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    Festival de Brasília 2014: Impressões finais da 47ª edição
    Por Bruno Carmelo — 24 de set. de 2014 às 18:30

    Destacamos os temas e ideias mais marcantes na edição 2014 do festival.

    Junior Aragão

    O Festival de Brasília 2014 chegou ao fim, coroando Branco Sai Preto Fica, de Adirley Queirós, como melhor longa-metragem. Depois de notícias, críticas e entrevistas, o AdoroCinema propõe um balanço geral da edição deste ano, com algumas considerações apresentadas sem ordem precisa:

    1. Cinema jovem, exigente, hermético A média de idade dos diretores selecionados no festival foi surpreendente. Trata-se de um grupo de cineastas jovens (como Gabriel Mascaro, Marcelo Pedroso, Adirley Queirós), em busca de retratar novas formas e sensações. O resultado foram obras exigentes, de potencial comercial reduzido, mas com louvável disposição ao risco. Nem sempre a mistura de formas e linguagens resultou em obras totalmente coerentes (Brasil S/A e Pingo d'Água foram os filmes mais polêmicos neste sentido), mas o festival em si foi coerente em sua escolha para a competição oficial.

    2. Onde vão os personagens? Uma consequência de tantos discursos herméticos e metalinguísticos foi o rebaixamento da função dos personagens. O cinema de autor já foi identificado com os ditos "filmes de personagem", que seguem trajetórias de homens e mulheres ao longo de seus dias (vide o modelo europeu de cinema humanista, em estilo Rosetta), mas nesta seleção, a forma está claramente acima do conteúdo. Existem poucos personagens humanos marcantes nos filmes - a não ser que uma cidade ou uma ideia sejam considerados personagens - e poucos atores profissionais foram convidados a atuar nas tramas. A consequência foi vista na premiação dos longas: dos quatro prêmios disponíveis às atuações (ator, atriz, ator coadjuvante e atriz coadjuvante), apenas um foi entregue a uma atriz profissional (Dandara de Morais), e mesmo assim, em sua primeira experiência no cinema.

    3. O homem e a máquina Um dos temas recorrentes nos filmes abordados foi a industrialização da vida moderna, enxergada de maneira crítica pelos diretores. A questão também foi tema dos clássicos apresentados, a exemplo de Macunaíma e Iracema - Uma Transa Amazônica. Mas os novos filmes em competição ainda veem nas máquinas uma fonte de estranheza. Assim, em Brasil S/A, um agricultor é substituído por máquinas assustadoras, em Ventos de Agosto, um pesquisador choca um vilarejo de catadores de coco com seus aparelhos eletrônicos, em Branco Sai Preto Fica, um homem amputado passa toda a narrativa desenvolvendo novas próteses mecânicas. Em contrapartida, para representar o conforto, Pingo d'Água abandona a tecnologia e fecha seu personagem dentro de uma velha mala de couro, em posição fetal.

    4. Voz ao cinema de gênero Os grandes dramas do cinema de autor também desapareceram, cedendo espaço ao cinema de gênero. Com orçamento baixíssimo, os filmes arriscaram variações cômicas e criativas da ficção científica (Brasil S/A, Branco Sai Preto Fica) e dos filmes de terror (Estátua!, Loja de Répteis, Nua Por Dentro do Couro, Vento Virado), além de experiências no trash (Ventos de Agosto). Não faltaram monstros, psicopatas, animais assustadores. Mas nada de copiar a linguagem americana: ao invés de criar um disco voador, por exemplo, a equipe de Branco Sai Preto Fica se virou muito bem com um container de onde sai um homem do futuro. O cadáver de Ventos de Agosto também é voluntariamente falso, criando uma ruptura com o realismo.

    5. Ficção e/ou documentário Um dos elementos mais debatidos na seleção deste ano foi a convergência entre ficção e documentário. A mostra competitiva eliminou a separação entre os gêneros, algo que seria impraticável diante de tantas obras limítrofes. Mesmo um filme um pouco mais convencional, como o documentário Sem Pena, foi questionado a respeito de algumas construções possivelmente ficcionalizantes dentro do conjunto (como a cena da Ferrari). Mas a ideia é claramente apagar a linha entre os dois, usando atores não profissionais, roteiros improvisados (Pingo d'Água), membros da própria família em cena (Ela Volta na Quinta) e releitura de histórias reais (Branco Sai Preto Fica).

    6. Baixo orçamento Como poderia se esperar, esses filmes exigentes não contam com um orçamento expressivo. Adirley Queirós, diretor de Branco Sai Preto Fica, afirmou que seu filme foi feito com aproximadamente 40 mil reais, já Vento de Agosto teria custado cerca de 60 mil reais. São quantias ínfimas diante de grandes produções brasileiras, que podem captar R$8 milhões do governo, além de recursos da iniciativa privada. Por um lado, os diretores gostariam de poder remunerar melhor os seus profissionais, por outro lado, manifestam a satisfação com a liberdade em relação ao mercado. No final, fizeram o gesto mais significativo de todos: os seis cineastas dividiram entre todos os concorrentes o prêmio de melhor filme, equivalente a R$250 mil.

    7. Para rever os clássicos O festival de Brasília reservou um espaço excepcionalmente grande aos clássicos do cinema brasileiro, organizados em quatro mostras diferentes, além dos filmes de abertura e encerramento. Muitos diretores e atores consagrados estiveram presentes para debater com o público, como Orlando Senna e Jorge Bodanzky. Foi um privilégio aos jornalistas e espectadores poder assistir na tela grande às versões restauradas de Deus e o Diabo na Terra do Sol, Cabra Marcado Para Morrer, O Caso dos Irmãos Naves, Macunaíma, Iracema - Uma Transa Amazônica e outros. 

    8. Rico Nordeste Como nos últimos festivais nacionais, o cinema nordestino está apresentando os filmes mais inovadores e questionadores da produção brasileira. Pernambuco se destaca na região: foram dois longas-metragens (Brasil S/A e Ventos de Agosto) além de uma porção de curtas (Sem Coração, Loja de Répteis). A Paraíba também esteve representada por Pingo d'Água, e Maranhão com Nua Por Dentro do Couro. Já Alagoas foi o cenário dos filmes pernambucanos Ventos de Agosto e Sem Coração.

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