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    Coringa
    Críticas AdoroCinema
    5,0
    Obra-prima
    Coringa

    A risada do palhaço

    por Francisco Russo
    Quando Christopher Nolan assinou contrato para Batman Begins, trouxe consigo a proposta de uma aventura bem mais sombria, condizente com o clima pesado das ruas de Gotham City. Por mais que tenha sido extremamente bem sucedido, havia ainda limitações dentro de tal proposta no sentido de manter os filmes do Homem-Morcego dentro de uma classificação indicativa acessível a todo público. Em CoringaTodd Phillips vai além e entrega um filme sujo, corajoso e transgressor, tão condizente com a essência de seu personagem-título quanto com a ideia de uma Gotham City caótica, decadente e sem qualquer regra. Ainda bem.


    Neste sentido, é muito interessante como este Coringa dialoga com o histórico do personagem, tanto no cinema quanto nos quadrinhos. Sem qualquer referência prévia, trata-se de uma história original que reinventa características básicas do personagem, sem jamais modificá-lo de fato ou citar quaisquer de seus antecessores. Ao mesmo tempo, se apropria da memória coletiva em relação às versões anteriores, não propriamente no sentido de compará-los mas de saber previamente do que o personagem é capaz: o Coringa é doentio e não vê problema algum em ser extremamente violento, o espectador sabe bem disto. Tal consciência traz ao filme um clima de tensão onipresente, especialmente quando os primeiros indícios da eclosão do Palhaço do Crime começam a vir à tona.

    Por outro lado, Todd Phillips também manipula a narrativa de forma que a loucura do Coringa, ou melhor, de Arthur Fleck seja não apenas justificável como, em um primeiro momento, quase perdoável. A partir de um minucioso estudo de personagem acompanhamos a saga de Arthur a cada novo fracasso, assistindo à mudança da meiguice inicial de Joaquin Phoenix rumo a um personagem cada vez mais duro e decidido, em todas as etapas de uma transformação decorrente muito mais dos vícios da sociedade do que por falhas suas. Não há pressa em buscar sequências emblemáticas, apenas o tempo necessário para justificar cada passo dado. Quando elas surgem o mérito é todo do roteiro, por respeitar este tempo próprio de desenvolvimento, e, é claro, de Joaquin Phoenix, absolutamente soberbo.


    Se Phoenix tivesse apenas se sujeitado à transformação física e criado esta risada que provoca calafrios, seja pelo som emitido ou pela conjuntura de sua existência, já seria suficiente para um belo trabalho. Entretanto, ele vai além ao entregar uma variedade imensa de perfis multifacetados que compõem o personagem, provocando espanto e admiração em doses fartas. É como se este Coringa fosse uma evolução psicológica das versões anteriores, de Jack Nicholson e Heath Ledger, agora sem amarras para que possa soltar sua loucura e violência sem pudores. Simples assim.

    Paralelamente, o roteiro escrito por Scott Silver e o próprio diretor traz um verdadeiro achado, ao estabelecer um subtexto político em torno da transformação de Arthur Fleck no Coringa. Pouco a pouco, a luta de classes chega a Gotham City de forma absolutamente orgânica, com direito a uma referência deliciosa a Tempos Modernos, provocando um levante dos oprimidos junto à elite local, cujo representante maior é... Thomas Wayne. Sim, Coringa também passa pela origem do Batman, mais uma vez dialogando com a memória coletiva, entregando uma versão inédita de uma história pra lá de batida.


    Claramente inspirado nos filmes urbanos de Martin Scorsese, em especial Taxi Driver com sua estética das ruas e fotografia suja, Coringa ainda apresenta uma apurada direção de arte na construção deste filme de época e um figurino preciso, surrado e ao mesmo tempo recorrente às roupas e cores usuais do personagem-título. Em relação ao restante do elenco, claramente ofuscado por Phoenix, merece destaque a desenvoltura de Robert De Niro como o apresentador de TV Murray Franklin, óbvia referência (invertida) ao seu papel em O Rei da Comédia, dirigido pelo mesmo Scorsese lá em 1982.

    Violento e de uma efervescência política vibrante, Coringa é um novo capítulo na história do Palhaço do Crime que será lembrado por muitos e muitos anos. Entretanto, independente de sua ligação prévia, trata-se também de um filme brilhante pela forma como foi construído: a partir de um fundo psicológico calcado apenas na vida real, de forma que sua transformação seja verossímil não só em Gotham CIty, mas em qualquer cidade nas mesmas condições de desigualdade social. Fascinante.

    Filme visto no Festival de Toronto, em setembro de 2019.
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    Comentários

    • William Bruce
      Paulo Kogos fazendo historia nos coments
    • Romulo R
      O problema não é a desigualdade em si e sim a pobreza. Irlanda é mais desigual do que o Vietnã, mas os 10% mais ricos do Vietnã vivem pior que os mais 10% mais pobres da Irlanda.
    • ZÉ CABRA
      Uma pena que jojo rabbit vai ganhar o oscar de melhor filme pelas projeções que estão falando mas não tenho duvidas de que joaquin phoenIx vai ganhar de melhor ator e não duvido se o coringa não ganhar o de melhor roteirista também
    • Julio Alvarez
      Desigualdade ok, existe e é ruim, mas luta de classes, onde quem tem um pouco mais é culpado, aí é complicado. O combate a desigualdade tem que ser fazendo quem tem menos ter acesso a mais, e não o oposto. Mas falando do assunto principal, vontade de assistir ao filme!
    • Viv
      Com certeza o MELHOR filme de 2019, e o Coringa vai ter seu nome chamado no Oscar rss
    • izaque
      muito politizada essa critica. desigualdades? luta de classes?
    • Ademar Ramos Brilhante
      Não vejo a hora.....
    • David RoPin
      No Multiverso.
    • Jonatas B
      E o hype chega lá no espaço
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