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    Cine Ceará 2019: Carol Duarte e Júlia Stockler explicam por que A Vida Invisível é "um melodrama popular, mas não um filme fácil" (Exclusivo)
    Por Bruno Carmelo — 03/09/2019 às 10:46
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    O filme de Karim Aïnouz foi escolhido para representar o Brasil na corrida pelo Oscar 2020.

    O belo trabalho de Carol DuarteJúlia Stockler em A Vida Invisível, elogiado desde a primeira exibição no Festival de Cannes, foi novamente aplaudido durante o 29º Cine Ceará - Festival Ibero-Americano de Cinema.

    Elas interpretam Eurídice e Guida Gusmão, duas irmãs que seguem caminhos muito diferentes no Rio de Janeiro dos anos 1950. Enquanto uma foge de casa para viver um romance proibido, a outra aceita se casar com o homem que não ama, limitando as ambições de se tornar pianista profissional para viver como dona de casa.

    Quando se perdem de vista, continuam a se buscar pelo resto da vida, trocando cartas que talvez nunca cheguem ao destinatário. O excelente melodrama tropical do diretor Karim Aïnouz vai representar o Brasil na corrida pelo Oscar de melhor filme internacional em 2020. (Leia a nossa crítica). O AdoroCinema conversou com Duarte e Stockler sobre o projeto, que chega aos cinemas nordestinos dia 19 de setembro:


    Rogério Resende / Cine Ceará / Divulgação
    Júlia Stockler (à esquerda) e Carol Duarte (à direita) com o diretor Karim Aïnouz (ao centro) no 29º Cine Ceará.

    As cartas escritas e narradas se tornam uma personagem fundamental na história. Como criaram estas cenas?

    Carol Duarte: Durante o processo de criação das personagens, a gente escreveu muitas cartas uma para a outra. Então já desenvolvemos o hábito das cartas no nosso corpo ao longo do processo.

    Júlia Stockler: Além disso, essas cartas foram reescritas milhões de vezes até o último momento da montagem do filme. Eu mandei diversas cartas para a montadora, por áudio do celular. Elas foram reescritas, remontadas. Este processo foi muito apurado, porque as cartas são um personagem essencial para fazer a travessia entre a Guida e a Eurídice. Essas cartas muito ensaiadas durante muito tempo pelo Karim e pela Nina Kopko (assistente de direção). Cada palavra e intenção foi ensaiada e discutida.

    Carol Duarte: Eu também passei pelo mesmo processo. Em algumas cartas que gravei, a edição acabou retirando certos trechos.

    Júlia Stockler: Foi lindo, na abertura do Cine Ceará, ver a Fernanda Montenegro lendo a carta que recebeu do Karim ao convidá-la a atuar no filme. As cartas não têm o mesmo valor hoje, todo mundo manda mensagens e e-mails. É bonito o fator de época.

    Carol Duarte: Seria lindo receber uma carta hoje em dia, escrita à mão. O valor é outro.

    O filme faz vários saltos temporais, pulando anos para construir o futuro de Eurídice e Guida. De que maneira construíram o que se não enxerga nessas "vidas invisíveis"? 

    Júlia Stockler: Existiu um trabalho de diário particular de cada uma de nós durante o ensaio. A gente escreveu muito sobre o que aconteceu antes com essas meninas. Eu escrevi o que aconteceu com ela na Grécia, como teria sido a experiência com aquele homem por lá. Mas é importante frisar que o trabalho com o Karim não é muito racional, então a gente não se focou tanto nesses hiatos. Trabalhamos a relação física e emocional entre essas personagens, além das demandas circunstanciais de cada cena. Deixamos fluir.

    Carol Duarte: É muito interessante pensar no que não está visível no filme, porque isso representou o nosso principal desafio antes de filmar. Eu ainda não conhecia a Júlia, mas a gente precisava construir uma relação muito profunda para dar conta do peso da ausência no filme, para tornar essa falta um elemento presente. Esses diários pessoais foram muito importantes nisso. Eu tenho um caderno inteiro de memórias, que inclusive utilizamos durante o processo de ensaios, com episódios sobre a relação das duas irmãs.

    Júlia Stockler: Você se lembra da cena que criamos sobre as duas irmãs dentro do quarto, quando crianças?

    Carol Duarte: Lembro! Essas memórias existem, e os hiatos também. Quando a Eurídice aparece na narrativa depois de cinco anos, com uma filha grande, eu sabia o que tinha acontecido naquele período. Eu conhecia os pontos de transformação que a gente precisava criar para a Eurídice. Foi um processo enriquecedor de construção.

