O Drama
Críticas AdoroCinema
4,0
Muito bom
O Drama

Zendaya e Robert Pattinson provam que poucas coisas são mais irresistíveis do que um bom drama

por Aline Pereira

São poucos os prazeres simples da vida capazes de nos capturar e entreter de forma tão eficiente quanto um bom drama, uma fofoca das boas mesmo que não tenha nada a ver com a gente, nos permita observar de fora - e que, no fim, deixa a sensação de “ainda bem que não é comigo”.

É isso o que O Drama, estrelado por Zendaya e Robert Pattinson, evoca logo de cara e, partindo de uma crise conjugal, oferece uma trama cativante e surpreendente sobre o que há de mais humano em qualquer tipo de relação interpessoal (nas amorosas, talvez, sobretudo): a abismal diferença entre quem gostaríamos que a outra pessoa fosse e quem, de fato, ela é e quem ela foi antes.

Em O Drama, acompanhamos os preparativos para o casamento entre Emma (Zendaya) e Charlie (Robert Pattinson), uma dupla apaixonada que vê a harmonia do relacionamento rolar ladeira abaixo quando um segredo do passado vem à tona inesperadamente. O segredo em questão é o ponto de partida tanto para o desenrolar da história, quanto para a reflexão mais interessante que se propõe, então, é claro, não serei eu a revelá-lo por aqui.

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Temos, aliás, o tipo de filme que, quanto menos você souber sobre antes de assistir, melhor. Ao menos, foi assim que me senti: os trailers de divulgação que havia visto até então nunca deixaram claro sobre o quê, exatamente, se trataria a história e esta escolha criativa um pouco irritante me recompensou com um bom espaço para ser surpreendida. A ideia “um grande segredo” sendo exposto é mais do que comum na ficção, mas normalmente o que se segue é algum tipo de reviravolta gigantesca e barulhenta. Não é esse o caso aqui.

Em O Drama, a informação que vem à tona entre o casal é impossível de ser prevista por ser muito específica e isso é encantador no sentido de que nos obriga a confrontá-la no mesmo grau de surpresa e confusão dos personagens. Surge, então, uma conexão e um interesse mais natural pelo desenrolar do processo.

Essa sensação de confusão, aliás, faz sentido ao dar uma olhada rápida para a filmografia do diretor norueguês Kristoffer Borgli, cujos últimos lançamentos são Doente de Mim Mesma (2022) e O Homem dos Sonhos (2023), com Nicolas Cage – duas boas histórias, aliás, que também exploram a estranheza e o desconforto que aparecem em seu filme de 2026.

Zendaya e Robert Pattinson têm uma química estranha (e isso é ótimo)

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Ao apresentar a história do casal partindo do primeiro encontro, O Drama deixa uma vibe esquisita no ar, um sentimento de que tem mesmo alguma coisinha estranha entre aqueles dois. Zendaya e Robert Pattinson entenderam perfeitamente a proposta do roteiro e criaram em tela uma dupla que se dá bem na tarefa de transmitir para quem assiste uma espécie de desconforto vinda do desencaixe que os dois sentem e que se intensifica ao longo da história.

A química entre os atores passa longe do clima de filmes de romance e o resultado é um trabalho que parece autêntico, com a mais do que bem-vinda sensação de que não são artistas atuando, mas pessoas vivendo suas vidas – um desafio particularmente difícil com dois artistas tão midiáticos e conhecidos. Mais do que o impulso imediato de torcer para algum tipo de “felizes para sempre”, a dinâmica entre Charlie e Emma nos convoca à pergunta do “como”: Como esse casamento pode dar certo? Como vão conseguir lidar com essa nova informação? Como EU lidaria?

O quanto você conhece as pessoas que estão sempre com você?

Precisar se desapegar e se desfazer da ideia que tínhamos de uma pessoa importante em nossa vida é sempre um drama e aqui, sinto que é onde está o X da questão. O segredo revelado na trama muda a percepção que um dos membros do casal tem do outro de forma definitiva e aparentemente irreversível. A partir daí, existe uma espécie de luto - em todas as suas fases - ao aceitar uma nova realidade em que a versão da pessoa que amamos já não existe mais.

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Pensando melhor, aliás, talvez não seja exatamente uma questão de não existir mais, mas talvez de que nunca tenha existido. A gente só não sabia ainda. A informação do passado que surge entre Charlie e Emma afeta profundamente o presente e coloca em xeque o futuro em um dilema dolorido que envolve uma verdadeira ginástica mental para acomodar uma nova realidade dentro dos planos que já estavam feitos. E, às vezes, isso parece impossível.

Os dois protagonistas são bem elaborados nesse sentido e são justamente as boas nuances que tornam o longa tão interessante e surpreendente até na forma como escolhe surpreender sua audiência. O julgamento (dos personagens e o nosso) ao descobrir o tal segredo é inevitável, mas a argumentação da trama instiga nossa sensibilidade e reflexão ao apresentar, gradualmente, uma série de elementos que se empilham sobre uma verdade obscura. Assim como o casal vive um dilema, o público também é desafiado a “tomar partido”.

O Drama nos lembra que são diversos e inesperados os acontecimentos na vida de um casal que podem quebrar a dinâmica e, em especial, a confiança, mas abrir mão de um futuro que estava praticamente certo é uma missão dolorosa e sensível para a maioria das pessoas. Quando nos habituamos à presença de um companheiro, a ideia de precisar colocar fim é delicada - e o esforço para manter a rotina pode ser enlouquecedor.

Com a boa direção e roteiro de Kristoffer Borgli, que inclui ainda uma marca visual cheia de personalidade e estilo, Zendaya e Robert Pattinson são acompanhados por um bom grupo de coadjuvantes liderado pelos carismáticos Alana Haim e Mamoudou Athie em momentos tão sutis, quanto dramáticos que ilustram o caos que a incerteza, a surpresa e a quebra de expectativas em relação a uma outra pessoa podem representar em nossa vida. Quando Emma questiona Charlie se “podemos começar de novo?”, uma proposta difícil também é feita para quem assiste.

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