Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho são uma boa dupla no universo vibrante e enigmático de O Agente Secreto
por Aline Pereira“É difícil ser chamado por outro nome”, diz um personagem de O Agente Secreto em um momento que considero simbólico para a trama escrita e dirigida por Kleber Mendonça Filho. Registros e lembranças são assuntos recorrentes na filmografia do cineasta – tema principal, aliás, de seu longa anterior a este, Retratos Fantasmas –, mas no suspense (suspense?) estrelado por Wagner Moura, estes dois tópicos formam aliança com um terceiro tema importante: a memória da identidade. De pessoas, lugares, acontecimentos. Da importância de saber quem foram as pessoas, quais foram os lugares e que acontecimentos foram esses.
O início de O Agente Secreto nos apresenta ao pesquisador Marcelo (Wagner Moura), de cara, em uma situação de choque moral, ético e político enquanto está a caminho da cidade de Recife, em Pernambuco, em meio a uma semana de carnaval. Ele se torna alvo de uma perseguição, mas quais as intenções da mudança e o real perigo que ele corre são alguns dos enigmas que nos acompanham e se desenrolam para o público ao longo da história – e por isso, é claro, prefiro deixar de fora os detalhes do mistério.
Ambientado, na maior parte, em 1977, período de ditadura militar no Brasil, o filme de Kleber Mendonça faz paralelos diretos e indiretos com o presente em uma trama cheia de interesses escondidos, injustiças e investigações. Enquanto busca refúgio na cidade, Marcelo também está em busca de informações sobre sua mãe e, em um outro tempo, registros sobre a vida dele também reforçam uma mensagem de que, em cima de outras tantas tragédias, ter parte da História perdida e esquecida também é um mal profundo.
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A trama é dividida em capítulos e, de forma geral, o clima me trouxe sensação de faroeste, graças, sobretudo, às paisagens áridas em alguns momentos e à brutalidade dos personagens durões, divididos entre autoridades e matadores. Junto a isso, é ótima a escolha estética: temos um visual vibrante, que torna o universo de O Agente Secreto vívido e envolvente. A filmagem em câmeras Panavision aliada à direção de arte – e penso que com um toque certeiro da trilha sonora também – dão uma veracidade deliciosa ao ambiente.
No desenrolar da história, os momentos de suspense se misturam ao drama e à comédia em uma teia com a qual Kleber Mendonça Filho parece confiante. Foi uma sensação parecida com a que tive também assistindo a Bacurau, em 2019, aliás, com os pulos entre o mundano e fantástico.
Aliás, é justamente no aspecto fantástico que está a personalidade mais interessante dessa história: retornando com carinho à terra-natal, como de costume, o diretor nos traz bons elementos culturais e folclóricos – a “perna cabeluda”, por exemplo, tem tudo para se tornar uma imagem marcante em nosso cinema a partir de agora (tomara!). Há uma mistura entre o real e o absurdo que fizeram um bom trabalho em me manter conectada àquela ficção – mesmo nos momentos em que senti o ritmo cair.
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À esta altura, o talento (e o charme. E o carisma sem esforço) de Wagner Moura é fato estabelecido e o ator faz um protagonista cativante: apesar de já ter uma ligação com a cidade, fica também a sensação da chegada de um clássico forasteiro, descobrindo e se envolvendo com as pessoas do local até se tornar parte do grupo.
Marcelo é melancólico e gentil quando precisa ser, mas também é ágil e sorrateiro. Uma combinação de características que se aproveita da versatilidade de Wagner Moura para se fazer natural. É um ótimo trabalho e digo que não surpreende mais no sentido de que não há uma “transformação” drástica no estilo no ator, como vimos, por exemplo, em seus papéis em Tropa de Elite, Saneamento Básico e Ó, Paí, Ó.
Agora, a surpresa vem mesmo com a especular Tânia Maria, atriz potiguar de 78 anos que interpreta Dona Sebastiana, personagem que recebe Marcelo na cidade. Ela é brilhante. Temos uma senhora despachada e tão autêntica que é impossível não simpatizar logo de cara, uma vez que é ela a principal responsável pelo toque de solidariedade e acolhimento na trajetória bruta do protagonista. E tudo fica ainda melhor com a informação de que ela é relativamente iniciante na carreira de atriz e, antes, trabalhava como artesã.
Victor Jucá
Assim como em seu filme anterior, Retratos Fantasmas, a sétima arte é uma personagem á parte, que ajuda a contar a história de O Agente Secreto. Tendo o tradicional Cinema São Luiz, na capital pernambucana, como cenário emblemático, o longa ainda traz referências a clássicos como Tubarão.
O blockbuster de Steven Spielberg aparece em uma conexão peculiar com a história – e é melhor deixar os detalhes sobre isso a serem descobertos na sessão –, mas é interessante a ligação entre o terror do monstro hollywoodiano e o lado mais obscuro de O Agente Secreto. “Pesadelo eu já tenho sempre”, justifica a criança do filme ao ser proibida de assistir Tubarão no cinema. Bem, não é melhor, então, encarar o monstro de uma vez? É por esse caminho que as referências ao próprio cinema me levam: entender a ficção também é uma forma de encarar a realidade.
São diversos outros momentos em que o ambiente do cinema aparece em O Agente Secreto e, acompanhando a obra de Kleber Mendonça Filho, fica claro, novamente, como o cineasta se coloca como parte intrínseca de sua obra. Os lugares por onde passou, suas memórias e sua posição no mundo, lógico, aparecem de forma contundente e confiante.
Um ano após a edição do Oscar que tornou Ainda Estou Aqui um marco no cinema brasileiro, a escolha de O Agente Secreto como representante brasileiro para o Oscar 2026 (ainda como concorrente à vaga na categoria de Melhor Filme Internacional no momento da publicação deste texto), chama comparações, mas não consigo encontrar elementos efetivamente similares entre um e outro, com exceção do período histórico em que as duas histórias são contadas. Nossa identidade é única, mas também é ampla e diversa e, a esse reconhecimento, cabe melhor um momento especial de celebração do cinema brasileiro.