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    Entrevista: "É hora de lutar por sua ideologia", diz equipe de Aqui Deste Lugar após polêmica no Cine PE
    Por Bruno Carmelo — 7 de mai. de 2015 às 08:30

    Fabiano Gullane e Sérgio Machado defenderam o filme depois de bate-boca com a imprensa.

    Daniela Nader / Divulgação

    Um filme político em tempos políticos complicados. Aqui Deste Lugar, dirigido por Fernando Coimbra e Sérgio Machado, acompanha a vida de três famílias, no Ceará, São Paulo e Rio Grande do Sul, que conseguiram sair da pobreza extrema nos últimos anos, graças a programas do governo como o Bolsa Família. 

    Sérgio Machado e o produtor Fabiano Gullane vieram preparados para debates polêmicos no festival Cine PE 2015, e as controvérsias surgiram na coletiva de imprensa. Um jornalista exaltado acusou o filme de ser um "erro completo", indicando que as famílias em tela não mereceriam ajuda por não "trabalharem de verdade". Além disso, acusou a jovem Natália Mota, uma das jovens retratadas, presente no festival, de jamais poder realizar o sonho de se tornar cantora por não possuir o talento necessário. Outros jornalistas partiram em defesa do filme e do ponto de vista dos cineastas.

    A equipe respondeu com maturidade e respeito a esses ataques mais políticos do que propriamente cinematográficos. Com os ânimos acalmados, o AdoroCinema conversou em exclusividade com Machado, Gullane e Mota:

    Divulgação

    Origem do projeto

    Sérgio Machado: Eu comecei fazendo pesquisa de locação para Central do Brasil. Vajei o Brasil inteiro para fazer os testes, e conheci uma realidade muito dura. Depois voltei a rodar o Brasil para outro filme, Abril Despedaçado. Três, quatro anos atrás fui buscar locações para um filme sobre o Padre Cícero, e percebi que existia alguma coisa importante acontecendo. Um choque de gerações. Aí surgiu a ideia do projeto, e fui falar com o Fabiano Gullane sobre a dificuldade de falar de um assunto espinhoso como esse. O Caio Gullane e o Fabiano me convenceram de que era tanto trabalho que seria impossível um único cineasta dar conta disso. Na época, o Fernando Coimbra estava finalizando O Lobo Atrás da Porta, e era alguém que compartilhava o interesse pelo tema.

    Fabiano Gullane: Eles partiram para algo muito físico. Foram muitas viagens, eles viram mais de mil famílias. Se uma única pessoa fizesse isso, demoraria anos para dar certo, e além disso seria interessante ter a colaboração entre os dois. Depois de conceberem o projeto juntos, eles se separaram de novo, e cada um foi para um lado. Coimbra estava em um momento corajoso, afim de tocar em assuntos importantes como esse. Eles compartilhavam a mesma ideologia, e os dois estavam disponíveis... A combinação deu muito certo.

    Sérgio Machado: Primeiro, mandamos pesquisadores para todas as regiões do país. Depois eu e o Fernando nos dividimos. Só no começo, no Ceará, nós dois fomos juntos. Uma hora, achamos que o foco seria pegar jovens da idade da Natália, no fim dos estudos, e focar neles. No caso da Natália, esta é a única família em que houve uma divisão nas atenções, porque a mãe também teve uma personalidade forte, então retratamos a relação entre as duas.

    Natália Mota: Fui escolhida na escola. O Sérgio foi na minha escola, e viu bastante gente. Ele perguntou qual era o nosso sonho, quis saber se a gente trabalhava ou estudava, quantas pessoas moravam na nossa casa. E eu cantei também, na sala. Todo mundo aplaudiu! Ele queria algo que mostrasse a realidade. No início, eu pensei que tinha mostrado demais, mas depois percebi que esta é só uma realidade, e muitas pessoas passam pela mesma situação. Mesmo assim, nem todos têm coragem de dividir a sua história. Eu fui corajosa!

    Três histórias

    Sérgio Machado: A primeira versão do filme tinha cinco famílias retratadas. Eu mostrei para o João Moreira Salles e mais alguns documentaristas, e eles me disseram que era impossível manter as cinco histórias, porque a gente trocava muito rápido, não dava para seguir os núcleos. As outras famílias eram boas e peculiares: a da Piauí era da seca, no meio do semiárido, e na Amazônia eles estavam no meio da floresta. Acabamos tirando aquelas duas, mas poderiam ter sido outras. 

    Lidando com comentários agressivos

    Fabiano Gullane: No Brasil, as pessoas nem sempre expõem o que pensam, não dizem o que são de verdade, em função de interesses comerciais e de relações. Agora, é o momento de se expor sim, de lutar por sua ideologia, sobre temas como maioridade pena, homofobia... É hora de se expressar. Não é preciso ter violência de nenhum tipo, nem verbal. É possível ter um debate de conceitos, de alto nível, mesmo que as pessoas não concordem umas com as outras. A nossa postura vai ser sempre essa: a pessoa pode gritar e espernear do outro lado, mas vamos reagir calmamente.

    Natália Mota: Eu aceito a opinião de todos, estou pronta para aceitar a crítica. Mas quando a pessoa se dá ao direito de dizer o que eu posso fazer, isso eu não vou aceitar! Tenho minhas capacidades, e vou batalhar por isso.

    Fabiano Gullane: Talvez esse seja o ponto: o universo extra fílmico vai interferir muito na recepção do filme.

    Sérgio Machado: No Ceará, quando o filme foi apresentado, as pessoas terminaram chorando. É algo muito pessoal, acho que não tem como fugir da polêmica nesse filme...

    Filme sem partido político

    Sérgio Machado: Desde a largada, a gente sabia de todas as armadilhas possíveis. Este não é um filme sobre o Bolsa Família, é um filme sobre famílias brasileiras que recebem o Bolsa Família. É preciso que isso fique claro. Nunca imaginamos falar em nada partidário, e sim mostrar como isso funciona dentro das casas. São casas pequenas, a gente filma como pode filmar.

    Fabiano Gullane: Esta sempre foi a estética, do cinema direto. Nós buscamos as famílias e percebemos o que mudou em relação à geração anterior. Nunca tivemos como ideia buscar depoimentos de especialistas, por exemplo. Tivemos uma base teórica, mas não pensamos em transformar o projeto em panfleto.

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