    Divulgação

    Eurídice e Guida são silenciadas em boa parte do filme. Muitas das reações delas passam pelo corpo, às vezes em cenas violentas, inclusive de sexo. 

    Júlia Stockler: As duas personagens têm travessias muito diferentes no que diz respeito ao corpo e ao sexo. No caso da Guida, ela tem uma cena de sexo em que a situação é comandada por ela. A personagem possui uma força feminina muito ativa. Mas as duas passam por transformações gestacionais, o que gera um grande impacto na vida de qualquer mulher, em qualquer idade. Para a Eurídice, a relação com o corpo é diferente.

    Carol Duarte: O Karim pediu para eu engordar um pouco. A Eurídice tinha uma postura particular, com as costas meio arqueadas, voltadas sobre si mesma, como a postura de ficar muito tempo ao piano e se dedicar tanto à música. O corpo da Eurídice se torna cada vez mais curvado. Já a Guida conhece muito melhor o próprio corpo. No início do filme, inclusive, a Guida conta à irmã mais nova uma experiência sexual que teve, e isso deixa a Eurídice tanto chocada quanto curiosa. A Eurídice não conhecia o próprio prazer, nem tinha contato com outros corpos. É interessante pensar nestes dois corpos femininos: um deles parte para o mundo, o outro permanece, mas ambos são violentados.

    Curiosamente, Karim Aïnouz fez um de seus filmes de maior vocação popular na época em que se constrói uma imagem negativa das produções e dos artistas brasileiros. 

    Carol Duarte: Estamos vivendo um momento muito importante do cinema brasileiro, com diversos filmes excelentes sendo produzidos e ganhando prêmios internacionalmente. Por isso, eu me sinto muito honrada de participar deste filme tão atual, mesmo que represente a década de 1950. O melodrama traz um apelo mais popular, mas também não considero que A Vida Invisível seja um filme fácil. Ninguém vai sair da sessão alegre e contente. O que mais temos afirmado nos últimos tempos tem sido a importância do nosso cinema fora do país, e também aqui dentro. O desmonte da cultura é um fato, assim como o desmonte da Amazônia e da educação também são fatos. Mas a cultura possui uma luz, uma capacidade de se tornar porta-voz do que está acontecendo no Brasil no momento. É um privilégio participar de um filme que, em 2019, traga uma mensagem tão potente.

    Divulgação

    Karim Aïnouz disse que várias cenas foram improvisadas entre vocês. O que trouxeram ao filme que não existia no texto original? 

    Júlia Stockler: Foram muitos momentos. A cena em que as duas dançam, por exemplo, não existia no roteiro. Aquilo era apenas um teste de câmera. Na verdade, o texto foi muito improvisado. A gente tinha um esqueleto das cenas, além do roteiro que já era muito bom, mas o Karim queria que as intenções viessem de dentro da gente. Às vezes ele mandava uma cena nova à meia-noite para a gente decorar a gravar às cinco horas da manhã do dia seguinte. Isso tornava o processo orgânico.

    Carol Duarte: Ao mesmo tempo em que deixamos o roteiro de lado, antes nós trabalhamos muito em cima do texto. Então o roteiro já estava na gente. Às vezes a gente reproduzia as palavras idênticas do roteiro mesmo sem ler, porque as palavras carregam um peso, elas são o transbordamento daquelas pessoas. As duas estavam tão imersas no processo que as palavras apenas vinham. Eu quase não gravei com a Júlia, porque as nossas cenas eram distintas, e as personagens não se encontravam. Ela gravava de um lado, e eu, de outro.

    Júlia Stockler: A gente só se reuniu de fato durante a exibição no Festival de Cannes!

    Carol Duarte: Eram poucas cenas juntas. Mas depois, quando vi as cenas da Júlia, fiquei impressionada ao descobrir o que ela fez, como trabalhou as palavras. Dava para perceber que o texto já estava dentro dela. Além disso, a gente leu muito as nossas referências.

    Júlia Stockler: Eu li Carolina de Jesus, e vi Uma Mulher Sob Influência do Cassavetes, que era uma referência para a minha personagem.

    Carol Duarte: Já eu li Clarice Linspector. Cada uma tinha uma bibliografia diferente, e uma não podia ler os livros da outra. O Karim e a Nina Kopko tomam um grande cuidado com a construção de personagens. Às vezes eu e a Júlia estávamos filmando quase no mesmo espaço, mas eles não queriam que a gente se encontrasse. A gente queria muito se ver, mas eles impediam isso. Eu sabia o cheiro da Júlia, a risada dela, e a vontade de vê-la era cada vez maior. Isso foi se tornando latente em nós.

    Júlia Stockler: Afinal, o filme é sobre isso: a construção da memória e os afetos interrompidos.

     

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