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    Cine Ceará 2019: Forte produção cearense de curtas-metragens debate sexualidade e cinema de gênero
    Por Bruno Carmelo — 4 de set. de 2019 às 19:30
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    Um novo olhar ao corpo e aos espaços urbanos.

    Antes mesmo de a mostra competitiva do 29º Cine Ceará - Festival Ibero-Americano de Cinema apresentar seus primeiros curtas-metragens, a mostra Olhar do Ceará exibiu uma série de curtas-metragens de alto nível no Centro Cultural Dragão do Mar, fruto de uma curadoria coesa e atenta à linguagem da juventude local, sobretudo nos espaços urbanos.

    Abaixo, seguem breves comentários sobre os filmes vistos: 


    Procura-se Willian

    Um dos filmes mais interessantes até o momento foi Onde a Cidade É Comida, Saudade é Fome, de Willian Silveira. O diretor concebe uma representação pela ausência da busca por Willian, através de uma voz off, enquanto as imagens apresentam objetos e cenas aparentemente desconexas pela cidade.

    O tom comovente e muito bem dirigido das narrações, junto da textura em VHS da imagem, conferem um caráter afetivo ao projeto. O diretor surpreende pelo rico agenciamento de imagens, tanto no ritmo quanto nas soluções encontradas para retratar, por exemplo, a perda de um avô sem nenhum familiar presente nas imagens. Um projeto conciso e muito bem desenvolvido dentro de sua proposta estética e narrativa.

    Esse peixe é seu?

    Oceano, dirigido por Amanda Pontes e Michelline Helena, acompanha um dia na vida de Lúcia (Samya de Lavor, sempre excelente em cena). Misturando as regras do road movie com as amarras da imobilidade, o roteiro apresenta uma série de imprevistos que não apenas adiam a chegada, mas também forçam Lúcia a encontrar novas pessoas e mesmo animais - vide a ótima metáfora cômica do peixe que ela é obrigada a carregar por todos os lados.

    O curta-metragem é muito bem montado, transparecendo o cuidado na direção de fotografia e direção de arte. Cenas como a trajetória de Lúcia sobre um mototáxi, com delicada trilha sonora enquanto o sol se põe, revela o olhar seguro das diretoras. Remete, de certo modo, aos trabalhos de Fernando Eimbcke, porém adaptado à realidade nordestina.

    Fora, gente careta!

    Iracema Mon Amour, dirigido por César Teixeira, segue um grupo de amigos durante uma festa à beira da praia. Eles se encontram, se separam, beijam algumas bocas e depois outras, sem distinção de gênero. A noite se desenvolve de modo inconsequente, leve, como se não houvesse amanhã. 

    O aspecto mais interessante do projeto é a forma perfeitamente coerente encontrada pelo diretor, com uma câmera livre, porém clara em seu foco narrativo, em conjunção com atuações muito confortáveis e seguras do quarteto de atores centrais. É fácil acreditar naqueles jovens e na verossimilhança daquela noite. Quando xingam os vizinhos observando as carícias do grupo na praia, é todo um sistema patriarcal e de controle dos corpos que é repudiado, ali mesmo, fora do enquadramento.

    "Triste e com tesão"

    O Bando Sagrado, de Breno Baptista, segue a linha de jovens cineastas homossexuais que colocam em cena o próprio corpo para representar a liberdade da sexualidade e o despojamento de amarras no que diz respeito à representação do sexo. Este tipo de abordagem explícita e confessional sempre caminha numa linha tênue entre a humildade e o egocentrismo.

    Pelo menos, o diretor equilibra o cinema-selfie com um resgate da Banda Sagrada de Tebas, um exército de guerreiros gays cuja força seria justamente o amor uns pelos outros, que os motivaria a lutar com maior intensidade. A conversão da homossexualidade em símbolo de força e virilidade é certamente muito interessante, contribuindo a equilibrar o retrato menos inventivo sobre a solidão do jovem gay de classe média.

