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    4x100 - Correndo por um Sonho
    Críticas AdoroCinema
    3,5
    Bom
    4x100 - Correndo por um Sonho

    Mulheres nas Olimpíadas (em um mundo sem Covid-19)

    por Vitória Pratini
    Com a delegação brasileira desembarcando em Tóquio para as Olimpíadas 2021, o esporte está mais uma vez em foco. Para coincidir com a data, está em cartaz nos cinemas 4x100 - Correndo por um Sonho, filme que mostra os bastidores de atletas femininas brasileiras de forma realista, poética e previsível — nada que impeça o espectador de sair com um sorriso no rosto e um quentinho no coração. Exceto, talvez, a realidade nua e crua: o descaso com o esporte nacional, que recebe cada vez menos subsídio e atenção do governo atual.

    4x100 - Correndo por um Sonho acompanha as atletas Adriana (Thalita Carauta) e Maria Lúcia (Fernanda de Freitas) após a derrota no revezamento 4x100 durante os Jogos Olímpicos Rio 2016. Ambientado em dois momentos distintos, o filme segue o time de esportistas tanto no fatídico ano de 2016 quanto em 2021, em preparação para os Jogos em Tóquio. Mas não se engane, a trama é ficcional. Trata-se de um “universo” no qual ninguém cogitava que o mundo iria parar por causa da pandemia do coronavírus. A produção chega a ser utópica, mostrando problemas comuns, aglomerações e um dia a dia pré covid-19, além dos brasileiros como uma pátria unida, ainda com orgulho de uma bandeira verde e amarela (que hoje infelizmente se tornou marco de uma divisão política extremista).

    Filme aposta em representatividade feminina em esportes olímpicos



    Tal como produções norte-americanas de esportes, 4x100 é um filme padrão para o gênero, acompanhando os protagonistas desde as dificuldades até a superação — e a reconciliação do atleta com seus companheiros. Difícil não lembrar, por exemplo, de Menina de Ouro ou Rocky, um Lutador. A diferença aqui é que o cinema brasileiro não costuma explorar produções de drama esportivos, pelo menos de desportos que não sejam o futebol. Ao contrário de ser uma cópia dos filmes estrangeiros, o longa assume uma inspiração associada a elementos bem brasileiros (vide a “mega-sena”).

    Tomas Portella, que também comandou Qualquer Gato Vira-Lata e trabalhou lado a lado a Fernando Meirelles em Ensaio sobre a Cegueira, assina a direção do filme, e mescla muito bem o cinema de arte com elementos do circuito comercial. Fugindo do padrão televisivo, muito visto nas novelas nacionais, o cineasta foca em uma fotografia repleta de detalhes, cores frias, e aposta em cenas imersivas, sufocantes, contemplativas, que representam tanto o luto pela derrota quanto o júbilo pela vitória. Não é algo pioneiro, porém, funciona.

    Roteirizado por um time completo (Carlos Cortez, Caroline Fioratti, Juliana Soares, L.G. Bayão, Mauro Lima e Tomas Portella), o filme por vezes é disruptivo, outras, didático demais. O argumento pincela sobre algumas críticas sociais — como representatividade feminina e machismo no esporte, protagonistas lésbicas, o uso do doping, o desejo de não ter filhos, a comparação de investimento do Brasil e do Japão no atletismo. Além, é claro, do fato de que a mulher branca de classe média, apesar de culpada pela derrota do time, continuou sendo exaltada pela mídia, enquanto a que foge do padrão estético abandonou o esporte.

    Thalita Carauta assume viés dramático e brilha no papel principal



    Thalita Carauta ganhou destaque popular por seu trabalho em Zorra Total, na franquia S.O.S. Mulheres ao Mar e em dose dupla em Duas de Mim, mas prova mais uma vez que tem muito mais a oferecer. Sua atuação como Adriana (ou Dri) é excelente, profunda e verossímil, tanto na representação da perda, da raiva e de se reerguer com o treino “na raça”. Sua dinâmica com a também talentosa Fernanda de Freitas é o que concede emoção à trama.

    Roberta Alonso, Jaciara e Priscila Steinman completam o time das corredoras de forma contida, mas eficaz. Já o comediante Augusto Madeira (Ninguém Tá Olhando) transita bem entre o alívio cômico, o mentor preocupado e o atleta ganancioso.

    4x100 - Correndo por um Sonho traz de volta tanto um patriotismo há muito deixado para trás, quanto um sentimento de estranheza, de que 2016 — apenas cinco anos atrás — aconteceu em outra vida. O filme coloca sob os holofotes a representatividade feminina no esporte e, de quebra, ainda consegue elevar a motivação e a moral e mostrar. Não é à toa que os brasileiros veem no esporte (não só o futebol) sua paixão nacional.

     

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