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    Não Se Preocupe, Querida
    Críticas AdoroCinema
    3,0
    Legal
    Não Se Preocupe, Querida

    O filme que será lembrado pelos bastidores

    por Aline Pereira

    A história de Não Se Preocupe, Querida começou muito antes do lançamento do filme: meses antes da estreia nos cinemas, os nomes da diretora Olivia Wilde e de seus protagonistas, Florence Pugh e Harry Styles, adiantaram o drama que veríamos nas telas - e eu suspeito que esse clima turbulento nos bastidores não tenha sido favorável à recepção do longa no final das contas. Temos uma história que, apesar de navegar na superfície, funciona como um entretenimento carismático, reúne boas atuações e é seguro do que quer, mesmo que suas ambições sejam pouquíssimas.

    Não Se Preocupe, Querida tem como protagonista Alice (Florence Pugh), na figura de uma esposa perfeita para Jack (Harry Styles), com quem vive em uma casa de catálogo de revista em um bairro da década de 1950, dividido com vizinhos igualmente impecáveis. A sinopse já é o bastante para deixar claro que, obviamente, há algo de errado escondido nessa perfeição e o filme nos mostra as falhas desse sistema através da perspectiva de Alice, que começa a experienciar espécies de flashes com memórias confusas.

    A partir daí, o longa vai e vem pelo dia a dia das esposas do bairro, que se ocupam com atividades simples - mas quase mandatórias - enquanto os maridos estão "fazendo algo muito importante". Nenhuma delas parece saber exatamente onde eles estão durante o dia, mas são pressionadas a nunca perguntar sobre detalhes. Tudo isso sob a liderança de outro casal, ainda mais enigmático, formado por Shelley (Gemma Chan) e Frank (Chris Pine), chefe do projeto que está sendo desenvolvido no local.



    Não se Preocupe, Querida realmente não se preocupa com muita coisa

    A principal falha do filme está na falta de detalhes para explorar melhor tanto o desenrolar da história, quanto o desfecho proposto. O dia a dia de Alice, embora seja ilustrado repetidas vezes, não ganha profundidade ao longo do tempo e as suspeitas dela não são progressivas. É como se faltassem peças para ajudar o público a montar esse quebra-cabeça: a trama de Não se Preocupe, Querida seria mais cativante se as pistas sobre o segredo mantido ali fossem pontuadas de forma mais gradual, mas, em vez disso, a cineasta Olivia Wilde pula muito diretamente do “despertar” de Alice para sua revelação e a jornada não importa tanto.

    São poucos os momentos em que o universo daquela comunidade é expandido - há uma personagem, por exemplo, que está sofrendo retaliações do próprio sistema, e é uma pena que o longa não se aprofunde na relação entre ela e Alice. Não parece natural que a protagonista, tão desconfiada de sua própria realidade, não tente investigar o mistério com mais afinco e nem explore os diversos recursos que estão em seu dia a dia, como o próprio marido, as vizinhas e os outros moradores do bairro, que claramente têm mais informações que poderiam úteis para ela.

    Reviravolta do filme surpreende

    Sem dar ao público peças o suficiente para entender realmente o que está por trás do universo apresentado no filme, acaba que Não Se Preocupe, Querida tem uma uma reviravolta surpreendente. Ainda que as poucas descobertas de Alice ao longo da história dêem uma noção geral do que vamos descobrir mais adiante, os detalhes são indecifráveis e não há nada na trama que nos leve até eles de forma consistente.



    Com todas as ressalvas feitas - e por mais estranho que possa parecer -, a reviravolta do filme de Olivia Wilde não é frustrante. A história e o contexto apresentados na resolução do mistério fazem sentido e os poucos detalhes explorados são interessantes. De novo, o longa poderia se beneficiar de uma atenção maior a todas as partes que compõem o final da história, certamente havia muito o que ser aprofundado e a vontade é realmente de saber mais sobre.

    Não Se Preocupe, Querida tem personalidade nos visuais e na atuação

    Em 2019, Olivia Wilde comandou o excelente Fora de Série e mostrou personalidade em seu estilo de direção de atores e na visão estética. Não é diferente com Não Se Preocupe, Querida e estes talvez sejam os pontos mais fortes do filme, especialmente no que diz respeito à ilustração dos episódios paranoicos de Alice e nas inserções mais abstratas.

    O visual dos anos 50 já é muito característico por si só, mas as escolhas visuais tornam a vizinhança de Alice e Jack tão encantadora quanto aterrorizante em uma perfeição que sufoca. A obsessão pela ordem faz parte da trama do filme e esse aspecto fica evidente no visual da escolha e, mais do que isso, se torna uma parte “viva” do que está sendo contado e das sensações pelas quais a protagonista passa. 

    Em termos de atuação, Florence Pugh ganha mais um trabalho de destaque para sua carreira, que deixa clara a versatilidade já apresentada em obras que vão de Lady Macbeth à Viúva Negra. Em seguida, o grande destaque fica com Chris Pine: como líder dos homens que moram no bairro, o ator de Mulher-Maravilha se sai bem como uma figura assustadora cujos feitos assustadores nunca são realmente vistos - é preciso que acreditemos na “aura” dele. Funciona, mas fica também a sensação de que Pine poderia ir muito além se tivesse mais tempo para explorar as camadas de seu personagem.



    A estreia de Harry Styles como protagonista também foi motivo de burburinho antes do filme: elogiado pela participação menor em Dunkirk, Não Se Preocupe, Querida apresentou ao cantor um desafio muito maior e que foi cumprido sem grandes deslizes. Ainda que a pouca experiência fique clara, especialmente se comparada à intensidade de Florence Pugh, Harry faz o que seu personagem pede, que não é muito.

    Não Se Preocupe, Querida é um filme muito impactado por todo o drama que o precedeu e trouxe uma atenção que não corresponde às expectativas. A reflexão sobre machismo e silenciamento feminino que a diretora Olivia Wilde coloca no filme parecem muito atrasadas porque as discussões sobre o assunto já estão à frente da mensagem “básica” que a história traz.

    Em 2022, é fundamental que o debate sobre feminismo leve em consideração alguns recortes (como raça e classe social, por exemplo) para abarcar a complexidade de um tema desgastado por questões que se repetem sem a profundidade necessária para incluir mais pessoas à discussão. Se por um lado, dizer o óbvio ainda seja importante, por outro, uma obra com alcance tão grande se tornaria mais relevante se puxasse mais camadas para cima.

    Não Se Preocupe, Querida, não é um filme ruim e consegue entreter, mas será muito mais lembrado pelos bastidores do que como obra cinematográfica.

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