Super Mario Galaxy não é um desastre, mas aceitar o mínimo é um perigo irreversível para o cinema
Diego Souza Carlos
Apaixonado por cultura pop, latinidades e karê, Diego ama as surpresas de Jordan Peele, Guillermo del Toro e Anna Muylaert. Entusiasta do MCU, se aventura em estudar e falar sobre cinema, TV e games.

Novo filme da Nintendo gerou uma série de discussões sobre o trabalho da crítica especializada, mas, ainda mais importante do que a polêmica, é interessante entender como isso pode afetar o futuro do cinema.

Exatamente uma semana após o lançamento, a discussão sobre Super Mario Galaxy: O Filme tem se dividido entre esferas bem interessantes: enquanto a sequência caminha para ser um dos maiores sucessos comerciais de 2026, a animação tem gerado discussões acaloradas online, um burburinho que coloca em cheque as reações negativas da crítica diante de fãs que acreditam que a adaptação não precisa ser uma obra-prima para cumprir o seu papel. Quem está certo? Não há uma resposta fácil, mas posso dizer o seguinte: esse debate só evidencia o quão perigoso pode ser um discurso equivocado e, curiosamente, esse papo também tem um lado ótimo para quem adora cinema.

Super Mario Galaxy não é um desastre

Illumination

Fruto de uma parceria entre a Universal Pictures e a Illumination com a Nintendo, a animação já faturou 414 milhões de dólares em bilheteria diante de um orçamento "modesto" para sua magnitude, de cerca de 110 milhões. É inegável que este filme é "grandão, sem medo" como dizem os jovens por aí, mas a recepção geral da mídia especializada não agradou os fãs.

Com apenas 42% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes, com base em 188 reviews até o momento, a animação com Mario, Peach, Luigi, Yoshi e muitos outros personagens amados dos games é descrita por muitos profissionais - eu incluso - como uma jornada inchada, porém divertida, que prefere apresentar uma galeria de propriedades intelectuais a conduzir uma história verdadeiramente instigante.

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O problema do filme, e isso aponto na minha crítica também, é mergulhar em um ritmo alucinado de acontecimentos, sem grandes laços entre as partes, e uma narrativa esquecível a ponto de se tornar cansativa. Cara de Um, Focinho de Outro vai por um caminho semelhante quanto à condução, mas sempre separa maneiras de contar uma trama cheia de coração enquanto não deixa de lado sua metralhadora de piadas.

Os vômitos de arco-íris despejados na tela e as muitas piadas - algumas excelentes e outras bem batidas -, não são coerentes com a criatividade da animação. Digo porque este, de longe, é um dos melhores trabalhos técnicos do estúdio dos Minions. No entanto, fica uma sensação de que os produtores preferiram apostar na nostalgia ao invés de construir um roteiro coerente em volta dos elementos fantásticos e coloridos responsáveis por encantar fãs há quatro décadas.

Illumination

Até aí, tudo bem (nem tanto, na verdade), já que Super Mario Galaxy é divertidíssimo como forma de entretenimento puro. Isso, porém, não diminui o compromisso de diretores, roteiristas e editores com um tesouro desse em mãos, em deixar de equilibrar excessos e mergulhar nos arcos dos personagens pelo simplório narrativo. Do que adianta a megalomania e o deslumbre visual se trama é pobre?

Aceitar o mínimo é um perigo irreversível para o cinema

Illumination

A reação do público - aqui representada pelos 89% de aprovação no Rotten Tomatoes com mais de 5 mil avaliações - foi muito positiva, mas o mesmo não pode ser dito sobre a relação entre a crítica e os fãs. Quem é cronicamente online já deve ter visto o discurso "se a crítica não gostou, deve ser ótimo" de pessoas que menosprezam o trabalho de jornalistas, críticos e escritores, especialmente dos que trabalham com entretenimento.

Houve quem dissesse que críticos não precisam dar opinião sobre todos os filmes, pois "têm coisas que claramente não são para nós [adultos]", uma declaração que não apenas diminui um trabalho, mas também evidencia um problemão quanto ao esvaziamento da arte. Então, por se tratar de uma produção destinada ao público infantil, os estúdios podem entregar qualquer coisa? O público e a mídia precisam fazer vista grossa por ser uma animação? Crianças e adolescentes não merecem produções de qualidade? Particularmente, não concordo com nenhuma dessas ideias.

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O grande Guillermo del Toro sempre que pode nos lembra que animação é uma linguagem, não um gênero. O diretor apelidado de Totoro durante as gravações de Circulo de Fogo sempre bate na tecla, e concordo com tudinho, de que animações são tão importantes para o cinema quanto qualquer live-action. Alinhado a isso, independentemente do formato ou público-alvo, filmes precisam de qualidade.

Além disso, não podemos esquecer que ao se fechar para o próprio pensamento crítico apenas pela nostalgia, a mensagem para os estúdios é a seguinte: ninguém liga se determinada produção tem uma boa história ou não, desde que a IP venda. É um estímulo para continuarem moendo propriedades intelectuais a fim de encher filmes de fanservices ao invés de investir em bons roteiristas. Se optassem por simplicidade narrativa, mas efetiva, como no primeiro filme, a conversa seria outra. A indústria cinematográfica já tem muito chuchu sendo vendido como picanha por aí.

Illumination

Todos têm o direito de ter suas opiniões, claro. Super Mario Galaxy encontrou seu público e isso é ótimo! No fim, a sua opinião sobre determinado filme é sempre a mais importante para seu gosto pessoal, sobre a sua experiência e relação com a arte. Mas é possível ter uma coexistência entre as diferentes percepções da mesma obra. A crítica cinematográfica não é inimiga do público, pelo contrário. Ela existe para estimular o pensamento reflexivo, fomentar o debate sobre os efeitos da sétima arte, tentar entender como aquela obra se relaciona com o mundo ou com a sociedade, e por aí vai.

Encerro com algumas palavras de Bruno Carmelo, jornalista e crítico do Meio Amargo que, inclusive, já trabalhou no AdoroCinema: “Nenhum filme é feito para a crítica; assim como a crítica não é feita para a equipe do filme. A liberdade está aí, precisamente. O bom crítico tem que ser capaz de analisar qualquer filme na frente dele, do mais popular ao mais hermético”, escreveu ele no X (Twitter).

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Dito isso, Super Mario Galaxy segue em cartaz nos cinemas. Se ainda não assistiu, é uma ótima oportunidade para refletir sobre essas discussões e dar algumas risadas com Yoshi e Fox, que roubam a cena a todo instante. Aliás, a trilha sonora de Brian Tyler é fantástica.

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