Por mais que a areia assuste, é no deserto que se revelam os profetas.
Se a Parte Um de Duna era uma promessa (de estética, de atmosfera e de fidelidade literária), a Parte Dois é a cobrança dessa dívida. E Villeneuve, mais uma vez, paga com juros.
Longe de ser uma continuação apenas mais grandiosa, Duna é um segundo ato trágico e necessário, onde o brilho messiânico de Paul Atreides começa a ofuscar os olhos ao redor, inclusive os nossos. Porque aqui, o diretor abandona a ingenuidade de heróis e se afunda na ambiguidade moral, religiosa e política do universo de Herbert.
É um épico onde cada explosão é acompanhada de dúvida. Cada vitória, de um lamento. E cada visão do futuro, de um silêncio desconfortável. Em um mundo onde a água é mais valiosa que o sangue, é fascinante ver como a guerra nunca é apresentada como libertadora, mas como inevitável, suja e profética.
Villeneuve dirige com contenção. Mesmo nas sequências de ação mais imponentes, são de tirar o fôlego. Há uma lentidão calculada, como se o tempo no deserto obedecesse a outro ritmo. O som seco das bombas, os close-ups nos olhos de Paul e Chani, os silêncios entre as falas… tudo evoca não uma fantasia de poder, mas uma tragédia inevitável em câmera lenta.
Timothée Chalamet finalmente se transforma. Se na primeira parte era um herdeiro relutante, aqui se torna algo muito mais perigoso: um líder inevitável e temível. É quando percebemos que Duna não é sobre salvar o mundo, mas sobre como os salvadores podem se tornar maldições com a melhor das intenções.
Zendaya, apesar de eu ter ressalvas à ela como atriz, brilha como Chani. Agora não mais apenas uma visão de sonho, mas uma mulher real, crítica e ferida. Sua atuação traz humanidade ao deserto. Já o elenco de apoio, Javier Bardem, Rebecca Ferguson, Austin Butler, compõe o mosaico de fanáticos, crentes e oportunistas que fazem deste universo algo tão desconfortavelmente atual.
A construção visual continua sendo um triunfo. Os rituais fremen, os duelos no deserto, a cerimônia do verme gigante (que finalmente recompensa os fãs com algo mítico em escala bíblica!), tudo é coreografado com reverência e gradiosidade. E a trilha de Hans Zimmer segue arrebatadora, misturando resquícios tribais e distorções futuristas que parecem sopros de vento de um planeta morto.
Mas talvez o maior mérito do filme seja este. Ele não entrega catarse. O que recebemos não é a paz, mas o peso da vitória. A certeza de que Paul venceu… ao custo de tudo o que o tornava humano. A "jihad" que ele tanto temia se aproxima, e Villeneuve tem coragem de mostrar que o herói que guia o povo pode ser o mesmo que o condena.
Conclusão?
Duna, Parte Dois é cinema de ficção científica com alma de tragédia grega. Não é entretenimento puro, e ainda assim, entretém. Não é aula de história, mas ensina. E, mais do que tudo, não é um conto de salvação, mas, quem sabe, um aviso.
Ao final, o que fica não é o calor das batalhas, mas o frio na espinha. Porque, como em todo deserto, o que mais assusta não é o que vemos, mas o que está por vir.