Nova aposta da A24 sobre amadurecimento queer, Club Kid conquistou o público no Festival de Cannes
por Paulo ErnestoClub Kid é uma obra que chega ao circuito de festivais com uma proposta ao mesmo tempo familiar e com frescor - pegar um formato narrativo consolidado, o adulto relutante que precisa cuidar de uma criança, e recontextualizá-lo dentro da experiência queer contemporânea. O resultado é um filme vibrante e surpreendentemente generoso com seus personagens, que estreou na seção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2026 e foi adquirido pela A24 durante o próprio festival, o que já o posiciona como uma das apostas da distribuidora para esse ano.
O que torna o projeto ainda mais coeso é o fato de que Jordan Firstman acumula as funções de roteirista, diretor e protagonista. Esse controle total sobre o material se sente na tela. Há uma fluência e uma autenticidade no retrato desse universo que dificilmente viriam de fora. A história acompanha Peter, um promoter de festas underground imerso na cena gay de Nova York. Dividindo um apartamento herdado com um imigrante de personalidade peculiar, Peter vive rodeado de amizades com outros membros da comunidade LGBTQIA+, mantendo uma relação bastante desinibida com as drogas e com a liberdade.
O próprio protagonista é uma fonte constante de humor, suas referências a memes, dinâmicas de grupo e uma ironia inegavelmente millennial surgem de forma orgânica ao longo de toda a narrativa. Logo de início, uma elipse temporal reposiciona a história, alguns anos se passam, e Peter continua levando a mesma vida, mas agora o corpo e a rotina começam a cobrar um preço.
Festival de Cannes
O filme domina com segurança o vocabulário do seu público. As referências a memes e a dinâmicas da cultura digital aparecem sem exagero, ilustrando com criatividade como nichos culturais específicos se comunicam e constroem identidade e linguagem. É uma das características mais bem-sucedidas da produção e um dos elementos que ajuda a explicar por que a A24 enxergou no filme um produto com alcance multigeracional.
É dentro desse universo que Peter recebe uma notícia que vai deixar tudo ainda mais bagunçado do que já está: ele precisa cuidar de uma criança. Diante do que vimos até então, a tarefa parece impossível, visto que ele mal consegue cuidar de si mesmo. Assim, o menino Arlo (Reggie Absolom) entra em cena, e Peter se vê obrigado a reorganizar prioridades, deixando amigos e o colega de quarto em segundo plano enquanto tenta cumprir essa responsabilidade o mais rápido possível.
A chegada de Arlo, no entanto, produz algo inesperado e começa a alterar a percepção que Peter tem de si mesmo. O menino o admira, algo que Peter não consegue mais fazer. Essa dinâmica mexe profundamente com o protagonista. Arlo tem uma grande sensibilidade artística e, apesar de parecer deslocado em um universo tão adulto, acaba se inserindo naturalmente no grupo. Os dois constroem uma conexão real em torno de músicas e possibilidade de afeto, e o menino passa a enxergar Peter como um porto seguro.
O filme trabalha com um conceito que não é exatamente novo. O Paizão, comédia de Adam Sandler lançada em 1999, já explorou a fórmula do adulto irresponsável obrigado a cuidar de uma criança. Mas o recorte de Club Kid é diferente. Não se trata apenas de um homem assumindo uma responsabilidade inesperada, algo que, quando feito por uma mulher, costuma ser visto como obrigação natural, e que qualquer esforço mínimo de um homem já transforma em heroísmo.
Aqui, a narrativa parte de uma pessoa queer que não deseja ter filhos e não se vê capaz de cuidar de ninguém. Esse cuidado surge como espelho e força o protagonista a refletir sobre seu mundo, suas possibilidades e seus limites. Firstman, ao escrever e dirigir o próprio filme, garante que esse olhar venha de dentro. A obra conversa com a geração millennial de forma direta, mas claramente mira também o público mais jovem, a geração Z, que encontra no humor e nas referências culturais uma porta de entrada para temas mais densos.
O elenco inclui nomes reconhecidos da cultura pop e da televisão americana, como a modelo e atriz Cara Delevingne e Miss Benny, atriz, cantora e criadora de conteúdo trans que já participou de séries como Fuller House. O próprio Firstman integra esse universo de forma orgânica, ele também um dos protagonistas de I Love LA, ao lado de Rachel Sennott, nome que, junto ao de Odessa A'zion e Charli XCX, pertence ao mesmo grupo cultural descolado que o filme evoca, ainda que nenhuma delas apareça na tela.
Club Kid se insere em uma leva de narrativas recentes que colocam personagens queer no centro da história, criados e protagonizados pelas mesmas pessoas, como a série Muito Esforçado e o filme Twinless. A diferença está na construção do protagonista. Em vez de um “herói” queer admirado, desejado e constantemente exibindo o corpo, cercado de atores bonitos, Firstman escolhe outro caminho para si mesmo. Ele está menos comprometido com a autopromoção e mais a serviço da narrativa e isso torna o personagem genuinamente mais interessante. O seu par romântico, Oscar, é vivido por Diego Calva, que traz um homem quase comum, porém com um passado difícil e complicado, que não torna o personagem esvaziado.
A obra também não evita os temas espinhosos. Adoção, inserção de crianças em espaços LGBTQIA+, preconceitos internos e tabus da própria comunidade aparecem. Em alguns momentos, é o próprio Arlo quem ensina algo ao protagonista, questionando certezas que Peter achava que já estavam consolidadas. Tudo isso emerge sem didatismo e sem peso excessivo.
Há quem possa ver na busca do protagonista por uma aceitação maior, que envolve certa mudança de estilo de vida, uma inclinação conservadora. O que é uma leitura possível. Mas o filme parece menos interessado em prescrever comportamentos do que em refletir sobre adultos que viveram uma adolescência tardia, tentaram aproveitar ao máximo a liberdade que conquistaram e, em determinado momento, se veem perdidos diante das expectativas do que devem ou não cumprir, o que conseguem ou não sustentar.
Club Kid apresenta tudo isso de forma bonita, cuidadosa e ampla. É um filme que permite pensar nos direitos e nas conquistas da comunidade queer, mas também nos limites e nas questões que ainda precisam ser debatidas. Tudo dentro de uma obra extremamente leve, que agradou ao público de Cannes e que, nas mãos da A24, tem potencial para encontrar uma audiência ainda maior.
Club Kid estreou no Festival de Cannes e ainda não tem previsão de estreia no Brasil.