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    O Último Mercenário
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    O Último Mercenário

    O retorno do Van Damme brucutu, comediante e galanteador

    por Vitória Pratini
    A década de 1980 foi responsável por colocar sob os holofotes atores carismáticos, lutadores de arte marciais, cujos personagens pareciam invencíveis. Você já deve ter ouvido frases que os transformaram em “lendas”, como “em uma sala, existem 1273 objetos com os quais Chuck Norris pode te matar, inclusive a própria sala”. O mesmo pode ser dito sobre Jean-Claude Van Damme, o mais estiloso desses “brucutus”, em O Último Mercenário. Inclusive, é uma das falas do filme da Netflix, que revela que o protagonista é “mais perigoso quando está sem arma”. Isso porque ele usa e abusa dos golpes de luta -- motivo pelo qual a maioria de seus fãs busca seus filmes.

    Jean-Claude Van Damme faz graça de si mesmo enquanto aposta em lado mais emocional

    Netflix


    Desde que lançou produções como o filme JCVD e a série Jean-Claude Van Johnson, o astro de ação aprendeu a fazer graça de si mesmo e de seu “status” como ícone do espacate (pose que faz seu retorno de forma inovadora em O Último Mercenário) e de filmes como O Grande Dragão Branco. Sabia que ele vai participar até do elenco de voz de Minions 2: A Origem de Gru?

    Sabendo que não pode superar a imagem do Van Damme do passado, em O Último Mercenário, o ator se contenta em apostar em sua veia de comédia -- com direito aos mais diversos disfarces “óbvios”, incluindo perucas -- sem deixar seus golpes de ação de lado, que têm até seus próprios marcos históricos.

    No novo filme da Netflix, Jean-Claude Van Damme interpreta Richard Brumère, um ex-agente do serviço secreto que se tornou um mercenário desonesto conhecido como “The Mist” (já que nunca mais foi visto). Quando recebe uma mensagem codificada, precisa retornar com urgência à França. Isso porque a imunidade de seu filho distante (Samir Decazza), que ele nem conhece, é revogada pelos serviços secretos de Paris, após um erro cometido por um burocrata.

    A partir daí, o Brumère de Van Damme entra em conflito, dividido entre os papéis de mercenário e pai, tentando descobrir onde encaixar seu filho Archie entre suas prioridades de “salvar o mundo”. Especialmente porque tem que lidar com um contratempo: o rapaz não quer saber dos êxitos do pai e guarda mágoas de ele e a mãe terem sido abandonados. Chega a ser charmoso o modo como ele parece desconfortável no meio deste drama familiar. Van Damme entrega um humor pastelão, ao mesmo tempo em que tenta se conectar com lado mais emocional.

    O Último Mercenário traz muitos gêneros em um, além de esbanjar referências a filmes de ação

    Netflix


    Filme da Netflix não desenvolve bem seus personagens coadjuvantes

    Talvez seja justamente esse o principal problema de O Último Mercenário. O filme do diretor e roteirista francês David Charhon quer ser de tudo um pouco e não é tão bem sucedido nisso -- como quando você vai em um restaurante que serve comida japonesa, mexicana e italiana, tão generalista que não entrega qualidade total em todos os quesitos.

    O Último Mercenário tem cenas de ação bem coreografadas, perseguições de carro bem ritmadas, além de muitas -- mas muitas! -- “zoeiras” e easter-eggs com o gênero de ação em si. A produção, que está disponível no catálogo da Netflix, traz uma estética clássica que faz referência aos filmes que elevaram Van Damme à fama.

    Tal como Chuck Norris, Richard Brumère tem frases de ação repletas de metáforas sem sentido. Uma das sequências traz o grupo principal posando para a câmera e olhando ao horizonte por tanto tempo que eles mesmos se questionam o porquê. Em outro momento, Van Damme usa um smoking e posa do lado de um cartaz de 007 - Na Mira Dos Assassinos, em um claro paralelo ao galanteador James Bond de Roger Moore.

    Um dos antagonistas é um personagem propositalmente caricato, obcecado por Tony Montana de Al Pacino em Scarface, tanto que ele acredita que é Tony Montana. Enquanto a referência começa bem, acaba perdendo a graça no meio do caminho, de tão literal e repetitivo que o filme é sobre isso.

    Destaque para a luta final dentro de uma sala de jogos, com direito a fliperama, e da “operação piscina” -- bem no estilo “bate primeiro, pergunta depois”. Curiosamente, Van Damme mantém sua imagem de “bom moço”: mesmo apanhando de mulheres, ele não bate, só desvia. Enquanto não tem piedade com seus chutes e socos com personagens masculinos.

    Netflix


    O longa de David Charhon também aposta em sequências de comédia pastelão constrangedoras. Uma delas é protagonizada por Alexandre, que anda de scooter por Paris usando apenas um capacete e suas roupas íntimas. Vivido pelo ótimo comediante francês Alban Ivanov, o personagem é mal aproveitado.

    De fato, parece que o filme perde tanto tempo exaltando e debochando da figura de Van Damme que esquece de desenvolver seus personagens coadjuvantes e seus motivos. Além do cômico Alexandre, Dalila (Assa Sylla) e seu irmão Momo (Djimo) trazem representatividades feminina e preta para o longa, mas não convencem em sua rápida conexão com os demais membros da equipe, muito por causa do roteiro. A rixa dos agentes do governo com Brumère, apesar de ser mostrada em flashback, não é bem explicada. Já a reviravolta final parece gratuita e clichê.

    O único que ganha mais espaço é Archie, interpretado por Samir Decazza. O filho de Brumère tem um arco narrativo mais completo, e sua dinâmica com o personagem de Van Damme vai evoluindo ao longo da trama e parece genuína. E ainda é coroada pela hilária cena pós-créditos.

    Netflix


    Não dá para negar: O Último Mercenário é um filme com foco em Jean-Claude Van Damme. Divertida e um tanto quanto nostálgica, a produção da Netflix prova que ele não é somente um astro de ação mas também um comediante estiloso e eclético, que sabe fazer graça de si mesmo. Mesmo que aposte em tudo e não se especialize em nada.
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