um momento inseguro, em tudo, no setor político, saúde, acho que as pessoas estão inseguras, o Rio de Janeiro está passando por um momento muito difícil e essa série retrata bem”, ponderou Rita Guedes. “Não só os bastidores do Bope — porque acho que tem muitas séries que retratam o trabalho da polícia — mas acho que [Arcanjo] vai mais fundo e mostra um enfrentamento maior, até porque tivemos policiais que fizeram a preparação dos atores e que participaram também da série, então sentimos de perto o que é esse trabalho desses caras”.

    Ainda que o Brasil possua diversas produções sobre a segurança pública e o trabalho da polícia no Rio de Janeiro, como Tropa de Elite, Arcanjo Renegado aborda o assunto de forma mais profunda. “Já que vamos contar uma história que seja nossa, que pelo menos seja com o dedo na ferida de verdade, sem esconder nada”, afirmou Melo Jr. “O nosso país é muito preconceituoso, machista, mas é tudo muito velado, ninguém se expõe. Nós expomos, porque não viemos a passeio, viemos mostrar o que realmente acreditamos: no amor e na recuperação do ser humano”, revelou o ator.

    Para Álamo Facó, isso se deve ao fato de ser feita por José Junior, que trabalha com isso. “Em lugar de fala, não está dando muito tempo para pessoas falarem disso pelo caricato ou pelo excitante, porque ele é muito grave para quem vivencia isso”. Segundo o ator, trata-se de um assunto urgente e que tem que ser debatido à exaustão. “Mas ninguém quer discutir isso, que é a guerra humana no Rio de Janeiro”, lamentou ele ao AdoroCinema. “Independente do que a pessoa defender em relação a isso, é muito importante que ela debata sobre isso. O grande ponto que a série vai suscitar é a que gente vê que é uma guerra entre a polícia e o tráfico. Porém, a quem interessa essa guerra? É a pergunta que a produção deixa.”

    Guto Costa

    Leonardo Brício, que vive o Comandante Geral da PM, Gabriel, concorda com Facó. “É de se questionar mesmo, a gente para para pensar quando condenamos um lado ou outro. É uma guerra, tiro pode vir de qualquer um dos lados, e ao mesmo tempo tem gente ali que não tem nada a ver com isso, inocentes. Como lidar com isso? Não existe uma resposta na série e acho que nem existe uma resposta na nossa sociedade ainda”, disse ele a um grupo de jornalistas que contou com a presença do AdoroCinema.

    Marcello Melo Jr. ainda aponta que a importância de fazer uma série como essa na época atual é “colocar o dedo na ferida”. “Fazer com que [os governantes] botem a cara, fazer com que eles pensem nas pessoas que estão regendo no país, que eles dizem amar, que eles dizem cuidar, que eles respeitem mais a nós, trabalhadores, que pegamos ônibus, vamos a hospitais públicos, bebemos água que eles nos fornecem, que eles tenham um pouco mais de respeito por quem paga o salário deles”, proclamou.

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