    Querido diário

    Originário do Peru, o diretor Nilo Rivas narra sua mudança para o Brasil em Hoje Teci Imagens que me Habitam Há Muito Tempo, evocação em primeira pessoa de memórias, encontros na faculdade, descoberta do amor no Brasil, festas com os amigos etc.

    O diretor utiliza as telas múltiplas, a textura do celular e das fotos caseiras, para propor um mosaico entre a sinceridade da confissão e a ficcionalização de si próprio. Talvez seja um trabalho pouco questionador em termos de linguagem, mas sua capacidade de captar um ritmo e estilo ultra contemporâneo para falar de si próprio dialogou muito bem com a plateia, que reagia bem aos momentos cômicos e românticos do projeto. Esta foi possivelmente a proposta mais acessível entre os curtas-metragens selecionados.

    Aquele namorado

    A propósito de curtas-metragens com temática LGBTQI+, Revoada, de Victor Costa Lopes, se destaca ao retratar não a descoberta de um amor entre dois adolescentes, e sim a lembrança depois que o relacionamento terminou. Equilibrando imagens em flashback com a narração em off sobre o período presente, pós-ruptura, o filme oferece um interessante olhar acerca da construção da memória.

    Além disso, impressiona pelo refinamento da produção: existe evidente cuidado no uso da profundidade de campo reduzida, das luzes da cidade, no ritmo contemplativo das cenas. Os atores estão muito bem dirigidos na entrega dos diálogos cotidianos. Um projeto que não confunde simplicidade com desleixo, dedicando o bom trabalho técnico a encontrar o caráter especial da banalidade.

    Me chama de Márcia

    O documentário Deusa Olímpica, dirigido por Emília Schramm, Jessika Barbosa, Pedro Luis Viana e Rafael Brasileiro, retrata a trajetória da pintora e escultora transexual Márcia Mendonça, especializada em arte sacra.

    Os diretores optam por diversos recursos de linguagem diferentes, desde as entrevistas com membros da família até imagens com fragmentos das obras de Márcia e trechos de uma incômoda reportagem na qual o entrevistador fetichiza o corpo trans e ironiza a religiosidade da mulher. A captação das entrevistas carece de cuidado na captação de som e no trabalho de luz, mas o resultado final é uma bela evocação da artista por sua obra e sua história. 

    Não me chama de pai

    Misturando gravações em 16mm e 8mm, com imagens experimentais e texturas caseiras, A Primeira Foto evoca a dolorosa infância do diretor Tiago Pedro, fruto de um relacionamento secreto entre uma empregada doméstica e o patrão da casa onde ela trabalhava. O cineasta evoca com pesar e melancolia esta história de violência, culminando no momento em que o pai proíbe o filho bastardo de chamá-lo de pai em público.

    É interessante o curta busque imagens metafóricas ao invés de retratos mais figurativos, permitindo que o espectador projete sua própria imaginação no relato. O tom excessivamente vagaroso da narração, combinado com a duração de trinta minutos, torna a experiência cansativa, porém eficaz em sua evocação de uma imagem-fantasma, uma representação da memória afetiva.

    A assustadora sala de cinema

    Esther Arruda e Pedro Ulee dirigem A Mulher da Pele Azul, alusão a uma lenda urbana da bailarina fantasma, vestida em colã azul, que teria assombrado os frequentadores do Theatro José de Alencar. O projeto efetua uma brincadeira interessante entre o mockumentary e o estudo dos nossos medos, dando voz tanto a estudantes-personagens que teriam visto a assombração quanto a entrevistados discursando sobre a natureza dos medos.

    Além disso, o roteiro retoma algo essencial à origem do cinema: a noção de que uma própria sala escura, onde anônimos se sentam lado a lado, pudesse ser algo assombroso e imoral. Em termos de construção de imagem, o tom das entrevistas esbanja naturalidade, enquanto os desfoques e sombras utilizados na construção da bailarina se revelam bastante eficazes na construção de suspense.

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