Notas dos Filmes
Meu AdoroCinema
    CineBH 2018: Abaixo a Gravidade, de Edgard Navarro, mostra sonho e delírio em Salvador
    Por João Vitor Figueira — 31 de ago. de 2018 às 13:51
    facebook Tweet

    Inventivo filme baiano é destaque em um dia que também contou com a exibição da chanchada histórica Carnaval Atlântida e com a primeira parte de La Flor, longa-metragem argentino que tem 14 horas de duração.

    O drama surrealista Abaixo a Gravidade trouxe sonho e delírio para a programação do 12ª CineBH - Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte na tarde de quinta-feira (30). O longa-metragem de Edgard Navarro coloca em pauta as possibilidades de uma vida plena em contraste com a proximidade da morte, com a experiência da pobreza e com o cotidiano urbano que insiste em puxar as pessoas para baixo enquanto as subjetividades humanas buscam alguma maneira de transcendência.

    Navarro, expoente de um cinema de invenção que dialoga com o Cinema Marginal e já realizou filmes provocadores como SuperOutro (1989) e nostálgicos como Eu Me Lembro (2005), propõe uma exploração afetiva da intensa cidade de Salvador para onde o idoso interpretado por Everaldo Pontes retorna após passar pacatas décadas na tranquilidade de um pequeno na região da Chapada Diamantina. Dono de uma bondade imensa, o Seu Bené é um sujeito espiritualizado que vive um novo alvorecer do desejo quando conhece a jovem Letícia (Rita Carelli), por quem se apaixona. Enquanto isso, o homem é confrontado com sua própria mortalidade ao descobrir que está com uma doença grave e que um meteoro irá passar perto da atmosfera da Terra no espaço aéreo da capital baiana.

    Abaixo a Gravidade (2018), de Edgar Navarro.

    Repleto de devaneios visuais, o filme gradativamente se desliga do realismo em nome de um cinema quase fantástico e por vezes caótico. Há também muitas referências a outras produções cinematográficas, com alusões diretas e indiretas a filmes como A Doce VidaMelancolia e Beleza Americana.

    "A urbe contraditória, exuberante, perigosa, colorida e viva de Salvador é filmada por carinho e onirismo por Navarro, quase como se o diretor propusesse, sem querer, um contraponto ao ascetismo dos planos gerais da cidade vistos na novela Segundo Sol. Vagando pela cidade ao lado de conhecidos, Bené tem a chance de colocar em prática sua espiritualidade transcendental que filtra candomblé, catolicismo, budismo e hinduísmo e até mesmo aprender com os mendigos mais incrédulos, como Galego (Ramon Vane, em grande atuação). A associação do ator de voar com a busca da liberdade pode ser batida, mas, mesmo sendo um clichê, a metáfora funciona na presença de outro mendigo, vivido por Fábio Vidal. O personagem coleta do lixo os materiais necessários para construir um par de asas que o fará voar. É na miséria que o desejo de atingir o sublime ganha potência", diz a crítica do AdoroCinema.

    Entusiasmado por poder exibir o filme que encerrou o Festival de Brasília em 2017 para o público do Cine Humberto Mauro - Palácio das Artes, no Centro de Belo Horizonte, Navarro não escondeu a emoção. "Esse filme foi feito com o coração muito rasgado, muito aberto. Eu tô muito excitado agora porque eu saí de uma entrevista em que eu fiquei deveras emocionado", disse o realizador, que agora se define um "cinemeiro" e não um cineasta para evitar a pompa e circunstância associada à nomenclatura. "As pessoas que estão aqui comigo representam essa equipe grande e muito talentosa que conseguiu acompanhar essa vibração que eu recebi lá das estrelas. Eu acho que o artista tem uma porra no cucuruco que fica captando as energias. Eu sempre fui assim e agora não dá para esconder que eu sou um cavalo dos deuses, de exu e oxóssi", completou.

    Carnaval Atlântida (1952), de José Carlos Burle e Carlos Manga.

