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    Trem-Bala
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Trem-Bala

    Sorte, azar e banhos de sangue

    por Aline Pereira

    Envolvido em franquias como DeadpoolJohn Wick e Velozes & Furiosos, o cineasta David Leitch parece ter reunido o que de melhor aprendeu com essas grandes produções em seu novo filme. Um dos lançamentos mais aguardados no cinema em 2022Trem-Bala carrega com uma tonelada de grandes participações especiais, banhos de sangue e até um “novo pokémon” em uma boa comédia de ação estrelada por Brad Pitt - num papel que também reúne muitos de seus melhores atributos como ator. E o longa só faz um pedido ao público: esqueça a lógica. 

    Trem-Bala acompanha a história do Joaninha (Brad Pitt), um assassino profissional que recebe uma última missão antes de tentar deixar para trás a antiga vida de altos riscos - especialmente porque se considera a pessoa mais azarada do mundo. O problema é que a tarefa aparentemente simples de roubar uma maleta de dinheiro vai sair completamente de controle: o objeto está dentro de um trem que parte de Tóquio com destino à cidade de Quioto e, para o azar de Joaninha, os outro passageiros são basicamente as pessoas mais mortais do mundo. 

    Trem-Bala tem ótimos personagens e muito carisma de Brad Pitt 

    Esta combinação de personagens pontua o primeiro grande acerto do longa: o trem-bala de Brad Pitt também traz a bordo diversos outros assassinos que estão em suas próprias missões "secretas", cujas conexões vão se formando ao longo da trama. Aaron Taylor-Johnson (Kick-Ass: Quebrando Tudo) e Brian Tyree Henry (da série Atlanta) formam um dupla de mercenários “gêmeos”, enquanto Joey King ( do fenômeno da Netflix A Barraca do Beijo) está em um plano complexo e quase indecifrável com Andrew Koji (Velozes & Furiosos 6) - e o protagonista cai completamente desavisado nesse tormento sem fim. 



    Assim, acompanhamos um quebra-cabeça com alguns toques de Entre Facas e Segredos ou Assassinato no Expresso do Oriente, em que não existem heróis e todos são detestáveis à sua maneira, mas também são extremamente carismáticos - o que nos leva à força de Brad Pitt como protagonista dessa história. Ter um dos rostos mais conhecidos (e queridos) do mundo no elenco certamente torna Trem-Bala ainda mais “gostável”: o ator já é tão familiar que parece ficar mais fácil nos deixarmos levar pelo humor e pelo absurdo que o personagem traz quando nos convida a entrar na história ao lado dele.

    Joaninha é tão brutal e implacável, quanto é sensível e reflexivo - uma construção de personagem que não é exatamente inovadora e nem precisa ser, porque funciona muito bem para o que é proposto por aqui. São muito bons os momentos em que ele se lamenta por dar azar em muitas coisas (quem nunca?), enquanto tenta desesperadamente encontrar um sentido, paz e positividade em meio ao caos (mais uma vez: quem nunca?).

    A questão é que ele faz tudo isso ao mesmo tempo em que cai em pancadarias astronômicas contra os outros antagonistas - cada um também trazendo as próprias reflexões e as noções completamente distorcidas de justiça. 



    Cenas de ação combinam boas coreografias com ritmo certo 

    É aqui que a boa experiência do diretor David Leitch com bons filmes de ação fica mais evidente: Trem-Bala tem cenas muito bem coreografadas e que dão o tom certo ao ritmo acelerado que a trama propõe. O destaque fica com a dupla Aaron Taylor-Johnson e Brian Tyree Henry em seus momentos de batalhas contra o personagem de Brad Pitt: é muito provável que mesmo que não seja muito fã de cenas de luta consiga se entreter com elas pela sensação de estar assistindo quase que a uma dança. 

    Vai muito bem também o bom equilíbrio entre a pancadaria e a comédia: a violência do filme (que é bastante explícita), de alguma forma, não torna o clima pesado e nem nos tira do modo “comédia”. Os diálogos se mantêm bem colocados nos momentos de ação e esses jogos movem a história para frente - inclusive, tudo se move bem rápido. Piscou, perdeu. 

    Trem-Bala é uma correria do começo ao fim 

    Talvez o próprio título do filme já indique o que esperar do ritmo dessa história, que corre tanto quanto o famoso trem japonês. Pode ser um ponto negativo para quem não estiver muito no clima de se deixar levar por esse atropelamento. As tramas dos personagens de Trem-Bala têm ligações inesperadas entre elas e as explicações sobre isso vão ficando cada vez mais aceleradas à medida em que se encaminham para o grande desfecho. 



    Embora o embaralhamento da lógica esteja no coração da história, há ligações importantes que precisam ser feitas dentro da cabeça de quem está assistindo para que a história faça sentido (se é que esta é a palavra certa) dentro de seu próprio caos. Não é que você precise assistir a Trem-Bala com papel e caneta na mão, longe disso, mas precisa, sim, se deixar mergulhar nos acontecimentos para se divertir com o filme. 

    É nesse sentido que o filme, talvez, possa dividir um pouco mais as opiniões. Quem começar a assistir com disposição para se desprender totalmente da realidade e aceitar o absurdo vai conseguir, facilmente, se entreter e encontrar a graça da história - mas a viagem vai ser longa demais para aqueles que não forem fisgados logo de cara pelo tipo de humor proposto. Trem-Bala escolhe um tipo de piada e se agarra nela do primeiro ao último segundo.  

    Trem-Bala é um belo circo cinematográfico 

    Em linhas gerais, temos um filme criado para fazer o público vibrar dentro da sala de cinema e, para isso, vai fundo nos momentos catárticos, seja nas viradas da história ou nas participações especiais - que são muitas e ótimas. O público é colocado diante de um show cinematográfico cheio de estímulos visuais com referências ao que há de mais moderno e futurista na cultura japonesa (tudo muito bonito, por sinal).

    Por incrível que pareça (escrevendo isso do ponto de vista de quem não esperava nenhuma “moral da história”), há, sim, uma mensagem interessante na jornada de Joaninha. Mais do que “sorte de uns, azar de outros”, como o próprio filme coloca, fica o espaço para refletir sobre a perspectiva que temos do que nos acontece ao longo da vida e o que é realmente são os acasos que vivemos - mas eu jurei que terminaria este texto sem nenhuma referência à música Trem-Bala. 

     

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