Super Mario Galaxy é vítima da própria ambição: Tão lindo quanto inchado, sequência do filme da Nintendo erra tentando acertar
por Diego Souza CarlosDepois de um trauma vivido por uma geração apaixonada pelo fenômeno de Super Mario Bros., com um filme live-action que foi da paródia a um projeto B quase cult, a Nintendo viveu anos focada apenas no que faz de melhor: os jogos. No entanto, a pressão da indústria de entretenimento é grande quando se oportunidades lucrativas se perdem e, assim, nasceu a primeira animação em longa-metragem do bigodudo mais amado dos videogames.
Três anos depois de um sucesso bilionário, a jornada de Mario e Luigi continua como uma resposta às poucas críticas ao primeiro título: enquanto o anterior era contido, mas efetivo, a continuação se abre para uma aventura megalomaníaca feita de cores, piadas e ritmo acelerado - uma combinação explosiva de estímulos que, embora divertida, pode cansar parte da audiência.
Illumination / Universal Pictures
Em Super Mario Galaxy: O Filme, uma nova aventura leva Mario a enfrentar um inédito e ameaçador super vilão. Enquanto somos apresentados a uma série de personagens icônicos dos videogames, o encanador italiano e seus aliados embarcam numa aventura intergaláctica repleta de ação e momentos emocionantes.
O primeiro filme animado de Super Mario Bros. provou que a franquia se estabeleceu no lugar certo quando parou nos braços da Illumination. O estúdio vinculado à Universal Pictures, lar dos Minions, Patos!, Sing e, claro, Meu Malvado Favorito, é conhecido por um ótimo estilo de animação alinhado a um senso de humor próprio, que consegue dar um toque charmoso tanto à bobeira física quanto nas referências à cultura pop.
Neste sentido, Super Mario Galaxy: O Filme não é uma exceção quando pensamos na comédia, já que utiliza mais de uma âncora para suavizar qualquer elemento dramático em troca de algumas risadas. Ao lado do já amado Toad, damos boas-vindas a Yoshi, aqui dublado por Donald Glover (Sr. e Sra. Smith), em sua versão cinematográfica cheia de swag, se assim podemos dizer. O dinossauro verde não apenas rouba as cenas, como tem um flashback inicial que o coloca na família de personagens como Darwin, de O Incrível Mundo de Gumball, e Garnet, de Steven Universo: há uma espécie de codificação racial que emula alguns arquétipos na tela de maneira curiosa.
Illumination / Universal Pictures
Nesta sequência, quase todos os personagens adicionam alguma piada ou trocadilho ao longo da narrativa e, aos poucos, temos a sensação de que falta certo equilíbrio no roteiro. Em um mundo de excessos onde tudo tem graça, a comédia perde o efeito quando usada em demasia - mesmo quando funciona em boa parte do tempo. Isso, como tudo no projeto, é parte de uma montanha-russa de emoções, uma faca de dois gumes distribuída em momentos excelentes e outros confusos.
Enquanto amplia e expande um universo a ponto de abrir portais para diferentes galáxias, o deleite visual é contínuo. Em uma era guiada pela opacidade e frieza de filmes live-action, chega a ser estonteante receber tantas cores e brilho na tela grande. Este aspecto encantador nos lembra das inúmeras possibilidades da linguagem animada, ainda mais quando usada sob o guarda-chuva da criatividade vista nos jogos da saga. Neste ponto, há brincadeiras gostosas de se assistir com diferentes gêneros, como suspense, muita ficção científica e fantasia.
Illumination / Universal Pictures
Uma batalha que mistura sci-fi e magia dá o pontapé em Super Mario Galaxy, que pisa no acelerador até os últimos minutos do filme. Enquanto assistimos a batalhas, explosões e muita fofura, a animação manda acenos a outras produções como Indiana Jones, Guardiões da Galáxia e Star Wars - deste último podemos citar uma lista cheia de referências. Entre tantos quereres, a história parece não se adaptar ao ritmo constante. Pelo excesso de personagens e acontecimentos, o roteiro tenta separar pequenos grupos de uma missão que muda constantemente de cenário e de intuito. Isso mina a motivação da maioria dos envolvidos, com exceção da Princesa Peach, que tem um capítulo de sua vida revelado para si e para os fãs: a confirmação de uma teoria antiga na comunidade é servida com todos os pingos nos is.
Outro que merece destaque é Bowser, que tenta se redimir dos atos do passado, mas encara um dilema interessante entre uma possível bondade e os anseios do filho, alimentados pelo próprio vilão quando o Jr. era pequeno - mais do que agora, no caso. Como há muito para mostrar, perde-se a possibilidade de abordar brevemente a ressocialização do personagem, vide Os Caras Malvados 2, ou explorar toda essa situação. Apesar disso, o antagonista é a estrela de momentos icônicos do filme que vão fazer a nostalgia palpitar forte no coração de quem já passou horas para enfrentar o castelo do tartarugão.
Illumination / Universal Pictures
Pensando em tantas oportunidades talvez desperdiças, dada a urgência de seguir em frente, parece que Illumination e a Nintendo ficaram com medo de nunca mais poder voltar às telonas com a franquia, já que o salto entre o primeiro e o segundo filme é completamente vertiginoso. Além dos planetas e galáxias apresentados, a gama de personagens é gigantesca. Fora o elenco principal, Goombas, Koopas, plantas piranha, Bullet Bills, Cheep Cheeps, Bloopers e muitos outros tipos de amigos, inimigos e criaturas surgem na tela a ponto de ser preciso uma segunda visita ao filme, com mais calma, para não perder nenhum detalhe.
Em um ano que tivemos o deliciosamente caótico Cara de Um, Focinho de Outro, a adaptação do game homônimo poderia ter seguido por um caminho ponderado sem perder a própria identidade.
Illumination / Universal Pictures
É costumeiro ver produtores, diretores e roteiristas dando declarações como “vai ser maior e melhor” ou “a continuação será ainda mais grandiosa”, uma ambição quase orgânica à máquina de fazer filmes e séries de Hollywood. Uma vez que o primeiro projeto ultrapassou 1 bilhão de dólares em bilheteria, essa resposta é natural. Aqui não temos apenas mais ação e acontecimentos bombásticos, mas um mundo vivo que dificilmente é visto ou alimentado de forma tão detalhista.
É bonito ver como uniram tantos elementos dos jogos em uma única tacada, mas ao fim percebe-se que franquia poderia guardar algumas coisas para outras oportunidades, como Sonic fez e faz nos cinemas. São tantos momentos icônicos e batalhas incríveis, que o peso das imagens diminui ao longo da jornada - especialmente quando percebemos que o herói que dá nome ao longa parece um coadjuvante deste belíssimo caos animado.
Da ótima presença de Fox McCloud ao uso inusitado de fantoches, das sequências fantásticas em 2D à pixel art que transforma a animação de CGI no estilo dos videogames, das batalhas espaciais no estilo Star Wars ao final acelerado, Super Mario Galaxy erra tentando acertar. Para aqueles que seguem a máxima de “sou fã, quero service” é um prato cheio, mas até mesmo em um banquete generoso é preciso entender quando menos é mais.