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    Exclusivo: "Eu busco fazer filmes que tragam perguntas", afirma Lázaro Ramos sobre O Vendedor de Passados
    Por Bruno Carmelo — 5 de mai. de 2015 às 12:00

    O ator conversou com o AdoroCinema sobre o suspense que chega aos cinemas dia 21 de maio.

    Daniela Nader / Divulgação

    Lázaro Ramos foi um dos principais nomes que passaram pelo Cine PE 2015, apresentando o suspense O Vendedor de Passados, dirigido por Lula Buarque de Hollanda. A história é uma adaptação do romance de mesmo nome, do escritor angolano José Eduardo Agualusa. Muito aplaudido pela plateia, Lázaro Ramos conversou com a imprensa sobre Vicente, o seu personagem no filme, que trabalha fabricando passados falsos para pessoas tristes ou frustradas, em busca de uma vida nova.

    Em entrevista exclusiva ao AdoroCinema, o ator falou sobre o projeto, no qual também é produtor, e passa pelos mais diversos temas, como a temática racial no Brasil, o papel das comédias populares e mesmo a arquitetura e a sua primeira experiência como diretor. Confira o resultado dessa conversa!

    Você disse que a primeira reação ao ler o roteiro foi de surpresa, por encontrar algo muito diferente do livro.

    Alguns elementos da cultura angolana e do narrador são muito encantadores no texto do Agualusa, e fazem o livro ser o que ele é. Minha primeira reação foi pensar que algumas passagens do texto seriam impossíveis de filmar! Além disso, havia uma distância do público brasileiro, o que não era a proposta. A ideia era fazer um filme urbano que trouxesse algo de novo para o estilo de filmes que estão sendo feitos, e que fosse nosso. No processo de ensaio, tentamos trazer a história para mais perto de nós.

    Queríamos falar sobre o sentimento contemporâneo de insatisfação com a identidade, com os traços físicos... Sobre as pessoas que entram na Internet, criam um perfil falso e vivem outra vida, totalmente diferente da real. Na verdade, isso vem de muito tempo atrás; Simone de Beauvoir já falava destas questões. Em um país que está reconstruindo a sua identidade, em todos os sentidos – algo percebido até por medidas governamentais destinadas a reconstruir a História – o tema torna-se muito contemporâneo.

    No final, achei bom fazer essas mudanças, porque com as alterações em relação ao livro, nós oferecemos dois prazeres: por um lado, temos o mesmo personagem literário, com o mesmo mote, mas quem leu o livro vai ter um prazer, e quem viu o filme vai ter outro.

    Como você construiu essa profissão fictícia e curiosa de “vendedor de passados”?

    Tentando aproximar de mim, vendo o valor simbólico que isso tinha para mim em cada cena. Seja na cena com a Ruth de Souza, que funciona como uma espécie de mãe para o Vicente, seja na relação com os personagens da feira (de antiguidades na praça XV, no Rio de Janeiro), que foi um lugar de grande pesquisa. Inclusive um dos homens em cena é o real vendedor das cartas, que foram compradas na mão dele. Tudo isso criou um subtexto, um imaginário que me guiou.

    Além disso, eu tenho essa relação com o passado. Sou um cara que reclama da arquitetura dos lugares. Por que é que o Maracanã virou um estádio igual a qualquer lugar do mundo, se antes eu podia visitar e encontrar só o meu Maracanã? Eu sou esse cara chato que ainda coleciona selos, eu coleciono fichas de telefone da Telesp, Telebahia, Telerj, eu tenho a minha coleção...

    O Vendedor de Passado tem cenas muito diferentes em relação ao tom: às vezes ele se transforma em suspense sombrio, às vezes em comédia ou romance...

    Eu tenho procurado cada vez mais fazer filmes que tragam perguntas. Acho que o cinema me deu muito, eu devo minha carreira aos filmes, ao Madame Satã, a O Homem que Copiava. Para um ator como eu, que traz certa visibilidade ao filme, acho importante pensar nessas coisas. Sempre queria falar para as pessoas, mas pesquisando novos caminhos.

    O nosso mercado ainda está se estabelecendo, nós temos coisas que felizmente abraçaram o público, como as comédias e biografias, os filmes sobre violência urbana. Mas existem filmes fora desta cartilha que também merecem ter visibilidade. O cinema pernambucano é um exemplo disso, porque ele sempre questiona “Por que não?”. Aí os diretores vão, e fazem algo totalmente fora da cartilha. Talvez a gente só colha os frutos daqui a muito tempo, porque estamos tentando inventar algo que ainda não sabemos exatamente o que é. Às vezes temos erros, ou acertos...

    Mas a nossa cultura é tão diversa que o cinema merece espelhar isso. Quando você vai para Gramado, Santa Catarina, Bahia, Pernambuco, parecem vários países diferentes. Isso é o Brasil. Eu ficaria muito feliz se daqui a algum tempo a cultura espelhasse toda a nossa diversidade.

    Daniela Nader / Divulgação

    Você costuma transitar pelos filmes intermediários, que não são nem grandes produções da comédia, nem obras herméticas. Você busca o cinema capaz de dialogar ao mesmo tempo com a crítica e o público?

    É uma maluquice, uma pessoa que faz Madame Satã, Cidade Baixa, Ó Paí Ó, Saneamento Básico, Meu Tio Matou um Cara... Parece uma espécie de esquizofrenia! Mas eu acho isso legal, porque me sinto mais motivado como ator. Eu fiz muitos primeiros filmes de cineastas: Madame Satã é o primeiro filme do Karim Aïnouz, Cidade Baixa é a primeira ficção do Sérgio Machado, O Homem que Copiava é o primeiro do Jorge Furtado, Amanhã Nunca Mais é o primeiro filme do Tadeu Jungle, Cafundó é o primeiro filme do Paulo Betti... Existe uma inquietação que me interessa, faz sentido para mim.

    O Vendedor de Passados foi apresentado como um filme “pós-racismo”, no qual a questão racial não constitui um problema.

    Às vezes, não falar de um assunto é falar dele. O fato de ser um filme sobre identidade com a minha presença ali já indica um pensamento sobre isso. Em algum momento, alguém vai dizer: “Um personagem negro falando sobre não-identidade remete a Ruy Barbosa, quando queimou os papéis que registravam os escravos na chegada do Brasil”. Algumas associações são feitas, e isso é saudável. É importante oferecer ao ator negro no Brasil outras possibilidades de dramaturgia e de inserção. Eu também não sou ingênuo, sei que o fato de eu estar presente traz outras temáticas, o que é bom, porque expande o lastro de discussão.

    Você defendeu no Cine PE outras formas de inserção para o cinema mais inventivo, como o VoD, a televisão... Mesmo assim, O Vendedor de Passados chega a 200 salas pelo país, passando principalmente pelo grande circuito.

    Pois é... Mas existem filmes fora de forma mesmo: Birdman, por exemplo, é algo fora de forma total. Relatos Selvagens é um filme ótimo, com uma trajetória excepcional, tornando-se um filme popular mesmo sem seguir os modelos. Alguém um dia disse: “O sucesso é dar ao público não o que ele quer, mas o que ainda não sabe que quer”.

    Você falou na intenção de se tornar diretor. Já existe algum projeto amadurecido?

    Sim, tenho um projeto que começou quatro anos atrás. Agora, estou na fase de escrita do roteiro, com um roteirista contratado. Pretendo dirigir em 2016. Não posso falar mais, mas vai ser uma história urbana, ou seja, não se passa no sertão, não é uma comédia rasgada sobre a classe média, nem uma biografia! O que já diz muito!

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