A adaptação cinematográfica de Duna, dividida por Denis Villeneuve em duas partes, é uma obra-prima moderna que fez jus à complexidade e à grandiosidade do material original. Mas é preciso reconhecer que com orçamento praticamente ilimitado, elenco de peso, direção competente e liberdade criativa, o impossível ficou um pouco mais fácil. Mesmo assim, Villeneuve não apenas fez, ele entendeu Herbert. Esse é o maior mérito da adaptação.
A Parte 1 foca nos eventos iniciais do livro. A transferência dos Atreides para Arrakis, os conflitos políticos velados (e não tão velados), e o início da jornada de Paul. Villeneuve opta por uma abordagem estética, lenta e meditativa, respeitando o ritmo do livro, que nunca foi de ação frenética, mas de tensão contida.
O que o diretor acerta em cheio é a visualização da geografia e da cultura. O planeta Arrakis, com seus desertos intermináveis, vestimentas tradicionais, rituais, linguagem e espiritualidade, é uma representação quase direta do Oriente Médio, como se bem percebe. Desde os trajes dos Fremen, que lembram beduínos, até o conceito de jihad, a influência árabe e islâmica é parte integral no livro e na tela.
A obra amplifica isso com recursos visuais e sonoros. A trilha sonora de Hans Zimmer incorpora vocalizações tribais, percussões secas e uma tensão constante que ecoa as atmosferas do deserto. É uma espiritualidade tecnológica onde misticismo e ciência não se opõem, mas se complementam.