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    Encanto
    Críticas AdoroCinema
    4,0
    Muito bom
    Encanto

    Você se compara demais às outras pessoas?

    por Aline Pereira

    Encanto é um abraço no coração de muitas formas diferentes - da casa que ganha vida para proteger suas raízes à uma grande história sobre família e autopercepção, A nova animação da Disney arremata um trama doce com a trilha sonora inspirada do indicado ao Oscar Lin-Manuel Miranda, responsável pela trilha sonora de Moana. Ambientado em uma cidade mágica na Colômbia e avançando na representação latina nas telas, a produção tem tudo (talvez seja a única) para disputar com Luca o posto de melhor animação na próxima temporada de premiações.

    Encanto tem como protagonista a jovem Mirabel (cuja voz original é da atriz Stephanie Beatriz, de Brooklyn Nine-Nine), parte da família Madrigal, um clã enorme e mágico que vive em conjunto em uma casa viva - de forma que lembra os objetos encantados do castelo de A Bela e a Fera. Na infância, os membros recebem dons mágicos e únicos, como a habilidade de falar com animais, controlar o clima, entre outras, e são estes poderes o que define as funções de cada um na comunidade. Todos, exceto Mirabel.

    Enquanto vê a mãe, irmãs e primos com dons extraordinários, Mirabel lida com o fato de não se sentir especial por não ter nenhum - uma situação que, não é arriscado dizer, vai tocar facilmente a maioria de nós. É com esta premissa que Encanto ganha o público adulto ao provocar uma reflexão sobre o quanto comparar-se com outras pessoas é um hábito que pode se tornar perigoso - tudo isso ao mesmo tempo em que entretém as crianças com um visual mágico e personagens cativantes.

    O que te torna especial?



    Discussões sobre talentos, propósitos e missões de vida são comuns em obras da ficção não é à toa - não há quem não tenha se questionado, pelo menos uma vez, sobre o que os torna únicos de alguma forma, sobre quais objetivos vale a pena perseguir e quais parecem fora do alcance. Em Encanto, Mirabel é quem puxa essa conversa, com uma camada muito relevante: como não se comparar constantemente com os outros - em especial com seu sucesso - em um sistema que incentiva e recompensa aqueles que se sobressaem, em detrimento daqueles que não se encaixam perfeitamente?


    Aqui, o contraponto vem com as irmãs de Mirabel: uma é dotada de superforça e a outra (que representa o arquétipo clássico de “princesa da Disney” neste desenho) tem o poder de fazer flores surgirem. Podemos pensar nestas duas personagens como representantes de características sempre muito exigidas nas mulheres: feminilidade e resistência inabaláveis, poderes que trazem grandes responsabilidades. Se por um lado, o reforço positivo naturalmente nos alimenta e nos faz sentir validadas, a pressão por mantê-los pode facilmente se transformar em uma vida frustrada e cheia de ansiedade, como as das duas irmãs.


    Cada um dos personagens traz um paralelo com o mundo real através de seus poderes mágicos, mas o mais interessante talvez seja a situação de Bruno, membro da família que aparentemente foi banido e cujo poder, de prever o futuro, ninguém quer falar muito sobre porque sentem que há algo de sombrio nessa habilidade. A família Madrigal rejeita os avisos que Bruno dá sobre o futuro porque nem sempre são positivos. Não querem ser avisados de que algo de ruim pode acontecer e dispensam a “negatividade”. Percebeu?


    Para trazermos esta ideia ao mundo real, podemos refletir, por exemplo, sobre quantos cenários vivemos hoje que vêm sendo uma “tragédia anunciada” há muito tempo - avisos que são constantemente rejeitados e, seus mensageiros, rechaçados. Aliás, não é uma exclusividade do tempo presente: o mesmo acontece, há séculos, àqueles que tentam se informar e informar sua comunidade sobre os caminhos que vêm a seguir - cientistas, líderes, pensadores.


    O lugar de onde você veio diz quem é você?



    Além da percepção individual que temos e da forma como lidamos com nossas falhas e virtudes, a questão familiar é central em Encanto. Os Madrigal são liderados pela Abuela (“avó”, em espanhol), que está conectada à origem da magia. Ao mesmo tempo em que a família pode ser uma fortaleza, um espaço seguro e cheio de amor, também pode significar um lugar de muita pressão, de assuntos mal resolvidos, competição e pouca tolerância. E as duas coisas não apagam uma à outra.


    É ótimo que o filme da Disney não tente pintar a “família” como um conceito inquestionável e composto de pessoas perfeitas, mas sim como um grupo em que a comunicação é fundamental, assim como em qualquer outro. A única forma de realmente conhecer e entender pessoas tão próximas é se abrir para ouvir suas histórias e entender de onde vieram - é assim que Mirabel entende quem ela é, por que é assim e quais caminhos pode tomar. É libertadora a ideia de que nem sempre é preciso agradar, mas que laços verdadeiramente fortes vão muito, muito além disso.


    Trilha-sonora reforça a genialidade de Lin-Manuel Miranda


    Além de Moana, Lin-Manuel Miranda ganhou destaque imenso (e justificado) com a criação do musical Hamilton, na Broadway, e, mais recentemente, Em um Bairro de Nova York, da HBO Max. Não é diferente com Encanto: compositor de uma sensibilidade impressionante, Lin-Manuel tem o “dom mágico” de reunir em canções de poucos minutos ideias complexas, emoções tocantes e, claro, ritmo e letras “chiclete”. 


    Na animação, a trilha-sonora “abrevia” momentos em que o roteiro precisaria se alongar muito, apresentando personagens e situações de forma com a qual é fácil se conectar, entender e, mais importante do que tudo, se deixar levar. Novamente, as irmãs de Mirabel ganham destaque especial: Luisa (Jessica Darrow) e Isabela (Diane Guerrero) têm os melhores números musicais que fazem cair qualquer barreira que poderia existir entre elas e o público, ou entre elas e Mirabel. 


    Em junho de de 2021, a Pixar e Disney lançaram Luca no streaming, a aposta mais certeira para a temporada de premiações de 2022 e que tem grandes méritos técnicos e na forma como transmite sua mensagem, mas Encanto parece trazer uma abordagem mais direta de um tema universal, coroado com músicas viciantes - uma fórmula que já vimos vencer muitas e muitas vezes.


    E sem problema algum com isso: a protagonista nada mais é do que uma pessoa em busca do próprio valor, de sua identidade e que quer pertencer a algum lugar. Mirabel é todo mundo que já se sentiu fora do lugar e que ainda não sabe que é, sim, especial. 

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