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    Festival de Brasília 2018 comprova viabilidade do cinema igualitário e engajado (Balanço final)
    Por Bruno Carmelo — 25 de set. de 2018 às 12:36
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    Arte e política sempre andaram de mãos dadas.

    Junior Aragão / Divulgação

    Quando os grandes festivais internacionais são cobrados pela representatividade negra, feminina e LGBT, a resposta padrão costuma ser a inviabilidade prática de uma seleção igualitária, porque existiriam poucos filmes representativos desses grupos sociais.

    O argumento sempre soou frágil, por se tratar de eventos poderosos o bastante para terem à disposição praticamente qualquer filme que desejarem. Qual projeto negaria a participação num evento tão prestigioso? Mesmo assim, Cannes praticamente ignora o cinema latino-americano e africano, Veneza reforça o eurocentrismo e Berlim, o mais inclusivo dos três, ainda privilegia uma mostra competitiva majoritariamente branca e masculina.

    O 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro comprovou que é possível fazer um festival atento à política e às evoluções sociais sem abrir mão da qualidade das obras. Contando com um número de inscritos logicamente mais restrito do que os festivais internacionais, Brasília não precisou incluir nenhum sistema formal de cotas para garantir uma maioria feminina na direção, além de um número expressivo de diretoras de fotografia mulheres, de cineastas negros e negras, e de uma ampla discussão sobre orientação sexual e liberdade de gênero.

    Temporada, de André Novais Oliveira

    Ser capaz de reunir, num único ano, obras inéditas do nível de Temporada, Torre das Donzelas, BloqueioA Sombra do Pai, Luna e Bixa Travesty, entre os longas-metragens, ou Mesmo com Tanta Agonia, Liberdade, BR3 e Reforma, entre os curtas-metragens, diz muito sobre o olhar da curadoria para o cinema e, paralelamente, sobre o olhar da produção cinematográfica para com o Festival de Brasília.

    A 51ª edição demonstrou o vigor impressionante dos diretores jovens. Formas de engajamento mais ostensivas (vide Conte Isso Àqueles que Dizem que Fomos Derrotados, vencedor do júri de curtas) se equilibraram com uma visão política mais terna (Temporada), incluindo espaço para a leveza (Bixa Travesty) e para o olhar sociológico (Bloqueio). A política se impregnou nas formas e nos palcos, onde os frequentes bordões "Lula Livre" e "Ele não" dividiam espaço com demandas por ensino gratuito, demarcação de terras indígenas, direito à moradia, trabalho digno para cidadãos transexuais, manutenção dos programas de fomento ao audiovisual etc.

    O alto nível da seleção também indica que os artistas veem em Brasília um lugar receptivo ao cinema engajado, que encontra maior resistência de outros festivais ou mesmo no cinema comercial. Juntando-se a festivais raros como a Mostra de Tiradentes ou Janela de Recife, Brasília tem constituído um núcleo para a exibição de obras ousadas, fundamentais à renovação do audiovisual brasileiro. A confluência destes projetos permite uma intensa troca política e artística, encorajando novas criações e provocando uma reflexão importantíssima sobre o valor das produções.

    Liberdade, de Pedro Nishi e Vinícius Silva

    Por fim, o festival destacou o senso de coletividade: além do número expressivo de filmes elaborados horizontalmente pelas equipes, foram anunciadas iniciativas importantes como a Associação de Produtores Independentes e o DAFB - Coletivo das Diretoras de Fotografia do Brasil. Paralelamente, produtoras reforçaram uma impressionante força estética, como o grupo A Flor e a Náusea, responsável por diversos filmes em competição, e a Filmes de Plástico, representada entre os longas e curtas-metragens.

    Os espaços de troca incluem a preciosa iniciativa do Futuro Brasil, quando filmes em desenvolvimento são exibidos a grupos pequenos e recebem um retorno de especialistas para sua finalização. Ao mesmo tempo, filmes libertários como Inferninho ou Ilha consolidam suas chances de distribuição em circuito comercial.

    Que venham mais filmes do nível de Temporada, Bixa Travesty e Liberdade, que representam não apenas o melhor da produção política ou o melhor do olhar inclusivo, e sim o melhor da nossa produção cinematográfica de modo geral, todas as categorias incluídas. Se o papel de um festival é valorizar diferentes linguagens, proporcionar trocas e descobrir novas vozes, o Festival de Brasília cumpriu sua função com louvor. 

     

     

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