    Outro destaque do terceiro dia da CineBH foi a abertura da Mostra Diálogos Históricos com a sessão da chanchada Carnaval Atlântida (1952), um longa-metragem nacional lançado há mais de 65 anos, mas que traz questões com as quais o cinema brasileiro se depara ainda hoje.

    Na comédia dirigida por José Carlos Burle e Carlos Manga, a paródia dita o tom da trama metalinguística sobre os anseios de um produtor e diretor que comanda um estúdio de cinema no Brasil. O executivo se chama Cecílio B. de Milho (Renato Restier), escolha de nome que já mostra como o roteiro se assume como paródia. O produtor quer realizar uma versão de Helena de Tróia em seu estúdio e para isso contrata o esnobe professor Xenofontes (Oscarito), especialista em mitologia grega, para ser autor do argumento. Entretanto, a malandragem de dois faxineiros, Miro (Grande Otelo) e Piro (Colé), dará conta de transformar o longa-metragem "sério" pretendido por Cecílio em um musical carnavalesco.

    Em um raro filme brasileiro da época que fazia a indústria cinematográfica olhar para si mesma, Carnaval Atlântida debate as possibilidades e impossibilidades da produção audiovisual brasileira. Enquanto se aspira um ideal hollywoodiano de pretensa "qualidade", quais são as demandas do público? Além disso, a dependência de comédias populares nacionais (que eclipsam outros gêneros de filmes produzidos no país na preferência do público) ajuda ou atrapalha o desenvolvimento de uma cena plural de produções? Além de suas ideias, o longa-metragem também se destaca pela presença de dois baluartes da comédia brasileira, Oscarito e Grande Otelo. Algumas situações podem ser anacrônicas e outras podem não ter envelhecido tão bem, mas o imenso talento dessas duas figuras basilares do humor brasileiro transborda em cada frame em que eles aparecem.

    La Flor - Parte 1 (2009), de Mariano Llinás.

    A última sessão do dia no Palácio das Artes deu início à aguardada projeção de La Flor, colossal filme de 14 horas de duração que está em sua primeira sessão no Brasil. A obra faz parte da Mostra Pontes Latino-Americanas e da homenagem proposta pela curadoria da CineBH à produtora argentina El Pampero Cine. O filme dirigido por Mariano Llinás ao longo de quase 10 anos com as mesmas quatro atrizes nos papéis principais será exibido em três partes projetadas em três dias diferentes. A primeira parte, com quase quatro horas de duração, foi a menor. "Esta parte é a mais tranquila. As outras se estendem por mais de seis horas", avisou a produtora Laura Citarella.

    "Espero que vejam as três partes do filme nestes três dias", comentou a cineasta, codiretora de A Mulher dos Cachorros, também exibido na CineBH deste ano. Obviamente, se você perder uma das partes, não faz mal algum. Mas como o filme se passa ao longo de 10 anos com as mesmas quatro atrizes, também é interessante ver o que vai acontecendo na medida que o filme avança porque o filme é divertido e é poder assisti-lo é um documento sobre o que aconteceu com as atrizes. Então, se você puder ver o filme ao longo dos três dias, você vai entender sobre o que é La Flor. Se você não gostar do que você viu hoje, não diga nada porque você não viu o filme completo. Agora, se ao final do terceiro dia você não gostar, aí sim você poderá dizer que não gosta de La Flor."

    Críticas do AdoroCinema dos filmes presentes na programação da CineBH

    Abaixo a Gravidade: "A grande beleza da vida", por João Vitor Figueira
    A Mulher dos Cachorros: "Resiliência", por João Vitor Figueira
    Sol Alegria: "Caravana radicalizaray", por Taiani Mendes
    Baixo Centro: "A alma encantadora e perigosa das ruas", por Taiani Mendes
    Espera: "O coletivo de tempo", por Bruno Carmelo
    Jonas e o Circo Sem Lona: "O menino e o mundo", por Bruno Carmelo
    Intolerância.doc: "Casos de violência", por Bruno Carmelo
    Ferrugem: "Um vilão de nosso tempo", por Taiani Mendes
    Benzinho: "Formatura de mãe", por Taiani Mendes

    facebook Tweet
    Pela web
    Comentários
    Mostrar comentários
    Back to Top