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    CineOP 2018: Protestos políticos, Tropicália e homenagem a Maria Gladys marcam a efervescente noite de abertura
    Por Renato Furtado — 15/06/2018 às 08:00
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    Festival mineiro dá seu pontapé inicial com tocante tributo à atriz, pontuado por críticas ao governo de Michel Temer e do prefeito de Ouro Preto, Júlio Pimenta, ambos do MDB.

    Roberto Staino

    O Cine Vila Rica, localizado no centro de Ouro Preto, é daquelas salas charmosas que parece ter feito parte de um filme de Federico Fellini ou de Jean-Luc Godard e que é, ao mesmo tempo, um dos pontos principais da histórica e patrimonial cidade mineira. Tradicional palco do CineOP, a casa, por sua confluência de contrastes, tornou-se ainda mais perfeita para a abertura da 13ª edição da mostra, que celebra em 2018 o Tropicalismo através de uma de suas grandes figuras das telonas: Maria Gladys.

    Ainda que tenha se tornado mais conhecida pelo público contemporâneo por seus trabalhos com Miguel Falabella e também seja lembrada pela novela Vale Tudo, Gladys foi uma das grandes musas do Cinema Novo e do Cinema Marginal. Para além de ter protagonizado o clássico Os Fuzis, que rendeu o Urso de Prata de Melhor Direção a Ruy Guerra em Berlim, a homenageada do 13º CineOP ainda fez parte da trupe teatral de Domingos Oliveira e integrou o “maldito” grupo comandado pelo realizador “udigrudi” Rogério Sganzerla (O Bandido da Luz Vermelha).

    Still de Gladys em Sem Essa, Aranha.

    A parceria entre o cineasta e Gladys, aliás, rendeu pelo menos um tesouro: a inexplicável comédia experimental Sem Essa, Aranha, exibida em Ouro Preto como parte do tributo à atriz. Dividida em inúmeros planos-sequência, uma verdadeira proeza cinematográfica para as condições de produção à disposição de Sganzerla e cia., a obra marginal é uma crítica feroz à burguesia brasileira; pouquíssimo acessível, contudo, em decorrência de sua rejeição total a qualquer tipo de linearidade narrativa, Sem Essa, Aranha - protagonizado por um Jorge Loredo relendo seu icônico Zé Bonitinho como um selvagem magnata do jogo do bicho - é, de fato, mais relevante por trazer Gladys em todo seu esplendor cênico.

    Não é à toa que o diretor Neville D'Almeida (A Dama do Lotação), amigo pessoal da homenageada e responsável por entregar o troféu Vila Rica à atriz, tenha afirmado que ela é uma das mais importantes intérpretes brasileiras. Em Sem Essa, Aranha, Gladys demonstra uma versatilidade espetacular, indo da loucura à perturbadora calmaria em um piscar de olhos: seu domínio da arte do ator é ímpar. E o deslumbre provocado por sua performance ainda aprofunda-se quando observamos a atriz ao natural, ainda que por curtos 10 minutos, no documentário Maria Gladys, Uma Atriz Brasileira, dirigido por Bengell.

    Gladys no curta documental sobre sua vida e trajetória.

    Apesar da severa degradação da banda sonora da película de 1979, cuja única cópia em 35 mm sobrevivente foi restaurada especialmente para a noite de abertura do CineOP, mostra que tem a preservação fílmica como um de seus nortes, o curta-metragem ultrapassa vive por meio da bela colaboração entre Gladys e Bengell. Imbuído pelo afeto da cineasta por sua musa, Maria Gladys, Uma Atriz Brasileira é um retrato impressionista e fragmentado de uma das personalidades mais irreverentes, divertidas e impactantes da história de nossa cinematografia. Assim, ao lado de Sem Essa, Aranha, o curta exibido durante o pontapé inicial do CineOP 2018 é um testemunho patente da potência de Gladys.

    Porém, a dobradinha cinematográfica não se justificou apenas pelo tributo - combinados, os dois filmes também ajudaram a (re)colocar em evidência o motor principal do festival mineiro neste ano: a Tropicália, o movimento encabeçado por Gilberto GilCaetano Veloso que se alimentou de influências estrangeiras e do resgate de nossas raízes culturais para questionar as estruturas postas, subverter expectativas e contrariar diretamente o regime militar que tomou conta do país por 21 anos.

    Leo Lara / Universo Produção
    Gladys ergue o troféu Vila Rica.

    Convocado, o combativo espírito tropicalista surgiu prontamente na (climaticamente) amena e (politicamente) quente noite de junho que abrigou a abertura do CineOP. No momento em que o nome de Júlio Pimenta, do MDB e atual prefeito de Ouro Preto, foi anunciado nos alto-falantes do Vila Rica, o público irrompeu em vaias sonoras em meio aos gritos de "Fora Temer" - o presidente e o político mineiro pertencem à mesma legenda. Por outro lado, a plateia se desmanchou em aplausos como forma de honrar a memória da vereadora Marielle Franco, brutalmente executada há três meses no Rio de Janeiro.

    Gladys, por sua vez, retomou os pedidos pela liberação de Lula: o ex-presidente e líder do Partido dos Trabalhadores foi preso em abril e segue encarcerado em Curitiba, na sede da Polícia Federal. Além de causar revolta e ira, sua detenção agravou ainda mais as tensões e polarizações de uma nação que nunca encontrou tantas pedaços de si mesma pelo caminho. E assim, com o Tropicalismo e Gladys sob os holofotes, o CineOP iniciou seus trabalhos na velocidade máxima, refletindo uma sociedade fraturada, que é filha tanto da contracultura, quanto da ditadura.

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