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    Festival de Toronto 2016: Diretor do novo Bruxa de Blair fala sobre desafios da sequência, marketing secreto e rasga o verbo sobre o segundo filme
    Por Renato Hermsdorff e Renato Furtado — 14 de set. de 2016 às 01:31

    De acordo com Adam Wingard, “A maioria das pessoas nem sabe que o segundo filme existe”.

    Alberto E. Rodriguez / Getty Imagens
    A Bruxa de Blair reinventou o estilo found footage no terror – aquele tipo de câmera falsamente documental, que simula o ponto de vista do personagem, como se fosse ele o responsável por captar as imagens. Que atire o primeiro graveto quem, no fundo, no fundo, não cogitou que as imagens do filme de 1999 não pudessem, assim, talvez, quem sabe?, terem de fato sido captadas por pessoas reais que investigavam a lenda da tal bruxa. E a equipe responsável pelo marketing soube muito bem explorar essa sua dúvida.

    Alberto E. Rodriguez / Getty Imagens
    Adam Wingard no TIFF.
    Além de convincente (pelo menos, até então), trata-se de uma técnica extremamente barata. The Blair Witch Project (no original) foi feito com aproximadamente US$ 22 mil e arrecadou mais de US$ 240 milhões. Rapidamente, o longa se tornou uma das produções mais lucrativas da história do cinema – e, claro, “inspirou” um sem número de filmes no formato.

    Corta para 2016. Um dos anúncios menos aguardados da última San Diego Comic-Con era "The Woods". Quem ia trocar uma sessão de autógrafo com o novo Flash por uma obra da qual ninguém nunca tinha ouvido falar? Até que... pegadinha da Lionsgate! A produção em questão, se tratava de Bruxa de Blair (sem o “A”), no qual, vinte anos depois do desaparecimento de Heather (Heather Donahue), o irmão dela, James (James Allen McCune) junta um grupo de amigos para seguir no encalço da garota.

    No Toronto International Film Festival (TIFF), o diretor da sequência direta do primeiro filme, o jovem Adam Wingard (V/H/S), de 33 anos, conversou sobre tudo isso com o AdoroCInema. E antes que você pergunte “Hey, mas vocês não estão se esquecendo de nada?”, ele mesmo adianta: “A maioria das pessoas nem sabe que o segundo filme [A Bruxa de Blair 2 - O Livro das Sombras, de 2000] existe”.

    AdoroCinema: Você já era fã da franquia?

    Adam Wingard: Sim, claro. Não da franquia exatamente, mas eu sou fã do primeiro filme, que foi um verdadeiro marco para a minha criação como cinéfilo. O processo de fazer um filme como aquele com um orçamento tão baixo foi algo que me inspirou. Três filmes me deram a confiança de que eu precisava para acreditar que poderia me tornar um diretor: A Bruxa de BlairO Mariachi e Pi, dirigido pelo Darren Aronofsky.

    Então, você não gosta de Bruxa de Blair 2 - O Livro das Sombras?

    Divulgação
    A Bruxa de Blair
    Eu fiquei frustrado, como a maioria das pessoas. O filme errou a mão em relação ao que tornou o primeiro especial. E isso sem contar o fato de que não foi um filme found footage. A continuação nem usou a mesma linguagem cinematográfica. Eu me senti traído de diversas maneiras. Eu gosto dos outros trabalhos do diretor [Joe Berlinger], os documentários dele, mas acho que ele foi a escolha errada. Quando tive a chance de assinar para dirigir este novo filme, achei que alguém tinha que tentar consertar o que foi feito. Eu fiquei sem rever o primeiro por muito tempo por causa do fiasco do segundo, achei que o filme poderia não ser tão bom quanto eu me lembrava. O que é interessante é que, ao rever A Bruxa de Blair, tantos anos depois, e com todos esses outros filmes de found footage que foram lançados, eu percebi que esse não só é um filme de terror muito bem construído, como ainda é o melhor filme de found footage já feito.

    O fracasso do segundo filme te deixou preocupado para assumir este?

    Sim e não. A maioria das pessoas nem sabe que o segundo filme existe, é algo que foi varrido para debaixo do tapete, de certa forma. Nós sabíamos que a nossa batalha principal seria a comparação com o filme original e sabíamos que não conseguiríamos superar aquilo, é uma experiência diferente. Mas eu espero que o nosso filme seja visto como uma abordagem moderna do mundo do primeiro filme. A melhor definição, para mim, é que o filme é um passeio de montanha-russa pela floresta. Em certo ponto, nós nos inspiramos mais em filmes como O Massacre da Serra Elétrica do que o filme original. Nós tentamos combinar essa estética de um filme brutal e tenso com as ideias que pegamos do primeiro filme.

