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    The Wilds: Crítica da nova série original do Amazon Prime Video
    Por Bruno Botelho dos Santos — 10 de dez. de 2020 às 12:57

    Produção se destaca ao apresentar trama de sobrevivência para explorar pressão social, com medos e ansiedades nos adolescentes

    NOTA: 4,0/5,0

    The Wilds, nova série original da Amazon Prime Video que é aposta para o público mais jovem, pode muito bem ser considerada uma mistura de Lost e O Senhor das Moscas, por sua trama de sobrevivência em meio ao caos, com Euphoria e The Society, com temática que explora medos e ansiedades dos jovens. Apesar das claras comparações, a produção é boa o suficiente para se destacar e se diferenciar das demais.

    O enredo acompanha um grupo de meninas adolescentes que sofre um acidente de avião e acaba preso numa ilha deserta. Com origens diferentes, elas precisam lutar para sobreviver nesse lugar inóspito, sem desconfiar que, na verdade, estão fazendo parte de um experimento social bastante elaborado. Enquanto aprendem a conviver umas com as outras, seus segredos e seus traumas vêm à tona.

    Não quero dizer que o que aconteceu não foi traumático, terminar onde chegamos, no meio do nada, completamente isolados das vidas que deixamos para trá. Isso nos traz a real pergunta, não é? O que há de tão bom nas vidas que deixamos para trás?

    Assim narra a personagem Leah Rilke (Sarah Pidgeon) no trailer da série, que já anuncia o que virá pela frente.

    The Wilds reflete sobre a pressão social nos jovens

    Embalado pela música Reckoner, da banda Radiohead ("Porque nós nos afastamos, como as ondas numa praia vazia"), o primeiro episódio introduz bem a temática que a série vai desenvolver ao longo de 10 episódios, que é explorar as conexões que essas jovens encontraram umas nas outras após suas vidas problemáticas e mostrar o impacto da sociedade — muitas vezes negativo — em jovens que estão moldando suas personalidades para a vida adulta.

    São exploradas dúvidas e incertezas relacionadas com grau de pressão social enorme ou relacionamentos — de todos os tipos — tóxicos, que comprometem o presente e o futuro dessas adolescentes, que cada vez mais ficam imersas e presas em suas próprias dores e sofrimentos sem buscar ajuda.

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    A narrativa é dividida em três linhas temporais: passado, flashbacks que mostram a vida problemática das adolescentes antes da ilha; presente, que foca na sobrevivência delas e explora a relação que elas desenvolvem umas com as outras para se descobrirem no mundo; e, por fim, futuro, que são os flashforwards mostrando elas sendo interrogadas após todos acontecimentos.

    Precisamos falar sobre saúde mental!

    Mesmo que sua estrutura não seja a mais original, The Wilds se destaca na sua ousadia de roteiro, que traz personagens realistas e com problemas complexos, para discutir sobre pressão social: os medos e as ansiedades que fragilizam os jovens em um momento complexo da vida, que é o de descoberta.

    O tópico da saúde mental é recorrente em todos os episódios e abordado com bastante responsabilidade, mostrando como a limitação de sentimentos gera problemas duradouros e influência nas personalidades de cada um, de maneiras distintas.

    A série fornece um grande estudo da vida passada delas, cada personagem está lutando com problemas difíceis, que são explorados em cada episódio com atuações poderosas. Leah (Sarah Pidgeon) está em um estado de depressão depois de ser abandonada por seu namorado maior de idade; Rachel (Reign Edwards) é uma atleta que está empurrando seu corpo ao limite em busca da perfeição, enquanto sua irmã Nora (Helena Howard) assiste sem ter o que fazer; Dot (Shannon Berry) é uma menina forte, mas que sofre por ser a única cuidadora de seu pai com saúde debilitada. E por aí vai com as demais personagens Fatin (Sophia Ali), Martha (Jenna Clause) e Toni (Erana James).

    Um dos pontos mais interessantes que criadora Sarah Streicher consegue trabalhar na produção é que, mesmo presas em uma ilha isolada, elas se sentem de alguma maneira livres, distantes de todas as expectativas e cobranças que tinham em suas vidas. Assim, elas conseguem aos poucos entenderem melhor seus próprios sentimentos.

    Série clama pelo empoderamento feminino

    Aos poucos somos introduzidos a Gretchen Klein (Rachel Griffiths), personagem misteriosa que, além de engajada em manifestações sociais e pautas feministas, tem importância na relação das adolescentes na ilha.

    Com a personagem Gretchen ganhando forma principalmente após a metade da temporada, fica clara a mensagem maior que a série quer passar. Criado e produzido majoritariamente por mulheres, além de apresentar oito protagonistas femininas, ela mostra que experiência na ilha ajuda as garotas a ganharem uma certa perspectiva de vida e empoderamento, isoladas da influência masculina tão notável em nossa sociedade patriarcal.

    O próprio elenco em entrevista ao AdoroCinema revelou que The Wilds é sobre o relacionamento que essas mulheres têm umas com as outras e encontrar seu poder.

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    Talvez seu grande defeito seja como ela lida com os aspectos de sobrevivência, muitas vezes eles soam artificiais. Isso fica mais explícito logo no primeiro episódio, quando as personagens são jogadas nesse local isolado e demoram para recorrer a alguma medida eficaz de sobrevivência, sendo que isso pode lhes custar suas vidas.

    The Wilds não é nem um pouco sutil em suas abordagens, desde o começo deixando claro suas intenções. Mas é uma das séries mais surpreendentes de 2020 e ganha força quando conversa de maneira honesta e potente, principalmente quando voltado para um público mais jovem. Com discussões fundamentais e universais como pressão social, ansiedade, depressão e empoderamento feminino, a série da Amazon Prime Video é um bom entretenimento de sobrevivência que nos faz pensar e questionar nossa sociedade.

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