O detalhe angustiante das filmagens de O Iluminado que levou a atriz principal à beira da loucura
por Ana Pilato

Shelley Duvall passou mais de um ano interpretando uma mulher aterrorizada dentro do Hotel Overlook. Para conseguir isso, Stanley Kubrick a fez repetir uma cena dezenas de vezes.

>

Stanley Kubrick nunca teve fama de ser um diretor que aceitava algo simplesmente porque tinha ficado ok. Em 2001: Uma Odisséia no Espaço, Laranja Mecânica e De Olhos Bem Fechados, ele levou seu perfeccionismo até filmagens especialmente longas, repetindo movimentos, diálogos e pequenos gestos até encontrar exatamente aquilo que procurava. O Iluminado levou isso a outro nível: Jack Nicholson tinha que se transformar lentamente em um homem disposto a assassinar a própria família, enquanto Shelley Duvall passava boa parte do filme fugindo, gritando e tentando proteger o filho. Para ela, manter esse nível de medo durante meses acabou se tornando um dos trabalhos mais exaustivos de toda a sua carreira.

A cena que precisou de 148 tomadas

O que está perfeitamente documentado é a obsessão de Kubrick por repetir tomadas: o Livro dos Recordes reconhece oficialmente 148 tentativas para a cena em que Hallorann explica a Danny o que significa "o iluminado". Além disso, na cena em que Jack começa a seguir Wendy pelo enorme salão do hotel e ela recua pelas escadas segurando um taco de beisebol, estima-se 127 tentativas.

Seja qual for o número exato, a exigência física é fácil de imaginar. Duvall devia andar de costas por uma escada, balançar o taco, lembrar seu diálogo e manter um estado de pânico autêntico tomada após tomada. Quando a versão que vemos finalmente ficou pronta, o cansaço em seu rosto ajudou a torná-la uma das cenas mais incômodas do filme.

Shelley Duvall chegou a chorar durante 12 horas por dia

A própria atriz foi bastante clara quando falou sobre a filmagem. Em uma entrevista com Roger Ebert, ela lembrou que, durante os últimos meses de produção, podia passar até 12 horas por dia chorando, cinco ou seis dias por semana. "Jack tinha que estar louco e furioso o tempo todo, e minha personagem tinha que chorar", explicou ao descrever uma experiência que qualificou como quase insuportável.

Ela também contou à revista People em 1981 que houve semanas inteiras em que as jornadas eram construídas ao redor do choro. "Nunca mais me entregarei tanto assim. Se você quer entrar na dor e chamar isso de arte, vá em frente, mas não comigo", disse na época. As filmagens, pensadas originalmente para durar alguns meses, acabaram se estendendo por cerca de 13 meses.

Relatos diversos apontam ainda que aquele estresse teve consequências físicas visíveis. Duvall sofreu episódios de exaustão, chegou a ter queda de cabelo e algumas jornadas a deixaram desidratada após horas chorando e gritando. Ela mesma lembrou anos depois como seu corpo começava a "se rebelar" ao saber que teria que voltar a chorar desde a primeira hora da manhã.

Boa parte do que sabemos pode ser visto em Making The Shining, documentário filmado por Vivian Kubrick, filha do diretor. Duvall aparece jogada no chão entre as tomadas, falando do cansaço e mostrando tufos de cabelo que haviam se soltado. Também é possível ver Kubrick pressionando-a para continuar e pedindo à equipe que não demonstrasse muita simpatia enquanto preparavam algumas cenas.

Com o passar dos anos, Wendy Torrance se tornou uma das personagens mais reconhecíveis do terror. Seu rosto aterrorizado diante de Jack Nicholson aparece em praticamente qualquer conversa sobre O Iluminado.

Ana Pilato
-Redatora
Fanática por filmes e séries, Ana possui um acervo de informações aleatórias sobre cultura pop e gosta de encarar câmeras imaginárias como se estivesse em Fleabag ou The Office.
facebook Tweet
Leia também