    Por que retomar a história hoje em dia?

    Divulgação
    O filme "que as pessoas não lembram que existe"
    Porque a mitologia é muito rica. É uma pena que esse projeto tenha tido que esperar tanto para ser feito. Quando eu estava no ensino médio, eu já era um fã, gostava de ler todas as histórias por trás da história principal. Eu visitava fóruns para ler as diversas teorias das pessoas sobre o filme. Eu pesquisava tudo isso e aí assistia ao filme novamente. Algumas são muito loucas. Alguém pausou o filme frame por frame e descobriu que Heather está usando um anel com um pentagrama na cena em que ela acha o dente de Josh na floresta, o que poderia significar que ela é uma feiticeira, que invocou a bruxa de Blair por acidente. Nós queríamos manter esse espírito, plantar sementes sem dar respostas, mostrar apenas o suficiente, sempre deixar algo para ser interpretado.

    Como A Bruxa de Blair reestabeleceu os fundamentos do found footage, você se sentiu pressionado a inovar?

    A pressão que eu senti foi em relação a tentar manter o filme realista. Nós tínhamos uma trama mais estruturada em mãos e queríamos narrar de uma maneira mais precisa e estilizada. Antes da produção começar, eu revi o filme original seis vezes, ou algo assim. Eu tinha a preocupação de que nosso filme pudesse não parecer autêntico. Eu sabia que não poderia fazer como o primeiro, com a câmera trêmula. Ao mesmo tempo, foi isso que o tornou tão real. Mas essa estética causa enjoos e dores de cabeça em algumas pessoas. Então, eu sabia que as pessoas iriam pensar nessa estética quando soubessem da produção de mais um filme de A Bruxa de Blair.

    A partir daí, eu comecei a pensar sobre como nós poderíamos suavizar. A câmera que utilizamos já fazia isso de certa forma, estabilizava o plano. Mas, quando começamos a filmar, eu percebi que eu teria que utilizar uma parte da estética original e o que eu decidi foi tentar fazer a primeira metade mais parecida com o filme original, estruturada como um documentário, com o trabalho de câmera sendo realizado pelos próprios personagens filmando uns aos outros e, assim que o terror começasse a crescer e os personagens começassem a correr mais riscos, eu decidi tentar amenizar e colocar o espectador dentro do ponto de vista dos personagens. E nós tentamos fazer coisas que ainda não foram feitas em filme de found footage, como usar drones.

    Alberto E. Rodriguez / Getty Imagens
    Adam Wingard faz graça entre a equipe do filme em Toronto.

    Como foi manter o segredo sobre o projeto até a San Diego Comic-Con? O anúncio-surpresa de Rua Cloverfield, 10 foi uma inspiração?

    Foi interessante ver toda a questão de Rua Cloverfield, 10 porque nós estávamos no meio do nosso próprio processo de manter segredo. Nos deu bastante confiança, porque alguém mais estava fazendo o que estávamos fazendo. O que é diferente entre um caso e outro é que a nossa sequência era muito mais inesperada. As pessoas esperavam uma sequência de Cloverfield, de certa forma.

    Eu e Simon [Barrett, roteirista] assinamos o contrato para fazer parte desta produção em 2013, antes de filmarmos The Guest, e os trabalhos só começaram oficialmente no final de 2014. Ou seja, nós ficamos três anos sem poder falar as palavras “bruxa” e “Blair”, sem poder revelar o que estávamos fazendo. Quando nós finalmente anunciamos o filme na Comic-Con, foi muito estranho dizer o nome. Manter todo esse segredo foi um milagre, mas essa era parte importante do processo porque grande parte do apelo do filme original tem muito a ver com o marketing, que fez as pessoas acreditarem que era um documentário de verdade.

    Então, nós sabíamos que teríamos que fazer algo parecido – porém novo –, porque se fizéssemos como o primeiro filme, todos ririam de nós. [Manter segredo] É uma ideia objetiva, mas nós fizemos isso em uma época complicada para se fazer algo assim. Nós tínhamos roteiros falsos, os atores não podiam revelar nada sobre o projeto. Se tivéssemos liberado a informação logo de cara, receberíamos muita atenção. Do jeito que fizemos, ninguém trouxe nenhum pré-conceito.

    Bruxa de Blair entra em cartaz nos cinemas brasileiros nesta quinta-feira, 15 de setembro.

     

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