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    Better Call Saul: Primeiras impressões sobre a terceira temporada
    Por Rodrigo Torres — 11 de abr. de 2017 às 15:15

    O início morno e promissor de sempre, com ascensão em todos os núcleos: do suspense no arco de Mike, da independência de Kim e do conflito entre Chuck e Jimmy.

    Better Call Saul é uma série derivada que possui suas particularidades. O protagonista Saul Goodman (Bob Odenkirk), por exemplo, é tão diferente do personagem que conhecemos em Breaking Bad que tem não só um, mas dois outros nomes: o verdadeiro, Jimmy McGill; e Gene. Suas características destoantes, aliás, sintetizam o tom mais sombrio de sua história de origem. Porém, é um aspecto comum entre as obras da AMC que chama a atenção no início de sua terceira temporada: um início morno, calcado no desenvolvimento lento, amplo, de uma trama que se comprovará complexa — e esse é um aspecto que vem se mostrando compensatório desde 2008.

    As repercussões do fim da segunda temporada de Better Call Saul, portanto, ainda não têm o impacto esperado nos dois primeiros episódios da terceira (disponibilizados com antecipação pela Netflix ao AdoroCinema). O máximo que se pode dizer sem spoilers é que a armadilha tramada por Chuck (Michael McKean) está saindo do eixo, numa mostra de que Vince Gilligan e Peter Gould projetam um grande embate entre os irmãos, com possível resolução no fim da temporada. Até aqui, os indícios são de um confronto mais igual do que o último season finale apontava, com Jimmy tendo a possibilidade de se preparar para a difícil defesa dessa grave acusação. A ruptura definitiva de seus laços fraternos também se mostra uma mera questão de tempo.

    Kim Wexler (Rhea Seehorn), sim, se comporta com os dois pés no ano anterior. Desconfiada em relação a Jimmy e a tudo que a cerca, a advogada segue agindo com o brilhantismo habitual e cada vez mais independentemente. O comportamento de Kim antecipa o sabido rompimento de sua sociedade com Jimmy na WM (Saul atua sozinho em Breaking Bad, afinal), mas ela continua sendo seu porto seguro. Se ele tem alguma chance de se safar das acusações de Chuck, isso se deve à capacidade de Kim como advogada (cada vez mais confiante), e à sua predisposição em ajudar o amigo-quase-namorado.

    Em vista dessa relação, aliás, Rhea Seehorn mantém o grande nível de atuação pelo modo como conduz um conflito interessante de Kim. Por um lado, um desejo de independência e o reflexo de decepções constantes desvelados em olhares cruzados, expressões frustradas; enfim, com muita sutileza. Por outro, o carinho incondicional por Jimmy, que sempre se manifesta de maneira mais efusiva, numa tentativa desesperada de implorar que ele pare de se meter em encrencas. Assim, a atriz e o texto ilustram eficientemente o que prevalece nesse embate: a emoção sobre a razão. A pergunta fundamental que resta é: até quando?

    A bem da verdade, Better Call Saul permanece no mais alto nível de excelência em sua totalidade. A equipe técnica de Vince Gilligan segue inspirada, com destaque para sua fotografia soberba. Uma sequência específica ora reúne uma GoPro enfiada nas menores partes de um carro, ora realiza um plongeé altíssimo desse ferro velho em time-lapse, utilizando os mais variados recursos cinematográfcos sempre a serviço da narrativa. Ainda sobre o elenco, Michael McKean ainda não justificou a aposta nele como destaque das premiações televisivas de 2017. Já Jonathan Banks merece um parágrafo próprio.

    Desde o início de Better Call Saul, como com nenhum outro personagem, o arco de Mike se desenrola de forma mais episódica. Quer dizer: até como consequência de seu passado como policial, o personagem sempre se envolve em missões pontuais, como descobrir como está sendo monitorado, por que está sendo perseguido. Tal estrutura confere um bem-vindo dinamismo à série, em sequências tanto repletas de suspense, como enriquecedoras sobre o personagem (ilustrando sua disciplina, obstinação, perícia etc por meio da ação). Cabe a Jonathan Banks aprofundar tais qualidades com sua expressividade única — provando, mais uma vez, ter nascido para viver Mike Ehrmantraut.

    Da subtrama de Mike, aliás, acontece o grande crossover da terceira temporada de Better Call Saul com a história de Breaking Bad: Gus Fring (Giancarlo Esposito). O enigmático personagem é apresentado à altura da ameaça sorrateira que representa — mas aí já não vale contar mais nada. É correr para a Netflix e assistir à grande estreia do dia na plataforma online. Pois esse retorno, mesmo morno, já promete um desfecho explosivo.

     

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